quarta-feira, 27 de novembro de 2013

UMA BOA LEMBRANÇA NÃO BASTA >> Carla Dias >>


Uma única lembrança pode embalar dias, e dependendo do poder que ela exerce sobre o individuo que possui, tem efeito de eco, e o vai transformando – situações e sentimentos – aos poucos. Como a lembrança que ele remói neste instante, enquanto equilibra-se em ônibus lotado de hora do rush. Aquela que lhe invade, às vezes para amansar delírios, em outras, para inspirar endoidecimentos.

Só que preciso lhes contar, confessadora de tormento alheio que sou, que ele carrega a lembrança e o esquecimento a tiracolo. Ele acessa lembranças, e as mantém vivas, porque aprecia a própria habilidade de ativar o esquecimento, de desfazer-se delas quando bem entende.

Hoje, por exemplo, ele se esqueceu de que era quarta-feira, dia dele de levar as guloseimas para o café da manhã dos funcionários da agência de empregos onde trabalha. Esqueceu-se por escolha, e completamente, até colocar os pés no escritório, adiantar-se até a copa e os cinco o encararem. E a mágica sempre acontece no momento certo, feito deixa de um ator entregando ao outro o desfecho de uma cena de cinema, digna de Oscar. Ele joga os braços ao ar, se aceita como o culpado que assume a culpa, o que lhe atribui mais um atrativo a ser considerado pelas moças presentes, que não há como não apreciar o fato de ele ser palatável aos olhos, um assediador habilidoso de corações desabitados pelo amor. Então, insinua que irá sair para buscar os artigos de luxo de um café da manhã de escritório: bolos, sanduíches e o que mais eles quiserem. É quando acontece o que mais lhe apraze o espírito: em comum acordo, todos eles o liberam da obrigação. Sacrificam-se pelo seu esquecimento voluntário.

Só que esse é o tipo de prazer que dura pouco, e que por mais pungente que seja, esvai-se justamente quando é necessário. Como agora, quando seu olhar se nega a se encontrar com os dos outros, seus ouvidos não se atêm ao que é dito a sua volta, e ele é tomado pela urgência de não pertencer à própria realidade.

Uma única lembrança, quando alimentada pelo sentimento de que nada mais fará sentido após ela ter sido gerada, pode se tornar o cativeiro emocional de uma pessoa. No caso dele, a lembrança, além de algoz, é inventada, que a vida deu de lhe negar acontecimentos dignos de serem revisitados, de rarear conquistas capazes de fazer a roda girar. E como ele não é pessoa que aceita o vazio, por não tolerar mentiras, fez virar verdade esse único momento não acontecido. Essa lembrança, tão bem pontuada por ações críveis e palavras significativas; essa cena na qual ele pensa, antes de dormir, também é a primeira que habita seus pensamentos, logo que acorda.

Preciso lhes contar, esclarecedora de segredos que sou, que ele se acha muito esperto por ter resolvido seu problema de vazio, e que lembrança como a que teceu – com detalhes tão bem definidos, clareza no desempenho das emoções -, é capaz de alimentar seu dentro, diariamente, em uma repetição que ele ainda não entendeu, mas é letal à felicidade.

Basta-se nessa rotina de espera pelo momento em que se sentará em frente à tevê, mastigando o sanduíche disponível, bebendo da latinha do que tiver: cerveja, refrigerante, suco, energético. Assistirá ao programa qualquer, em canal que não importa, e depois, feito prefácio do adormecer, irá se lembrar da lembrança inventada, que é, de fato, o que há de mais real em sua vida.

Devo lhes contar, confeccionadora de lembranças que sou, que ele não sabe, esse pobre homem no ápice da preguiça de ser, que até mesmo a lembrança não vive só. É preciso criá-las, diariamente, porque sem companhia, essa uma, essa importante lembrança, não passa de uma prisão.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



Partilhar

Nenhum comentário: