sábado, 9 de novembro de 2013

RAROS PRAZERES [Sandra Paes]

Nessa manhã sou sacudida por raios e trovões. Havia um arrastar de pedras e torrentes de águas pesadas arrastavam tudo. Uma dor de cabeça rara se iniciou bem no centro do cranio. O redemoinho do furacão era lá. Um epicentro único a refazer todas as memórias e todos os recantos de uma cabeça, já nem sei mais de que cor.

Sim, gosto das tempestades. A força da natureza ali manifestada dessa forma sempre me acorda e me faz lembrar minha própria natureza, presa, contida em um corpo que parece limitar meu espirito que gosta de voar e navegar em tantas paisagens jamais vistas.

Ah, o descortinar do invisível, do intangível, o ousar tocar... Isso... A busca fremente do desconhecido, é da ordem da fé ou do que se chama de divino.

A vida ali oculta me chama, hoje - sempre... Acho que flerto com a morte porque ela, guardiã de portais de transições, vem brincar comigo. Vira meus sonhos de perna pro ar, me mostra fatos ainda por vir, e sussurra docemente em meu ouvido cada vez que leva alguém consigo pra esse outro mundo, do outro lado de outros horizontes.

Sim, tudo alem do alcance da vista comum, ocupada por papeis ridículos, documentos que nada documentam, e toda essa forja nada plutônica que a burocracia do mundo ainda insiste em sustentar como regra maior de convívio entre os homens e suas culturas.

Procuro pelo abraço longo e estreito, o colar de corações que ardem e clamam por mais.Anseio pelo sorriso inevitável  mostrado em encontros de tão longa data esperados. Quero todos os brindes com vinho e champanhe no dia a dia, porque guardam sempre  um sabor a mais do que o cotidiano trivial e desculpado pela falta de tempo. 

Todo tempo é meu, todo beijo é sempre seu, porque sela de forma especial o amor que nem reconhecemos. Sim, porque amor não se encontra, se reconhece. E isso é o maior de todos os prazeres - reconhecer o amor, que como a morte, brinca de viver com você  comigo, e nos testa na ousadia maior da vida: pegá-los!

Essa tempestade que se anunciou  pra mim,  pra mim mesmo ou para aqueles que a desejam tanto, se deu somente dentro de mim, no mundo de meu sentir.

Há lá fora um sol que brilha aquém das nuvens que ocultam os mistérios que em mim querem se fazer nus. Há o mesmo corredor entre as portas. O mesmo ar soprando pelas ventanas do teto. Há um instante de sei-la-o-que, silencioso como o olho do furacão que se revela poderoso  pra quem o contempla sem medo.

E isso é o que me fascina, sempre. Esse instante mudo onde tudo se passa e onde todas as moléculas se cruzam a fecundar outra galáxia. Não tenho dúvidas sobre a sexualidade cósmica. É a mesma que se passa dentro de ventres férteis. A vida se renova a cada tempestade prenunciada, e seu jorro é orgásmico e orgânicoNova vida se anuncia e fui avisada. E agora ?

Em nosso céu la nave vaEspera... A bonança está pra chegar em breve. Prazeres raros sempre se dão entre raios que até se passam entre neurônios que nem sabem o que fazem. Esse o mistério do viver: muito prazer! Encantada!


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