sexta-feira, 24 de maio de 2013

ERRO DE CÁLCULO >> Zoraya Cesar

Cidinha era apaixonada pelo patrão - assim como todas as demais empregadas da firma, que sonhavam em conquistar Dr. Roberto, com seus ombros largos, sua voz profunda e grave, um sorriso de anúncio de pasta de dentes. Caráter, esse ninguém conhecia direito. Se comia de boca aberta, se tomava banho todos os dias, se atropelava ciclistas, se jogava lixo no chão, ninguém sabia. Mas que era rico, bonito e mais importante que tudo, solteiro, ah, isso todo mundo sabia. 

Ela sonhava com o dia em que o Dr. Roberto a convidaria para ir à sua sala e a tomaria em seus braços, declarando-se perdidamente enamorado. Mas Cidinha tinha noção de que o chefe era muita areia pro seu caminhãozinho. Aliás, ninguém ali, em sua opinião, teria condições de amolecer o coração dele; nem mesmo a gerente, D. Sonia, que, apesar de fina e elegante, de falar línguas e ter o 3º grau completo, já passara há algum tempo dos 40 e usava óculos, estava fora do jogo. E Cidinha, definitivamente, não queria ficar solteirona como a pobre da D. Sonia.

Pragmática, deu as costas às fantasias e mirou no contador-chefe, Jefferson, uma figura deveras desinteressante aos olhos dos colegas, mas que tinha uma carreira sólida e ganhava muito bem. Sempre sério, era totalmente diferente do animado e alegre Dr. Roberto. A vida ao lado do insosso Jefferson iria mesmo ser muito sem graça, suspirava Cidinha, mas o importante era casar. Não adianta me perguntarem o porquê dessa fixação de Cidinha em casar a qualquer custo, aliás, isso é da conta dela, não da nossa, que somos muito enxeridos. Ela queria casar, e o pálido, tímido e desenxabido contador-chefe, no qual ninguém prestava muita atenção, era um alvo possível.

E Cidinha, bonitinha, espevitadinha e casadoira, deu início à campanha, denominada, entre as amigas, de “caça ao chuchu”, de tão sem graça era o coitado do Jefferson. E tanto fez que fez que, em pouco tempo, marcaram um encontro, só os dois.

Mas, paixão é paixão, e, numa terça-feira chuvosa, antes que o encontro se concretizasse, Cidinha caiu em tentação e aceitou o convite do Dr. Roberto para assistir um vídeo da escalada que ele fizera no Chile. Depois do expediente, obviamente. Cidinha quase desmaiou de excitação. Claro que iria. Mas como, sem despertar suspeitas?

Ao final do expediente, Cidinha desceu junto com todo mundo, mas, alegando ter esquecido o guarda-chuva, despediu-se de Jefferson, e voltou, o coração na boca. E já encontrou o Dr. Roberto a esperá-la, sem gravata, sem paletó, sem blusa e... sem calças! Não era bem assim que ela sonhara o primeiro encontro, mas, pensou, o importante era que Dr. Roberto a queria. O sorriso reluzente dele desfez os últimos resquícios de pensamento coerente de Cidinha, que acedeu ao apelo físico e foi em frente.

E, surpreendentemente, se ele gostou da experiência, o mesmo não se pode dizer de Cidinha, que, além de decepcionada com a falta de romantismo, achou Dr. Roberto mais entediante que horário eleitoral. E, digamos, não muito bem dotado, se é que vocês me entendem... Pior, no dia seguinte, o ocorrido ficou tão evidente, que Cidinha se viu obrigada a abrir o jogo com Jefferson, terminando qualquer possibilidade de namoro, quanto mais de casamento.

E com Dr. Roberto, como ficou? Na verdade, ele só queria uma carne macia e um ouvido atento, que acolhessem suas intermináveis viagens ao redor do próprio umbigo. Tão indiferente era Dr. Roberto ao bem estar de Cidinha que, alguns dias depois, ele foi embora sem nem mesmo perguntar se ela queria uma carona. E chovia...

Cidinha voltou para casa arrasada, decidida a acabar com aquela situação. Daquele mato, concluiu, não sairia nem pulga, quanto mais cachorro. E, quem não tem cão, caça contador-chefe. Voltou a procurar Jefferson, dizendo-se arrependida e querendo uma nova chance. Achava-o, agora, até interessante. Ouvira, um dia, D. Sonia dizer que ele era um cavalheiro, atencioso, e muito culto. E que atrás daquela reserva toda havia um homem decidido e auto-confiante, era faixa preta em caratê, quem diria?

Jefferson tentou interrompê-la, mas ela não deixou, verborrágica, ansiosa por reconquistar o território perdido. Confiava muito em seu poder de sedução, era a mulher mais bonita da firma (não à toa, pensava, o intragável Dr. Roberto se aproximara). Quando ela terminou, Jefferson, generosamente, disse que não havia o que perdoar, mas que reatar seria impossível, ele estava comprometido. Como?, engasgou Cidinha, com quem?

D. Sonia, respondeu ele, singelamente, com um brilho apaixonado no olhar.


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13 comentários:

Cristiane disse...

Coitada da Cidinha... perdeu a vez!!! kkkk. Só não entendi o preconceito com os óculos da D. Sonia... rsrsrs.

Cecilia Radetic disse...

adorei zo, pra gente saber que nem só de aparencia vive o homem...
mas tenho minhas dúvidas se o jefferson já não sabia que d sonia era melhor, até porque ela usa óculos! bjs

Anônimo disse...

É Cidinha, você não é Campos e esqueceu do velho ditado "mais vale uma andorinha na mão que duas voando...."
Adorei Zo, e protesto pelos óculos de D.Sonia, eu também uso os tais.
Beijos
Aglae

Anônimo disse...

Pô, vou fazer coro, qual o problema de usar óculos?????!!!
Bom, crônica romantiquinha da Zozoca, botando as pessoas do bem juntas e dando uma lição em quem trai: acabou dispensada até pelo chuchu!

Erica disse...

Essa crônica tá perfeita pra encaixar diversos ditos da sabedoria popular, do tipo: Quem vê cara não vê documento, digo, coração rsrs E... foi ao vento perdeu o assento. Ou... quem tem olho grande não entra na China rs
Ótima!

Ana Luzia disse...

herbert viana já dizia, eu não nasci de óculos, eu não era assim...

na adolescência, os óculos talvez façam diferença e, vamos combinar, a cidinha é quase uma adolescente, não é de impressionar que ela visse os óculos de d. sônia com um tom pejorativo...

já gente adulta, culta, inteligente, como nosso jefferson, sabe... óculos são um charme!!

bj, zô! parabéns!

aretuza disse...

Bom, pelo menos com essa a Cidinha aprende a valorizar o q realmente importa!!! Lição para todas nós!

Alexandre Durão disse...

Zoraya, querida. Deliciosa crônica. Inclusive porque faz certa justiça aos homens. Se tem mulher melancia, porque não dar valor ao homem-chuchu? Gostei, tecnicamente falando, da preparação de cena com relação a Sonia, que entrou coadjuvando e serviu, muitíssimo bem, para o fechamento da história. Muito bom. Sinto a pena se soltando no papel. Beijos.

Ana González disse...

Adorei! Zoraya, situação bem á moda real. Divertida. Mas divertida para quem quer ou pode ver assim, né mesmo? rssrs....

Zoraya disse...

Oi Pessoal! Meninas, não se chateiem com o lance dos óculos... EU uso óculos, e definitivamente não sou tão nova e bonitinha como a Cidinha, rsrs. A Ana e a Ceci têm razão, óculos sao um charme à parte.
Alexandre, gostei do homem-chuchu. Mas ainda vou responder ao seu desafio de fazer uma crônica em favor da ala masculina.
A todos, obrigada!

Mauro disse...

Pobre Cidinha... devia usar óculos! Adorei, Zô, ótima como sempre!

Anônimo disse...

Zoraya, adorei! Fiquei com pena da Cidinha, mas ela colheu o que plantou. Gostaria de dizer a ela uma - Vamos em frente!" kkkk Bjs, Dayse.

Fabio de Souza disse...

Gente, quantos textos maravilhosos!!
Muito bom, muito bom. Azar o da Cidinha. rs