segunda-feira, 6 de maio de 2013

SWINGANDO >> Albir José Inácio da Silva

Primeiro foi só um zumbido. Abriu os olhos, mas não enxergou. Aos poucos os vultos viraram enfermeiras ou médicos. Por fim entendeu as palavras.


- Está melhor?


Não, Dona Araci não está melhor. Está acordada, não melhor. O corpo treme e a respiração custa. Como pode estar melhor? Nem quer melhorar – quer morrer. Lembra-se dos últimos momentos antes da vista escurecer: delegacia, sala cheia, delegado e Doroteia. Doroteia falava da dança.


Dança com que Dona Araci sonhou a vida toda, mas nunca dançou. Dança que perguntou a Seu Ramiro, pé-de-valsa e homem de valor, como é que era, porque não gostava dessas indecências que se dançavam por aí, como a lambada. Dança séria, elegante, graciosa, como ele explicou. Dança que ela incentivou a filha Samara a dançar, para que ela conhecesse gente de bem e se casasse com todo respeito.


Muitas vezes perguntou a Samara por uma apresentação para parentes e amigos. Queria ver a filha deslizando pelo salão nos braços de um cavalheiro distinto. Queria realizar na filha os próprios sonhos.


A enfermeira lhe põe o termômetro na boca e mede a pressão. O médico puxa a pálpebra de um olho, depois do outro.


Samara não tinha sido um anjinho na infância, mas isso nunca preocupou Dona Araci que não deixava espaços para grandes rebeldias. Qualquer desobediência ou malcriação era exemplarmente sacudida com um cinto que para essa finalidade ficava pendurado atrás da porta. Mas a idade deu juízo à menina e depois dos dezoito o cinto não se fez mais necessário.


Isso não significa que Dona Araci diminuiu a vigilância. Controlava horários, conhecia as amigas e as mães das amigas que Samara frequentava. Dava incertas na porta da escola noturna e telefonava quando menos se esperava.


Revoltavam-se as outras senhoras porque, segundo elas, Dona Araci exercia esse controle também sobre as filhas delas, esmerando-se na arte de identificar e classificar pecados, e promovendo a devida divulgação. Na verdade não gostava era de esculhambação, dizia, não pensassem que ficaria calada diante da imoralidade. Quem cala, consente.


Essa coisa de dança - pensa agora enquanto os exames prosseguem - foi ela mesma quem sugeriu. Mas quando ouviu Samara ao telefone falando do ritmo, foi perguntar a Seu Ramiro, pessoa de sua confiança e uma verdadeira enciclopédia.


- O swing surgiu nos Estados Unidos com grupos negros dançando ao som de jazz no início dos anos vinte. As primeiras danças desse tipo foram o charleston e o lindy hop, que deram origem a várias outras danças.


Tranquilizou-se Dona Araci: dança séria, de antigamente, como convinha a uma moça. E já estava na hora. Nada de mal poderia acontecer com a educação que dera a Samara. Se ela ficasse trancada em casa, como ia arranjar marido? Esse era outro sonho: a filha de branco entrando na igreja. Tem aí umas comadres que iam morrer de inveja, desperdiçadas que estavam suas filhas, amigadas umas, mal-faladas outras, perdidas todas. Mas com ela a coisa era diferente.


Quando o telefone tocou, avisando que Samara estava presa, Dona Araci deu um grito e as vizinhas acorreram. Nesses momentos as mágoas são esquecidas. É assim pelo menos no subúrbio.


Na delegacia, a autoridade arrancava os cabelos e ameaçava prender:


- A senhora sabia, Dona Araci, que sua filha e o namorado foram presos numa festa swing com outros sete casais e várias adolescentes? Então não me venha com essa conversa mole de moralismo.


- Sabia, claro que sabia – exasperou-se - Eu sei de todos os passos da minha filha. E desde quando alguém é preso por dançar? Tem umas danças por aí que eu não gosto, como a tal da lambada. Mas nunca vi ninguém ser preso por isso. Ah, alguém vai ter que se explicar por aqui. Estou partindo pra corregedoria.


Coube a Doroteia, uma das três vizinhas que tinham acompanhado Dona Araci à delegacia, e que mesmo amiga era alvo frequente de sua impiedosa língua, o prazer de explicar a ela a diferença entre o elegante ritmo americano e o swing que Samara costumava “dançar”.


No hospital as coisas vão muito bem. Os exames mostram que Dona Araci tem saúde de ferro e os médicos dizem que ela pode fazer qualquer coisa:


- Até dançar, Dona Araci. Até dançar.


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5 comentários:

Élida Regina disse...

Que incrível! Amei! Parabéns por esse belíssimo texto!

Ana González disse...

Adorei, Albir. História de mãe. Triste omo só.

albir disse...

Obrigado, Élida Regina e Ana Gonzalez, pela leitura e comentários.

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Albir é de um estilo fluente e cativante. Muito embora eu não comente muito, estou sempre lendo e aprendendo amigo! Prossiga.

Zoraya disse...

Que ideia genial, Albir, essa do swing! Um abraço na D. Araci, por favor