Pular para o conteúdo principal

DO TOCA-DISCOS ÀS RUAS >> Carla Dias >>


Escutando Gracefully, do Vintage Trouble, no repeat.


Disseram-lhe, tantas vezes que não houve como não decorar, que essa coisa de gostar anda démodé, não rende futuro ou prazer. Que o ser humano nasceu para deflorar oportunidades, esbaldar-se em projetos concretos e definitivamente importantes para a evolução. E quanto mais essa evolução envolver poder, melhor.

Como seus pais cansaram de lhe dizer – aos berros e safanões – essa busca dele é tão tola. Se já o era quando ele ainda era menino, e tinha direito à ingenuidade, agora lhes parece um escandaloso atestado de incapacidade. E a vergonha que seus familiares alimentam por ele já não dói como doía quando ele era mais jovem, inexperiente em se valer da indiferença para proteger o que sempre lhe foi mais caro.

Quando começaram a chamá-lo destrambelhado das ideias, ele aprendeu que as pessoas sentem certo prazer em definir o outro, ainda que estejam completamente enganadas, que nada saibam sobre ele. Mas não se rendeu à tristeza que nasce da injustiça das palavras alheias. Ao contrário, encheu-se de coragem para defender o que acreditava.

Um amigo, bêbado de carteirinha, mas pessoa indiscutivelmente sensível e culta, disse-lhe, certa vez, que o que ele procurava era insana e deliciosamente improvável. Que o método dele era, no mínimo, uma doidice, mas que por isso lhe parecia tão aprazível. Que apesar de sua profissão ser marceneiro, ele deveria repensar isso, que a sua loucura poderia lhe render bons trocados.

Não que não tenha falhado, porque falhou e muitas vezes. Houve dias em que acreditou ser tudo o que as pessoas diziam, que os seus pais diziam. Mas o que lhe rendia o espírito se mostrou muito mais forte, propagando-se em seu dentro, revitalizando sua busca.

Um amigo de seu avô, a quem chamava tio desde sempre, presenteou-lhe com alguns discos antigos, quando ele era menino de tudo, ainda estava aprendendo a ler. Ensinou-lhe a escutá-los em um vitrola, sentado no sofá, quieto, misturando-se com a música, mergulhando nas letras. Enquanto crescia, dividia os assuntos da escola com horas à mercê do ritual do tio, que se tornou o dele. A mesma vitrola, herdada após a morte de seu mentor, espalha a música pela sala de sua casa, nos dias de hoje. E o violão, no qual aprendeu a tocar aquelas canções, também lhe faz companhia, agora como relicário, que está muito velho e ele se nega a reformá-lo para não perder a clareza da lembrança de seu tio a lhe ensinar notas, a alimentar música.

Lembra-se da historia que seu tio lhe contou, e que lhe marcou tão profundamente, que ele trouxe para a sua realidade aquele sonho, aquela vida inventada. Enquanto escutavam os discos, seu tio falou sobre um livro que leu, no qual o personagem, um homem sem rumo e infeliz, certo dia acordou com a certeza de que encontraria o amor de sua vida, e que ela seria uma mulher capaz de despertar nele a capacidade de identificar e sentir felicidade. Para tanto, ele teria de ir para as ruas, todas as noites, se sentar na calçada e tocar seu violão, cantar canções de amor aos passantes, embelezando o coração deles com a possibilidade com a qual o próprio flertava, até que ela, distraída com seus pensamentos, passasse por ele e fosse fisgada pela música, e depois, pelo olhar dele.

No livro, o homem, depois de semanas, e de se afundar na certeza de que jamais encontraria aquela mulher, fisgou seu amor com uma canção de autoria própria, a única que compôs em sua vida. Na realidade dele, já se vão aí alguns anos de busca, e entre imaginar essa mulher e conhecê-la, já compôs tantas canções de amor que não se importa se as pessoas as peguem emprestadas para servirem de trilha sonora para seus próprios romances. E todas as noites, quando se senta na calçada, toca seu violão, canta suas canções, as pessoas o cercam, um público cativo o acompanha pelas ruas da cidade. Alguns torcem por ele, outros, como seus pais, acham que ele é um tolo com um sonho tão tolo quanto, um homem desprovido da capacidade de ser um vencedor, cercado pela inabilidade de acabar com busca tão ridícula.

O que não sabem é o que o tio lhe revelou, pouco antes de se render à morte. Não sabem que o livro não era livro, o personagem não era personagem. Era vida, a dele, e esse toque de realidade só fez lhe aguçar o desejo de viver aquilo.

Então, pode ser démodé pensar como ele, sentir como ele, buscar o que ele busca. Mas não é desperdício de tempo, não é loucura elaborada. E se ainda não chegou ao fim dessa história, sabe que seu desenrolar jamais o desapontará. Porque, vejam só quantas canções já nasceram, quantas declarações de amor foram feitas com elas servindo de trilha sonora. Não foi preciso o amor de sua vida chegar para despertar nele a felicidade. Quem sabe, nessa história, seja dele esse papel.

Quem sabe...

GRACEFULLY - VINTAGE TROUBLE
Imagem: sxc.hu

Comentários

Zoraya disse…
Carla, Carla, você, qualquer dia, sai flutuando por aí! Se é que já nao faz isso às escondidas...
Carla Dias disse…
Zoraya... Tenho de confessar que sim :) Beijos!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …