quarta-feira, 15 de maio de 2013

DO TOCA-DISCOS ÀS RUAS >> Carla Dias >>


Escutando Gracefully, do Vintage Trouble, no repeat.


Disseram-lhe, tantas vezes que não houve como não decorar, que essa coisa de gostar anda démodé, não rende futuro ou prazer. Que o ser humano nasceu para deflorar oportunidades, esbaldar-se em projetos concretos e definitivamente importantes para a evolução. E quanto mais essa evolução envolver poder, melhor.

Como seus pais cansaram de lhe dizer – aos berros e safanões – essa busca dele é tão tola. Se já o era quando ele ainda era menino, e tinha direito à ingenuidade, agora lhes parece um escandaloso atestado de incapacidade. E a vergonha que seus familiares alimentam por ele já não dói como doía quando ele era mais jovem, inexperiente em se valer da indiferença para proteger o que sempre lhe foi mais caro.

Quando começaram a chamá-lo destrambelhado das ideias, ele aprendeu que as pessoas sentem certo prazer em definir o outro, ainda que estejam completamente enganadas, que nada saibam sobre ele. Mas não se rendeu à tristeza que nasce da injustiça das palavras alheias. Ao contrário, encheu-se de coragem para defender o que acreditava.

Um amigo, bêbado de carteirinha, mas pessoa indiscutivelmente sensível e culta, disse-lhe, certa vez, que o que ele procurava era insana e deliciosamente improvável. Que o método dele era, no mínimo, uma doidice, mas que por isso lhe parecia tão aprazível. Que apesar de sua profissão ser marceneiro, ele deveria repensar isso, que a sua loucura poderia lhe render bons trocados.

Não que não tenha falhado, porque falhou e muitas vezes. Houve dias em que acreditou ser tudo o que as pessoas diziam, que os seus pais diziam. Mas o que lhe rendia o espírito se mostrou muito mais forte, propagando-se em seu dentro, revitalizando sua busca.

Um amigo de seu avô, a quem chamava tio desde sempre, presenteou-lhe com alguns discos antigos, quando ele era menino de tudo, ainda estava aprendendo a ler. Ensinou-lhe a escutá-los em um vitrola, sentado no sofá, quieto, misturando-se com a música, mergulhando nas letras. Enquanto crescia, dividia os assuntos da escola com horas à mercê do ritual do tio, que se tornou o dele. A mesma vitrola, herdada após a morte de seu mentor, espalha a música pela sala de sua casa, nos dias de hoje. E o violão, no qual aprendeu a tocar aquelas canções, também lhe faz companhia, agora como relicário, que está muito velho e ele se nega a reformá-lo para não perder a clareza da lembrança de seu tio a lhe ensinar notas, a alimentar música.

Lembra-se da historia que seu tio lhe contou, e que lhe marcou tão profundamente, que ele trouxe para a sua realidade aquele sonho, aquela vida inventada. Enquanto escutavam os discos, seu tio falou sobre um livro que leu, no qual o personagem, um homem sem rumo e infeliz, certo dia acordou com a certeza de que encontraria o amor de sua vida, e que ela seria uma mulher capaz de despertar nele a capacidade de identificar e sentir felicidade. Para tanto, ele teria de ir para as ruas, todas as noites, se sentar na calçada e tocar seu violão, cantar canções de amor aos passantes, embelezando o coração deles com a possibilidade com a qual o próprio flertava, até que ela, distraída com seus pensamentos, passasse por ele e fosse fisgada pela música, e depois, pelo olhar dele.

No livro, o homem, depois de semanas, e de se afundar na certeza de que jamais encontraria aquela mulher, fisgou seu amor com uma canção de autoria própria, a única que compôs em sua vida. Na realidade dele, já se vão aí alguns anos de busca, e entre imaginar essa mulher e conhecê-la, já compôs tantas canções de amor que não se importa se as pessoas as peguem emprestadas para servirem de trilha sonora para seus próprios romances. E todas as noites, quando se senta na calçada, toca seu violão, canta suas canções, as pessoas o cercam, um público cativo o acompanha pelas ruas da cidade. Alguns torcem por ele, outros, como seus pais, acham que ele é um tolo com um sonho tão tolo quanto, um homem desprovido da capacidade de ser um vencedor, cercado pela inabilidade de acabar com busca tão ridícula.

O que não sabem é o que o tio lhe revelou, pouco antes de se render à morte. Não sabem que o livro não era livro, o personagem não era personagem. Era vida, a dele, e esse toque de realidade só fez lhe aguçar o desejo de viver aquilo.

Então, pode ser démodé pensar como ele, sentir como ele, buscar o que ele busca. Mas não é desperdício de tempo, não é loucura elaborada. E se ainda não chegou ao fim dessa história, sabe que seu desenrolar jamais o desapontará. Porque, vejam só quantas canções já nasceram, quantas declarações de amor foram feitas com elas servindo de trilha sonora. Não foi preciso o amor de sua vida chegar para despertar nele a felicidade. Quem sabe, nessa história, seja dele esse papel.

Quem sabe...

GRACEFULLY - VINTAGE TROUBLE
Imagem: sxc.hu



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2 comentários:

Zoraya disse...

Carla, Carla, você, qualquer dia, sai flutuando por aí! Se é que já nao faz isso às escondidas...

Carla Dias disse...

Zoraya... Tenho de confessar que sim :) Beijos!