domingo, 26 de maio de 2013

O VALOR DAS COISAS >> Whisner Fraga

Uma mulher que caminha de saltos altos em seu apartamento, incomodando o morador do andar de baixo. Um senhor que briga muito com a esposa, acordando a criança no quarto de cima. Isso tudo em um prédio de classe média-alta de uma cidade na grande São Paulo. A história acaba assim: dois assassinatos e um suicídio e um bebê de um ano e meio chorando sem ter ideia do que acontecera.

Um rapaz vem do curso noturno que frequenta em uma universidade. Está perto de casa e fala ao celular. De repente um homem de capacete se aproxima e lhe pede o telefone. Ele entrega o aparelho e logo em seguida leva um tiro fatal. A moto está aguardando o criminoso, que foge calmamente da cena, certo da impunidade.

Fatos assim são rotina nas grandes capitais: São Paulo registra dez latrocínios todos os dias. Os motivos, muitas vezes, são banais. “Um dia de fúria”, comenta o delegado a respeito do primeiro caso. Diante das notícias que fazem o prazer dos jornalistas, temos medo de sair de casa. Na rua Guyanazes, depois das nove da noite é possível testemunhar o vaivém de centenas de viciados, que tomam a rua e andam daqui prali abraçados a seus cobertores, como se fossem zumbis esperando a chegada da próxima pedra de crack.

Outro dia a novidade: a droga chega aos canaviais. Cortadores de cana se entorpecem para suportar o dia de trabalho e os capatazes aceitam calados. Se proibirem o uso, correm o risco de perder o funcionário. E as usinas não podem dispensar esse tipo de trabalhador. São Paulo se tornou uma cracolândia: não há um quarteirão da cidade que não tenha sua dúzia de viciados. Não vou fazer o papel de moralista, porque ele não me cabe. Cada um sabe o que faz de seu corpo. Mas há o velho ditado: o seu direito acaba onde começa o meu.

O problema é que a droga não é de graça e nem sempre o viciado consegue trabalho para saciar sua vontade. O resultado todo mundo sabe: ele vai para o crime. A vida, já disse outras vezes,  não vale uma picada de fumo. Não posso afirmar que em outras épocas tenha tido um valor maior, uma vez que o ser-humano é isso mesmo: um depósito de egoísmo e perversidade, salvo, evidentemente, raras exceções.

É mentira quando dizem que estamos vivendo uma guerra civil. Porque, quando há batalhas, ficamos sabendo. E mais: os uniformes nos entregam os times. Podemos discernir de que lado estamos e fugir do inimigo. Mas e hoje? Quem é o inimigo? Há, realmente um ou as coisas estão acontecendo tão aleatoriamente que não podemos mais explicar quase nada?

Tenho minhas teorias, mas não acho que caibam em uma crônica. Este pequeno texto é só para denunciar a minha inquietação e serve como um desabafo, um depoimento sobre um companheiro que me acompanha há mais de quarenta anos: o medo. Vivemos a era do medo, ele nunca foi tão poderoso, tão onipotente e onipresente. A certeza é que quanto menos vale a vida mais temos receio da morte.

Partilhar

Um comentário:

Zoraya disse...

Maravilhosa crônica, Whisner. E o que aumenta nosso medo é a consciência, cada vez maior, de que estamos abandonados à própria sorte. Teorias, há muitas, todas com seu fundo de verdade. Mas acho que a falta de amor e compromisso são grandes concorrentes à vaga de vilões número um.