quinta-feira, 16 de maio de 2013

X-TOUCINHO >> Mariana Scherma


Dia desses estava fazendo hora numa livraria e resolvi abrir um livro com “300 palavras em português – para estrangeiros”, a ideia do livro era facilitar a vida dos gringos ao falar “por favor”, “obrigado”, “quanto custa”, essas coisas de turista. Acreditei nisso até chegar ao bacon. Sabe como o livro ensina o pobre gringo a falar bacon? Toucinho. Isso aí, toucinho, sendo que bacon funciona muito bem no Brasil. Eu nunca pedi um x-toucinho. Você já? Foi aí que percebi que zombar o bem-intencionado turista era a função mais certa pra definir o livro.

Na hora, me lembrei de uma amiga que foi fazer intercâmbio em Sidney, na Austrália. Quando os amigos, cada um de uma parte do mundo, peguntavam como se dizia “oi, tudo bem?” em português, minha amiga explicava que era “e aí, o que que tá pegando?”. Obviamente, depois ela passava mal de rir ao recordar eles tentando falar essa expressão que, nossa, a gente usa todo dia... Só que jamais. Está um pouco no DNA do brasileiro fazer graça, contar piada de argentino, português e cia. Não acho isso errado e confesso que já contei muita piada (minhas amigas japonesas não me deixam mentir) e morri de rir do o-que-que-tá-pegando da minha amiga. É uma questão cultural, o Brasil é o país da piada fácil, do riso solto, do bom humor. Até aí, ok, tudo certo.

Mas depois fiquei pensando... Logo menos, receberemos turistas aos montes. Copa das Confederações, do Mundo, Olimpíadas, sem falar no tanto de turista que chega todo dia e feliz da vida pra conhecer nosso país. Imagina se todos eles decidirem pedir um x-toucinho pra matar a fome. Vai ser o maior bullying da história. O que vai ter de brasileiro rolando de rir e o que vai ter de gringo com cara de interrogação... Uma loucura! Primeiro porque ninguém pede x-toucinho, segundo que para um estrangeiro dizer toucinho vai ser complicado. Nosso nh é um dos maiores mistérios da humanidade, mas que vale a pena ser trabalhado – pra pedir caipirinha, não toucinho.

Eu, que até o dia em peguei o livros das 300 palavras em português, não sabia ao certo o que viera fazer no mundo e suspeitava que o motivo da minha existência andava meio preguiçoso duvidoso, descobri nesse dia. Vou espalhar a todos os gringos que bacon continua sendo bacon por aqui. Toucinho é uma palavra engraçadinha, mas que pode bem ser substituída. Se a gente quer explorar o turismo brasileiro, tem que melhorar o relacionamento. Vamos guardar as piadas de portugueses, argentinos e japoneses pra nós mesmos, é nosso tesouro interno. Mesmo porque, pra eles nem tem graça. Vamos parar com o bullying contra o gringo, ele já é castigado pelo nosso sol tropical, pelas camisetas floridas que teima em usar por aqui e pelo nh da caipirinha. Para eles, vamos exibir a simpatia e o jeito amigo brasileiro. Eu, você, minha amiga do que-que-tá-pegando e o livro das 300 palavras em português. Sou brasileira e o toucinho não me representa. Sem mais.




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