sábado, 11 de maio de 2013

FLORES PARA UMA MULHER [Ana Gonzalez]

Quando a moça subiu as escadas da porta de entrada do ônibus, perturbada, não sabia o que fazer. Como passar pelas pessoas que se acotovelavam pelo meio do corredor? Ela tinha nos braços um grande maço de flores.

Daí que quando me propus a segurar o ramo, ela gostou porque teria tempo para resolver o que fazer. Enquanto eu o segurava, ela foi falar com o cobrador. Desceria pela frente do ônibus? Não haveria outra solução melhor ou possível. Insistir em ir por lugar tão cheio seria prejudicar as flores. Seria incomodar e provocar reações insuspeitadas nas pessoas já bastante apertadas entre si. Mais um ramo de flores? Nem pensar.

Quando me vi estava, no balanço do ônibus, equilibrando um buquê generoso de beleza e amor. Eram rosas vermelhas e pelo meio delas, folhagens e outras flores pequenas e brancas. Foi assim que durante o longo percurso até o destino da dona, mantive o ramo no colo. Agradável sensação de leveza e perfume. Deu tempo para conversar um pouco. Chegando pela manhã ao local de trabalho ela tivera essa surpresa. Não era nenhuma comemoração especial, fora apenas mais um gesto delicado do namorado. Suspeitei que era um relacionamento novo. Não me enganara.


O longo trajeto e o trânsito abriram espaço silencioso para lembrar as flores que eu também ganhara pela vida. Essa suspensão no tempo despertou memórias de outros ramos. De flores variadas, todas especiais, muitas das quais permanecem despetaladas e secas em meio às páginas de livros e, ainda assim, mágicas quando libertadas desse esquecimento. É privilégio ter esse tesouro, que agradeço aos homens que me maravilharam e souberam abrir um sorriso na boca e nos olhos preparando o caminho para meu coração. E deram argumento para eu acreditar no amor e nos relacionamentos. 

Talvez hoje em dia eu seja menos romântica e mais pragmática por acreditar que as relações se sustentam menos por flores e mais por razão e boas decisões na vida cotidiana. A vida me tornou menos crédula na força das flores, a despeito dos significados que elas possam evocar em nossa cultura, certamente todos em um plano maior de nossa experiência,

Temi pelo que poderia acontecer com a alegria daquela moça tão jovem, quase menina, bem vestida para o trabalho, com cabelos tratados, unhas polidas, portando aquele meio sorriso nos lábios ao olhar para seu presente.  Eu adivinhava a esperança que iria dentro dela. Os pensamentos e as imaginações de romance. A promessa de amor e tudo o que alguém de sua idade deseja. Da sua idade? Na verdade, tudo o que todos nós, em qualquer idade, desejamos em relacionamentos. Aquele clima de confiança que modifica a cara do mundo e nos tira o medo de atravessar as esquinas da vida.

Talvez ainda haja em algum desvão de mim aquela mulher que ganhou tantas flores. Ela está viva. Com os mesmos desejos de flores e promessas de amor. Cúmplice, pensei tudo isso observando a mulher que merecera o gesto poético. E apesar do leve temor que se levantou dentro de mim pelo futuro desse relacionamento, desejei que ele não caísse no ramerrão do cotidiano e que se mantivesse para sempre em patamar de celebração do encontro.

Como nos contos de fadas. E me senti, então, com o dom de fada madrinha. Desejei firmemente que o namorado-amado-amante continuasse esse homem delicado e afeito a comemorar as qualidades de uma mulher e dos espaços de romance.

E disse a ela, também firmemente, antes que ela descesse do ônibus: “Seja sempre uma mulher que merece flores. Há muitos homens por aí à procura de uma delas para presentear, na intenção de manter a chama do encantamento e da esperança.”


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9 comentários:

albir disse...

Muito interessante essa reflexão, Ana. Quase ninguém acredita que há por aí homens querendo dar flores. Por isso tanto desencontro, como diz Vinícius.

Ana González disse...

rsrs... quando encontro um que fez o gesto, Albir, acredito que pode haver outros. Firmemente..rs.. bj

Anônimo disse...

gostei da cronica e um exemplo a certos tipos de homens que ainda insistem no machismo

Carla Adrielle disse...

Perfeito, Ana!

sua crônica é simplesmente inspiradora.
Beijos de Luz.

Espero que visite meu blog www.depoisqueeumudei.blogspot.com.br

Zoraya disse...

Ana, como sempre, delicada. Seria mesmo bom que nós, mulheres, sempre fôssemos, ou acreditássemos sermos mulheres que merecem flores. beijos floridos.

Alfredo Madeira Jr disse...

Muito sensível.
Interessante como as flores são recebidas até por quem apenas as carregou por um tempo.
Naquele momento elas eram dela.

Ana González disse...

Zoraya, e somos! merecemos! ainda que nem sempre os parceiros se portem dessa maneira. fazer o quê!?...bjss

Alfredo, nossa, vc viu algo que eu não tinha percebido assim. Mas acho que além de personagem, me senti um pouco dono delas. Mesmo. Bjss

Varlice disse...

Anuska
Gostei demais dessa crônica. Demais.
Confesso que mesmo com a idade madura eu ainda amo receber flores.
Aliás, amo flores!
Não deixei que a idade e as decepções tirassem isso de mim.
I'm in the mood for love.
Poliana

Ana González disse...

Varlice, não poderia imaginar esse gosto em vc. Sempre tão ... distraída de detalhes, econômica. Uma descoberta em alguém que eu jurava que conhecia bem!!! rsrsrs...Vc merece, querida!!! bjss