Pular para o conteúdo principal

O TOM >> Carla Dias >>


A vida é assim...




Quando menos esperamos, faz com que esbarremos em uma situação, ou encontremos pessoas que, ainda que estejamos no nosso momento mais egocêntrico, diminuto no quesito gentileza, despertam-nos para um cenário inexplorado por nós, mas que certamente carece da atenção, até mesmo, ou talvez principalmente, dos distraídos de plantão.

Hoje eu teria vários assuntos para alimentar esta crônica: corre-corre danado no trabalho, problemas para me comunicar com os atendentes de clientes do plano de saúde, desejo gritante por cappuccino e pão de queijo, os episódios finais de temporada das minhas séries preferidas, receber a notícia de que talvez a Dave Matthews Band se apresente no Brasil, em dezembro.

Acontece que, ontem à noite, às voltas com a minha insônia de estimação, e passeando pela internet, li um post de um amigo de um amigo, de quem conheço um pouco do trabalho como compositor e cantor. O post, por si só, já me comoveu e me fez pensar em poesia. Porque eu tenho dessa... Vou poetizando tudo que me toca a alma. Mas então, ainda tinha o vídeo, e ao assisti-lo, adotei, afetivamente, o Tom. Permiti-me envolver, dessa vez sem distrações, pela jornada do menino e daqueles que o amam.De todos os Toms e de todos aqueles que os amam.

Porque brincar de esconde-esconde é coisa pra pessoa de coragem. Sabe como? Não, é quando... Sabe quando? Quando a brincadeira é a delícia do dia, do nosso dia de infância. Ou quando adultos, e nos divertimos ao vermos as nossas crianças se esbaldarem na brincadeira, misturando o prazer que sentimos ao vê-las felizes às lembranças de nós mesmos sendo felizes há tantos anos que parecem décadas. Mas e quando a brincadeira brinca de esconde-esconde, de jeito que a criança não consegue agarrá-la? Então, o quando do adulto se sintoniza novamente ao quando da criança, e a brincadeira volta, mas desta vez como uma conquista, uma alegria daquelas.

Tom é um menino autista de três anos. No post sobre o qual falei, seu pai contava sobre a grande alegria de, por dois dias consecutivos, brincar de esconde-esconde com ele. E de como era gratificante conectar-se ao filho, e apreciar suas gargalhadas, os olhos nos olhos. O simples que é de imensa importância.

O vídeo traz um olhar muito especial sobre como somente com o diagnóstico e a intervenção precoces essas crianças podem evoluir e ter um futuro. Além do alerta, do aprendizado do qual qualquer um pode usufruir ao assistir ao vídeo, há essa bela declaração de amor ao Tom, e a celebração de todos os semitons que permeiam a sua existência.

Então, a minha crônica foi tomada pelo desejo de que o Tom e seu pai brinquem mais vezes de esconde-esconde, que possam trocar olhares como se fosse uma longa conversa, e que gargalhem juntos, feito uma canção. Das preferidas, claro.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …