domingo, 12 de maio de 2013

A BLITZ >> Whisner Fraga

Como se diz em Minas, não vamos nomear os bois. Até porque alguns bovinos, ao contrário do que atesta a ciência, falam e, como era de se esperar, escoiceiam. Não digo que não aumentarei, caluniarei ou mesmo inventarei alguns trechos do episódio, mas tudo é com uma intenção razoavelmente boa: a de melhor divertir meus leitores. Não sei se o autor das peripécias que relatarei lê jornais ou blogs e se esta crônica chegar aos ouvidos dele, já peço desculpas antecipadamente por qualquer melindre e se o texto agradar, peço ao amigo que me ligue para que eu possa lhe confidenciar o número de minha conta, para uma gorjeta qualquer.

Digamos que voltasse de uma festa que ocorrera nas cercanias de um sítio, em Uberlândia. Havia tomado umas tantas e outras mais. Ao todo, o volume de álcool lançado para dentro do estômago devia ser suficiente para tontear uns quatro cachaceiros de profissão. Não acho nem um pouco bonito o que ele fez, aliás recrimino veementemente essa atitude, mas o fato é que ele pegou a chave da pickup Ranger e foi para a estrada. É de conhecimento geral que bêbado é idiota e ele não fugia à regra. Para sorte dos motoristas que trafegavam pelo local, existia uma polícia rodoviária no meio do caminho. E uma blitz.

É evidente que meu amigo foi parado: a polícia é treinada para farejar culpados. Isso foi antes da lei seca, o que, em termos legais, foi interessante para o sujeito. Desceu do carro e conseguiu se explicar. O problema é que ninguém entendeu. O homem da lei lhe preparou um banho de mangueira, um café forte e um recinto trancado a nove chaves para passar a noite. E a noite passou, é evidente. Amanhecendo, reconheceu a besteira que fez. Tinha uma vaga ideia do que acontecera e temia pelo carro, que não era seu.

O guarda lhe trouxe um recado: pretendia deixá-lo ali enquanto acionava alguém que entendia de leis. Meu amigo perguntou se podia esperar fora da cela. Podia. Ficara sozinho no escritório, porque o outro foi tratar da vida ou da morte, não se sabe. Sentou-se na mesa enorme, desorganizada. Testou o telefone: nada. Tentou acender a luz: nada. Gritou pelo fardado: nada. Como era engenheiro e já trabalhara com energia elétrica e telefonia, além de ser hiperativo, não quis ficar à toa. Não fazia bonito para ninguém, apenas atendia a um chamado maior do cérebro. A linha voltou a seu monótono chiado em menos de meia hora. E nem notícia do policial.

Saiu para contar a novidade e não encontrou ninguém. Viu a Ranger inteira e se sentiu melhor. Faltava a luz. Desmontou o aparato e concluiu que havia qualquer coisa queimada por ali. Procurou por perto e achou um depósito, onde descobrira dezenas de peças sobressalentes: fios, fontes, disjuntores e o que mais precisasse. Estava em pé na mesa, acabando de montar as lâmpadas quando o outro retornou. Nenhum dos dois se abalou, acostumados a ver de tudo e mais um pouco. Meu compadre desceu, caminhou calmamente rumo ao interruptor e gritou: “Fiat lux!” E houve luz.

Como é sabido, mineiro não se apega a picuinhas, de modo que o guarda reconheceu estar perto de um sujeito trabalhador. Fez o sermão, mostrou algumas fotos de corpos estraçalhados, de veículos retorcidos e liberou o meu amigo. Abria a porta da caminhonete quando o policial gritou: passe quando quiser por aqui, será bem-vindo, o prédio sempre precisa de reparos, mas prefiro que da próxima vez venha sóbrio, porque não serei tão bonzinho como fui desta vez.

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Um comentário:

Zoraya disse...

Ah, genial, Whisner, ri à beça!