quinta-feira, 22 de outubro de 2009

QUAL É O SEU RITMO ? >> Kika Coutinho

Você pode não ter notado, mas a vida é feita de ritmos. Você pode até não se ligar muito em música, não entender os gêneros e as notas — como eu não entendo — mas todos os seus problemas poderiam ser traduzidos por desencontros musicais.

Se você é calmo e tranqüilo, anda num ritmo meio bossa-nova, por que vai procurar alguém no baile funk? Uma pessoa bossa-nova há de ter problemas com uma pessoa funk.

Se você anda meio ligado no 220, tem um pique total, deve ter um perfil rock'n'roll. Então, me conta, por que vai se meter a trabalhar numa empresa pública, toda lounge? Não vai dar certo. E isso não tem nada a ver com gosto, mas com perfil.

Suas brigas em casa, com a família, certamente têm um problema musical por trás delas. Filhos adolescentes costumam ser dance, ou pop rock, ou techno. Os pais, coitados, normalmente já pra lá do Tango, meio Valsa, nunca nem ouviram NX Zero, como é que acompanham essa dança, serve dois pra lá dois pra cá? Pra dar certo há de se ter semelhança, não tem jeito. Conheço pais e filhos que se dão muito bem porque ambos são samba. Não que gostem de samba, não tem nada a ver, podem até odiar. Mas vivem assim, nessa cadência, nesse ritmo meio leve, meio alegre, meio bambinho. Podem se dar bem com um bossa-nova, até com um jazz, mas nunca com um techno.

As relações amorosas descambam porque não se ouve a música um do outro. Sabemos o que o outro gosta de comer, como gosta de se vestir e até o que gosta de ouvir. Mas nunca notamos como ele vive, se anda num ritmo Bob Marley ou num ritmo Madonna. Ainda que ele ame mesmo Roberto Carlos, note como vive. Em que cadência andam seus passos, como se movimentam seus gestos, qual a dança de suas escolhas, que passos segue o seu ritmo, afinal? Aprenda quem é o seu parceiro e aprenda quem ele poderá ser porque mudamos o tempo todo, claro.

Quando somos mais jovens, é natural que nosso ritmo seja de alguma música mais popular e, conforme envelhecemos, nos tornamos mais clássicos, talvez mais eruditos. Podemos fica meio blues, meio jazz, podemos. Mas dificilmente seremos velhinhos a la música eletrônica. E isso influi em tudo. Ou deveria.

Não vá a um restaurante sertanejo se você está rock'n'roll. Não compre uma blusa latina, cheia de salsa, se você anda se sentindo totalmente tango. A não ser que seja intencional. Você pode precisar da sua amiga pop rock caso se sinta no meio de um fado português, isso pode. Pode pedir que seu marido seja um pouco mais merengue e salsa caso esteja vivendo como um CD de gospel. Pode, claro. Mas que seja momentâneo, que seja lúcido, que seja escolhido.Não adianta brigarmos com o ritmo do outro, não adianta tentarmos tocar um violino se gostamos mesmo é do estilo brega do Wando. Não adianta. É preciso tocar-se em um ritmo parecido, achar-se em notas similares e dançar juntos passos que caminhem para o mesmo lugar. Não importa em qual palco vocês vivam, quem seja a sua platéia, é o seu ritmo que irá determinar o sucesso desse show.

Partilhar

4 comentários:

Cristiane disse...

Ana, fantástico seu texto! Muito bom.

E acho mesmo que estava precisando ler isto, mesmo sabendo que pode virar uma tragédia, com aquelas trilhas sonoras de filmes de Htchcock.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, tô começando a pensar que você é mestra também em tipologia humana. :)

fernanda disse...

Eu acho que eu sou um rádio, mal sintonizado, que muda de ritmo a todo instante. Estou lendo muitas crônicas suas aqui, Kika. Você é ótima!

Lucimara Souza disse...

Olá!
Adorei o texto. Você escreve muito bem!
Ah, aproveito a oportunidade para divulgar o meu blog:
http://textos-e-reflexoes.blogspot.com
Espero que goste e ajude na divulgação aos seus amigos leitores e também aos não leitores... :)
Grande abraço, Lucimara