AS CINZAS DA MÃE >> Zoraya Cesar


Quem primeiro disse que a morte não é o fim, apenas o começo, com certeza não sabia quão perto da verdade estava.

Pois o fato é que a morte leva o morto – para o céu, valhala, nirvana, campos elíseos, geena, tártaro, inferno, erraticidade, o que for -, ou o Grande Nada. E cá ficamos nós.

Com todas a burocracias – exéquias, avisos, marcar enterro e missa, comprar caixão e flores, ou providenciar cremação, enfim. Pior, responder todos os infindáveis pêsames, a maioria de pessoas que há décadas nem sabia se o morto estava vivo.


Ah, o velório. Um monte de gente babenta, cheirando a suvaco cabeludo e naftalina fazendo questão de abraçar, beijar, chorar alto no ouvido dos parentes. Todos competindo para ver quem era o mais sofrido com a perda.  

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Depois, outra etapa não menos dolorosa: arrumar e se desfazer dos pertences do falecido.

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A caixa com as cinzas ficou em cima da mesa da sala, olhando para toda a azáfama de Cacau e seu irmão, filho e nora, provocando reações diversas: o irmão de Cacau se  persignava 500 vezes ao dia, cada vez que por ali passava; o filho olhava para cima e passava de costas; a nora baixava a cabeça e falava ‘fica em paz sogrinhavó’. Antes de ter um ataque de nervos com aqueles rituais sem sentido, Cacau botou todo mundo pra fora, alegando estar com vontade de ficar sozinha e que resolveria o resto.

Claro, claro, entendemos, e saíram todos, para alívio geral – deles, de Cacau e talvez até das cinzas, pois D. Selma era uma mulher católica, devota de Nossa Senhora Aparecida, extremamente prática e despida de superstições.

Então, mamãe, somos eu e a senhora para cuidar de tudo, como sempre, disse Cacau às cinzas. Ao som de suas músicas preferidas terminou faxina, separou o que era para ser descartado, doado ou vendido; e chamou o Centro Espírita Erezinhos de Luz para fazer uma limpeza espiritual na casa.

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Bem, assim como a vida, tudo chega a um fim, e Cacau finalmente colocou a morte em ordem. 

Só faltava uma coisa, uma pequenina, mas não menos importante coisa. O que fazer com as cinzas?

Faz rodízio entre as casas da família, disse um.

Coloca numa ampulheta, para lembrarmos que o tempo passa.

Faz sabão e dá um pedaço pra cada um.

Mistura no cimento e constrói algo na casa.

Faz um frisbee para o cachorro dela brincar.  

Usa para fazer uma tatuagem em todos os parentes.

Cacau mandou todas as ideias para um lugar distante, quente e de odor sulfuroso.

Decidiu levar para o Santuário de Schoenstatt, em Vargem Pequena, onde a mãe costumava fazer retiros.

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Ela e o irmão escolheram uma 2ª feira, dia das Almas, crentes que o dia da semana e o tempo nublado e chuvoso afastaria visitantes.  

Hohoho, ledo engano. O lugar estava animado, com fiéis e religiosos participando de um seminário nãoseidequê. Já não dava para perpetrar a ideia inicial, que era deixar a caixa no altar, rezar e sair de fininho. E agora?

Agora, disse Cacau, retroceder nunca, render-se jamais. Estavam ali para se despedir das cinzas da mãe e assim iriam fazê-lo. Passaram à 2ª opção.

Enquanto o irmão explicava ao guardião – um noviço que mais parecia um lutador de MMA – que a irmã queria espairecer a morte da mãe, uma devota fiel e habituè do lugar, Cacau, escondida atrás de uma das árvores, tirou uma colher de sopa do bolso e agachou-se junto às raízes, tentando escavar um buraco para enterrar a caixa.

Só tinha um problema; na verdade, dois: o bosque não era muito fechado e, dependendo do ângulo de vista do observador, ela seria flagrada em sua atividade proibida; outro fator, não menos problemático, era a bendita terra, mais dura que mármore de tumba! Ela machucou os dedos, entortou a colher e não afastou um torrãozinho sequer.  

A essa altura suava feito uma foca no Saara, o suor descendo em bagas por seu rosto e corpo. Tentou abrir a caixa, a fim de colocar as cinzas ao pé da árvore, mas  o nervoso e as mãos molhadas não ajudavam. Socorre aqui, Mãe, pô! A mãe deve ter ouvido, pois a caixa abriu, derramando parte do conteúdo no chão. Merda! D. Selma sempre teve um humor meio esquisito.



Nesse momento, o guardião deixou o irmão falando sozinho e foi lentamente em direção dela, suspeitando que havia algo errado que não estava certo. Cacau meio que desesperou. Atirou as cinzas ao vento e o vento, revoltado, jogou-as de volta. Um bocado enfiou-se-lhe goela abaixo; outro entrou em seus olhos, causando uma dor do caramba, fazendo-a gritar. Boa parte grudou em seu rosto, corpo e roupas molhados de suor.

Às cegas, quase, lacrimejando como uma carpideira e tossindo como uma vaca tabagista, ela largou a caixa vazia no chão e correu, desviando-se do guardião que, como vimos, era forte, mas, felizmente, lento.  

Fugiram de maneira vexaminosa, com algumas pessoas correndo e gritando ímpios, hereges, atrás deles,
o irmão tremendo tanto que mal conseguia dirigir. Mesmo assim, depois de ter engolido as últimas cinzas e que os olhos pararam de queimar, Cacau riu de gargalhar.

Que final emocionante! Perfeito. Sem chorumelas, despedidas sentimentalóides, coisas que tanto Cacau quanto sua mãe sempre detestaram. Eram só cinzas, acreditava ela, e tinham sido bem entregues, soltas ao vento, engolidas e grudadas. Sua mãe estaria sempre com ela.

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Tia Selma se foi esse ano, depois de uma vida de batalhas, de vitórias, de alegrias sorridentes, de tristezas inconsoláveis. Foi uma mulher que amou muito e foi muito amada. A ela, só tenho a agradecer por uma parte tão boa da minha infância. Sem falar das saladinhas de frutas e dos pratinhos que ela sabia que eu gostava. Das conversas, da atenção, de tudo. Obrigada, Tia!

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Essa história é uma possibilidade. Porque eu conheço minha Prima e sei que com ela tudo é tão possível, que nem minha imaginação dá conta do que ela é capaz. E porque engolir cinzas ancestrais é mais comum do que pensamos. Aconteceu comigo, por exemplo, ao lançar as cinzas do meu paizinho na praia. Aconteceu com meu amigo Renato Pacca, com as cinzas do pai dele, Seu José. A mesma coisa: lançamos ao vento, o vento jogou na nossa cara de volta. Deve ser um sinal. Ou um comportamento típico das cinzas mortuárias, vá saber. 

Aproveito para registrar meu orgulho em ter primos – Cacau e Marcelo, o ‘irmão’ da história – que são um exemplo de filhos, dedicados, presentes, que sempre cuidaram da mãe, até o fim, com desvelo e carinho, com tudo o que podiam fazer, com sacrifícios e amor.

E registro, também, a ajuda do meu querido amigo Anselmo, que transformou a imagem que eu queria em um vídeo! Obrigada, Ansi!

--- Somos pó. Voltaremos ao pó. Vivamos enquanto não nos desfazemos ---

 

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Comentários

branco disse…
Especial. Um degrau acima, o que não é novidade sendo a autora quem é. Conhecendo um pouco — muito pouco — eu li rindo e finalizei pensando em uma linha de seu conto e me perguntando: não somos todos nós uma ampulheta ambulante? Você consegue fazer do mais recente o melhor, e este é + um exemplo.
Marcio disse…
Se era para acabar comendo, ops, engolindo a própria mãe, a Cacau poderia ter caprichado mais na refeição.
Sei lá, talvez disfarçando as cinzas em uma farofa, ou fazendo aquela argamassa com iogurte.
De certa maneira, ela recebeu de volta um pouco de sua matriz genética, para reciclagem (ok, o material genético não resiste à cremação).

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