INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL? >> ionio paschoalin

 


Fui abordado por uma matilha de cães latindo pra mim. O assunto era sério, eu sabia! Viviam junto com um morador de rua, sem teto pra abrigá-los, dormindo em barracas de acampamento. Ao me aproximar do semáforo,  percebi que avançavam em minha direção; caminhei ao encontro do grupo.

Tenho medo de roda gigante, altura em geral, baratas. Medo do homenzinho dentro de mim que tece pesadelos com os retalhos dos meus sonhos, mas nunca temi a Morte, uma libertadora, futura melhor amiga que ainda não conheço bem. Veio me visitar, tive um enfarto há algum tempo. Ficamos olhando um pro outro; flerte. Ela deixou as melhores impressões. Seu senso de humor era incrível e só isso foi o suficiente pra eu passar amá-la, perpétua é linda.

Ainda ontem, assisti ao filme Dr.Doolittle 2, ao lado da mulher que amo. Posso garantir a vocês que os dogs não estavam fingindo, atuando ou representando. Eram o que eram; eles mesmos, honestos. Fato é que, enquanto me cercavam, um cachorro enorme, o maior labrador que já vi, abriu sua boca gigante e então a fechou, cravando seus dentes no meu braço direito. Fez isso só pra me lembrar quem sou eu e quem ele é. O General não era Xerxes ou Aníbal, não era Júlio César nem Alexandre o Grande, era o Grande Cachorrão, o "padrinho". Até nisso demonstrou sua superioridade, não enviando um soldado pra morrer por ele. O próprio veio me cobrar e me ensinar. Imbecil, tentei puxar o braço, e ele me deu mais três dentadas em falso mas, na quarta vez, mordeu mais fundo, cerrou sua bocarra como um aviso. Poderia ter arrancado o membro se quisesse, mas foi benevolente, apesar de austero.

Olhou direto nos meus olhos e perguntou, sem dizer uma só palavra: "Onde está seu coração?" Respondi que, provavelmente, dentro de mim, cercado por outros órgãos e protegido pela minha caixa torácica. Todos os outros cachorros riram, zombaram. Sua Majestade Canina inquiriu novamente: "Você fala sobre  o lugar onde mora, para onde volta para dormir. Mas onde ele está agora?". Eu  era o tolo e ele sábio. Me obrigou a encarar consciência e consequências; olhos nos olhos, me fez enfrentar medos da mesma forma que ele me enfrentava. Ele: dignidade. Eu: humanidade. Lembrou que descobri o fogo pra me proteger e depois o utilizei como forma de dominação.

Criei rodas, pro movimento ser rápido e preciso, e depois a utilizei pra esmagar outros da minha espécie. Organizei uma sociedade para que eu e os demais formássemos um grupo, mas me intitulei líder e, assim, não eram mais iguais a mim. Subjuguei e escravizei semelhantes, quaisquer outras formas de vida e tudo ao meu redor. Domínio! Poder!

"Meu cachorro é tão esperto, mas vou ter que castrá-lo ou não darei conta de possuir sua liberdade, seus desejos, onde pode ir ou não, onde vai dormir e o que ele pode comer, segundo as minhas ordens de gente. Afinal, já fui à Lua e construí bombas atômicas para aniquilar e mutilar pessoas parecidas comigo".

Tudo isso, tecnologia, moradias, pólvora, equipamentos de guerra, utensílios, a arte; tudo que criamos é artificial! E eu, sem armas e artifícios, era só aquilo mesmo, carne e medo. Já ele possuía o peso do seu tamanho, dentes de lança e coragem, e não precisava de mais nada. Me falou sobre a ética da sua galera. Quando amavam, enfrentam guerreiros, tigres, lobos, ursos, outros cães maiores, o frio e o abandono. O que fosse, qualquer coisa, nenhum receio, não hesitavam. Sabiam o que era o amor de fato, enquanto nós supúnhamos saber. Me contou que não, apenas inventamos essa ilusão, algo que sequer fomos construídos pra  compreender. Não sabíamos e nunca aprenderíamos a amar.

Eis o nosso inferno.

Mencionou também que éramos corruptos, que éramos baratos, adeptos de Black Friday.

Uma gota de sangue rala escorreu pelo canto de sua boca e percorreu seu focinho cor de caramelo. Então, me soltou.

O choque de realidade me deixou bêbado. Atravessei a rua, trôpego, o semáforo fechado, e quase fui atropelado por um carro dirigido por um humano, igual a mim. E,  mesmo me avistando, o motorista não desacelerou, ao contrário. Afinal, se eu fosse atingido e morresse, a culpa seria minha, da vítima que ousou caminhar por um espaço destinado ao trânsito de máquinas. E a vida que se foda! Gente que pensa com cabeça de robô cuja inteligência é artificial.

Já do outro lado da rua, olhei pro Rei Cão e seus olhos desdenhosos pareciam dizer: “Viu? Era sobre isso que eu falava”.

Comentários

Postagens mais visitadas