CATEGORIA 0000001 >> Carla Dias


Para ele, o ideal é lidar com desejos acumulados elencados em realização categorizada: para já, para em breve e para nunca. Nas mãos do “pode ser”, deposita algumas vontades deléveis, por apreciação quase burocrática, a fim de conferir se ainda sabe sentir o desconhecido.

No entanto, tem sido catastrófica a forma como lida com a categoria “apenas se for necessário”. A inaptidão para se desfazer do anseio que acomoda nela é aflitiva, um peso kafkaniano em um coração acostumado ao it’s only rock’n roll (but I like it).

Aceitara que o mundo estava para acabar. Depois, de tanto o tempo passar, conformou-se com o fim próximo de si mesmo. Então, decidiu viver do jeito que bem entendesse o pouco de vida que lhe permitia levantar-se da cama todos os dias. Definiu estratégias e, desde então, contracena com suas categorias.

Diante do questionamento sobre sua forma de lidar com a vida, encara o amigo estampando no olhar um cansaço nunca antes experimentado. Demora-se na inabilidade rara de não saber o que dizer. Pergunta-se, pela primeira vez em anos de categorização de vivências, durante o silêncio barulhento dos pensamentos, por que mantinha aquela categoria ativa na sua percepção. Por que não a abandonara nos porões do esquecimento?

Escuta o monólogo do amigo, um Vinícius batucando poesia na mesa, reverenciando uma bossa que havia deixado de ser nova na idade do comprometimento dele com assumir os negócios da família. Irritava-se quando tentavam convencê-lo de que um desejo indesejado é algo positivo e inspirador, o que contradizia o conselho do pai, recebido em mantra desde seu entendimento das palavras ditas: controle sua história de vida e seja um sucesso nesse mundo cão.

Em um raro desandar de sua consciência de ser humano adaptado ao andamento de uma vida controlada, se entrou na loja de discos da esquina de casa, um lugar empoeirado, dirigido por um de seus colegas de escola, que sempre fez questão de deixar fora de seu círculo de amigos. Cumprimenta-o com um gesto rápido e segue para o fundo, onde fica a prateleira de raridades, a mesma de quando ele frequentava o lugar com a turma do colégio. Remexe nos LPs datados, parte de um passado de dúvidas, de quando refrigerante misturado com rum acompanhava as conversas sobre quem se tornaria no futuro. O dono do antiquário musical se aproxima, anunciando a novidade: 0000001. Quer? Impossível... Era, mas não é mais. Mora aqui, e aponta a última prateleira. Categoria “impossível, mas acabou aqui”.

E gargalha, contido, trazendo para o presente um passado ainda livre das categorias coordenadoras de futuro.

A conversa se estende, e ele rebate a possibilidade de um álbum custar mais do que uma casa. O antiquarista de vinis questiona a certeza dele, já que estão ali, na loja herdada do avô, um contrabaixista de filarmônica que também foi integrante de uma renomada banda de rock da cidade; um lugar que sobrevive apenas pelo desejo de poucos, falando sobre um álbum muito mais velho do que eles. E já não somos tão jovens, somos?

Não.

Fala sobre a maluquice que domina o mundo: guerra, mercado do bairro cobrando 50% acima do que os produtos valem, cada vez mais pessoas abrigadas — pelo desabrigo da rua — do que já presenciara. Alguns dos seus amigos morreram cedo, outros foram tarde, mas não sem antes bagunçarem a cabeça dos que ficaram. Diante de tanta miséria, incompetência e contrassenso, como não se dedicar a realizar desejos selecionados e apropriados até acabar? 

O antiquarista gargalha sem som, como se tivessem puxado o cabo do amplificador de sua gargalhada. Aproxima-se um pouco mais e tira o LP da prateleira.

0000001 mora aqui há alguns anos. Quer?

Tem consciência de que a tarefa segue parcialmente controlável. Não é simples simplificar a vida. Às vezes, o descomplicado é apenas mais fácil de compreender, não de resolver. Acha o imprevisível insuportável, mas ali está, contemplando o passado, dele, do antiquarista e da música. E se sente bem de um jeito inédito para ele.

Abraça o LP. Por dez minutos, cronometrados em uma contagem para acalmar incontroláveis, sentiu-se o escancaro de um prazer desestruturador de certezas. Sentiu-se bem. 

Sai da loja e caminha em direção à empresa. Há trabalho a ser feito, importâncias a serem estabelecidas, problemas prontos para o extermínio. Em um abraço cuidadoso, o LP grudado ao peito.

Ele sabe: não é o original.


The deeper you go, the higher you fly / The higher you fly, the deeper you go


carladias.com.br


Comentários

Ionio Paschoalin disse…
Pra já= é urgente te dizer, Carla vc detona, vc é muito f.... sabia garota? Por isso gosto dessa frase "lute como uma mulher". Em breve, a gente precisa se ver sem ser um acaso como naquele dia em que nos encontramos, eu ia comprar remédios na farmácia, vc tinha um monte de textos pra terminar e, mesmo assim, ficamos o quê? Meia hora em baixo daquele solzão falando sobre tudo e nada, vc sabe. E, finalmente, nunca vou deixar de ser seu irmão, sinto muito por isso! kkkkkkkkkkk, maravilhosa!!

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