POESIA >> Sergio Geia


 Enviei mensagem a Rachel: 
 
Bom dia. Por causa de seu pai descobri (tarde da vida) que música clássica acalma, que poesia encanta e provoca uma sensação tão boa. 
 
Falo de Rachel Abdala, amiga, historiadora, mestra e doutora em História da Educação, professora universitária e diretora do Departamento de Ciências Sociais e Educação da Universidade de Taubaté. Seu pai é o professor Joel Abdala. 
 
O livro foi um presente. Num domingo de manhã, fui ouvi-lo falar de poesia e literatura no Ponto de Luz Cristalina. Professor Joel, que me dá a honra de ser meu leitor, e, mais que isso, de acolher meus escritos com generosidade, ao término da palestra veio até mim e me presenteou com seu Poemas. CRD, editado pela Equação Editorial
 
Não sou leitor de poesia, ou ao menos não me julgava. Tenho aqui alguma coisa, Manuel Bandeira, Branco, Regina Célia Pinheiro. Leio um ou outro poema, um verso que me chama, mas não passa disso. Folheei a obra, passei os olhos pelos cartões, depois o livro ficou na estante. Esquecido, nunca. Outro dia iniciei a leitura seguindo a ordem idealizada pelo autor. Fui tomando gosto e uma sensação boa foi se apoderando de mim. Numa manhã, devorei todos os poemas, de enfiada. 
 
Joel traz referências musicais. Tocatas de Bach, por exemplo, Chopin, Schubert, Beethoven, e a cada menção eu fazia busca no Spotify e punha pra tocar, a leitura então se fundia aos sons. Veja que beleza o seu Desenho de sons
 
Hoje, domingo 
À tarde, o piano 
As mãos iam sem dono, 
obedeciam a Bach, 
com o ritmo das ondas do mar 
com a harmonia do vento 
Fiquei vendo o movimento das mãos 
Riscas de néon saiam dos dedos 
compondo o desenho dos sons 
E Bach pôde ver, pela primeira vez. 
a pintura de um prelúdio 
 
(uma de minhas preferidas) 
 
Numa certa passagem, Joel faz menção a Alphonsus entre os cinamomos. Fui pesquisar: 
 
Hão de chorar por ela os cinamomos, 
Murchando as flores ao tomar do dia 
Dos laranjais hão de cair os pomos, 
Lembrando-se daquela que os colhia 
 
As estrelas dirão — “Ai! Nada somos, 
Pois ela se morreu silente e fria... .” 
E pondo os olhos nela como pomos, 
Hão de chorar a irmã que lhes sorria 
 
A lua, que lhe foi mãe carinhosa, 
Que a viu nascer e amar, 
há de envolvê-la Entre lírios e pétalas de rosa. 
 
Os meus sonhos de amor serão defuntos... 
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la, 
Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?” 
 
Foram instantes suaves, que me revelaram como o diálogo entre música clássica e poesia acalma o espírito e faz bem. 
 
 
P.S.: 1. Desenho de sons – Joel Abdala; 2. Hão de chorar por ela os cinamomos – Alphonsus de Guimaraens. 3. Ilustração: ChatGPT

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