O QUE QUASE ACONTECEU >> Lara Passini Vaz Tostes
Se tivesse acontecido, teria sido pequeno. Mas não aconteceu. Era nisso que Alberto pensava enquanto caminhava. Faltara pouco — sempre falta pouco — para chegar ao presidente da empresa, cumprimentá-lo, deixar uma boa impressão. Era simples: um aperto de mão, um sorriso no instante exato, a sensação breve de pertencimento que sustenta semanas inteiras de vida funcional. No mundo corporativo, são esses gestos mínimos que costumam render tranquilidade interior.
Naquela noite de confraternização, estivera perto. Não exatamente ao lado — perto o suficiente para justificar a esperança. Vestira-se bem, penteara o cabelo com mais cuidado que o habitual, escolhera a roupa com uma atenção que beirava o ensaio. Revisara mentalmente os gestos, o tom de voz, até o tempo exato de sustentar o olhar. Preparara-se para um papel curto, mas decisivo.
Ao chegar, sentiu-se adequado à própria imagem. Circulou pelo salão com discrição estudada, cumprimentou quem julgou necessário, sorriu no limite aceitável. Tudo parecia funcionar — e isso, estranhamente, já lhe causava um leve desconforto.
As comidas estavam boas demais também. Pratos passavam, bandejas insistiam, sabores pediam repetição. Alberto se deixou levar por elas com uma dedicação que não reservara às pessoas.
Comeu com método, quase com estratégia, como se aquela fosse mais uma etapa da noite. Até que veio a fisgada na barriga.
Um aviso discreto, facilmente ignorado por excesso de confiança. O corpo, menos interessado em desempenho social, insistiu.
O tempo no banheiro ultrapassou qualquer planejamento. Ali, sentado, ainda teve a ingenuidade de achar que ninguém notaria sua ausência. Quando voltou ao salão, percebeu que a reunião começava a se desfazer, como um espetáculo depois do encerramento.
Grupos se despediam, cadeiras eram empurradas, copos abandonados sobre as mesas. Não quis ser o último. Havia ali um constrangimento que preferiu evitar. Saiu.
Só então, já do lado de fora, percebeu o detalhe — simples e irrecuperável: não cumprimentara ninguém importante. Não trocara palavras com o presidente. Não exibira o carisma que julgava ter. Saía da noite exatamente como entrara — talvez um pouco pior, considerando o mal-estar físico. Achava-se carismático. Aquela noite discordara, sem alarde.
Caminhou até em casa quase sem perceber o trajeto. Pensou brevemente em como certas oportunidades exigem um corpo disponível — algo que ele claramente não tivera. Tirou a roupa com o cuidado automático de quem encerra oficialmente um personagem. Vestiu o pijama. Deitou-se. Sentiu o peito desacelerar, a respiração encontrar outro ritmo, como se finalmente estivesse autorizado a existir sem função.
Foi então que o gato surgiu. Aproximou-se sem cerimônia, subiu na cama e se acomodou ao seu lado, ronronando com a convicção de quem nunca precisou impressionar ninguém. O peso quente do animal parecia reorganizar o mundo com mais eficiência do que qualquer plano de carreira.
E, pela primeira vez naquela noite, desdenhou de tudo o que havia planejado.
O bom estava no agora inesperado:
no ronronar quente do gato,
no colchão macio,
no descanso da mente.
Depois,
sem anúncio,
o sono.



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