QUESTÃO DE COSTUME >> ANDRÉ FERRER

IMAGEM: Gemini


— É difícil esperar.

— É uma droga.

— Bill, a gente precisa ficar calmo.

— A gente precisa que o Pontaria chegue logo.

— Tenha calma.

Os dois ficaram parados, lado a lado, e um deles começou a tremer. O que tinha o nome de Bill cruzou o asfalto e, quando chegou ao outro lado, olhou para a esquerda e para a direita. A cabeça formigava. Ele colocou as mãos na nuca, bateu as botas no chão e tornou a se aproximar do outro.

— Pararam de passar.

— É melhor assim.

— Você tem razão, Guto.

Bill se afastou, mas ficou no mesmo lado de Guto. Girou o corpo e debruçou-se na lateral da ponte. Guto fez o mesmo.

— É mais baixo do que imaginei.

— Quando chegamos, estava escuro. Agora, vejo melhor. E você?

— Eu também. É por causa do farol. A gente se acostuma.

— Sim. A gente se acostuma com cada coisa, Guto, menos com a pobreza.

— É por isso que estamos aqui. Certo?

— Positivo. Mas tem a parte da diversão também.

— É verdade.

— Só que a diversão acabou.

— Fique calmo.

— Vou tentar.

Bill tornou a girar. Deu um passo na direção do outro.

— Oh! Azar.

— Fique quieto. Essa palavra é ruim. Só piora as coisas.

— Tudo bem — disse Bill. — Mas a escolha da moto foi péssima.

Guto colocou as mãos na cintura.

— Foi essa mesmo — disse ele. — Estava dando sopa.

— Okay. Foi por acaso. Agora, está parada, você falhou quando tentou e...

— Tente você — Guto atalhou. — Tente você.

— Eu?

— Sim. Tente você dessa vez.

Bill montou na motocicleta e pedalou. A moto engasgou três vezes. O rapaz desistiu.

— Viu só? — disse ele.

— Uma vez, aconteceu com a moto do meu irmão e ela pegou depois que ele insistiu muito. Quem sabe dá certo na centésima vez?

— Vamos caminhando.

— É pior — disse Guto. — É suspeito.

— Você tem razão.

Guto voltou a se apoiar na lateral da ponte. Bill fez o mesmo bem ao lado do outro. Guto cruzou os braços. Bufou.

— Por que o seu apelido é Bill?

— Foi por causa de um filme — Bill respondeu. — Um idiota me apelidou. Muito cretino aquele sujeito... No início, eu ignorei, mas pegou. Fazer o quê?

— Você só andava com idiotas.

— Nós.

— É verdade.

— Mas, agora, tudo mudou.

— Sim.

— Viramos descolados.

— Será?

— E o Pontaria?

— Logo chega — fez Guto. — Fique calmo.

— É outra coisa. O apelido. Como ele conseguiu?

— Bem. O nome do Pontaria é Mário Sérgio.

— Compreendo.

Guto riu.

— Mas... Por que Pontaria? — disse Bill.

— Foi por causa dos olhos. Um deles é mais fechado que o outro.

Bill girou o corpo e olhou para baixo. A Lua serpenteava no rio enquanto as folhas das árvores batiam umas nas outras ao longo da margem. O vento era bom e trazia um cheiro forte de mato e lama.

— Tudo bem — disse Bill. — Vou tentar outras vezes. A moto andou até aqui. Tem que funcionar como antes.

— Eu penso assim.

— Guto.

— O que foi?

— Tente ligar para o Pontaria mais uma vez. Eu lido com a moto e você conversa com o sujeito. Pergunte onde ele está.

— Ora! Ele virá.

— Confia nele?

— Sim.

— Então, vamos ver... Faça a ligação.

A moto engasgou tantas vezes quantas Bill pedalou. Enquanto isso, Guto descobriu que o telefone de Pontaria estava desligado.

— Fora de área?

— Desligado — insistiu Guto. — Quem poderia imaginar?

— O que foi que eu disse?

Guto caminhava para um lado e voltava. Ele repetiu esse movimento várias vezes. Colocava e tirava as mãos no rosto. Bill sinalizou para que ele parasse. O jeito de Guto irritou.

— Quem sabe, um problema na operadora...

— Desligado — atalhou Guto.

— Melhor ter calma. É como você diz: calma. Faz pouco tempo que você falou com ele.

— Faz.

— Daquela vez, o Pontaria disse que chegaria logo.

— Foi.

— Então, vamos esperar.

Bill cruzou o asfalto e segurou firme na proteção da ponte. Virou-se e voltou a se aproximar do colega. Uma comichão na cabeça obrigou-o a esfregar a testa com energia.

— Pensando bem, é preocupante — disse ele.

— Agora, eu também acho.

— Então, você concorda comigo?

— Sim.

— O Pontaria prometeu, mas até agora nada — fez Bill. — Para piorar, nem atende o telefone.

— Ora! Ele deve ter um motivo.

— Sim. Porque o combinado é daqui a duas semanas. Um exagero...

— Foi necessário.

— Foi.

— Para a nossa segurança.

Bil voltou a esfregar a testa porque sentiu o formigamento.

— Guto, e se ele falhar? O que será de nós? A moto está quebrada.

— Vamos esperar. É melhor do que sair andando por aí. O Pontaria vai cumprir o que prometeu...

— Mas desligou — atalhou Bill. — Acho que nos abandonou.

— Eu espero que você esteja errado.

— Eu também.

Os dois ficaram calados. Apenas o farfalhar das árvores, lá embaixo, preenchia o ambiente. A comichão tomava conta dos olhos de Bill. Eles coçavam e marejavam.

— Guto.

— Diga.

— Você acha que agimos mal esta noite?

— Certas pessoas diriam que não.

— Gente como nós.

— Bill, você está arrependido?

— Sim. A gente tinha que ficar na lanchonete e, depois, ir para casa... Uma noite comum. Você compreende?

— Agora, o leite já foi derramado — fez Guto. — Nós temos que sair dessa. Eu só te digo uma coisa, Bill: é um caminho sem volta.

De repente, o roçar das folhas desapareceu e deu lugar ao ronco de um motor. Lá em cima, o brilho de uma luz apareceu. Um carro se aproximava.

— Pontaria?

— Será?

— Você vê alguma luz vermelha piscando?

— Só faróis. Brancos como o dia.

— Então!

— Graças a Deus.

— É ele.

— E se for outra pessoa?

— A gente pede carona.

— Vamos ter que inventar uma boa história nesse caso.

— É verdade.

Quando o carro estacionou, o motorista abaixou o vidro e o rosto de Pontaria surgiu na janela.

— Vamos embora — disse ele.

Pela primeira vez, Bill esboçou um sorriso na escuridão. Estava aliviado.

— O que faremos com a moto? — perguntou.

— Que tal jogarmos na água?

— Façam isso — ordenou Pontaria.

— É pra já!

Bill e Guto levaram a moto até o meio da ponte. Com pressa, ergueram o veículo e jogaram-no por cima do trilho de metal. A moto girou e caiu na água.

— Vamos embora — disse Bill.

Guto vinha logo atrás.

— Pontaria. Nós dois achamos que você jamais viesse.

— Eu vim. Sob uma condição, é claro. Por isso, estou aqui. Escutem: cada um vai para o seu lado e fica quinze dias quietinho... Nada de mostrar a parte de vocês por aí. É perigoso.

— A nossa parte...

— A nossa parte — atalhou Guto.

— Mas o que houve?

— Perdemos a nossa parte.

— Sim. Nós escondemos e...

— Onde?

— Embaixo do banco da moto.

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