FOLGA OU DEMISSÃO? >> Albir José Inácio da Silva

 

A mola com defeito fechou lentamente a porta do gabinete. A mesa do boy – eu -  era a mais próxima e pude ouvir a voz amistosa do gringo apontando a cadeira para o funcionário.

 

-  Senta, Senhor Damion. O que posso fazer por senhor? – perguntou sorridente o Seu Isac.

 

Do lado de fora ficou um silêncio modorrento de depois do almoço e antes do cafezinho, que era distribuído às catorze. Mas a minha sonolência foi espancada pelos gritos e objetos caindo dentro do gabinete.

 

Como estava mais perto, fui o primeiro a entrar. De pé o americano, ainda mais vermelho e descabelado, gesticulava e perdigotava na direção do pobre Damião. Não sei se era em português que ele gritava, sei que era ininteligível.

 

Damião tinha escorregado da cadeira e tremia quase ajoelhado.

 

A um canto da sala, Dona Rosa, secretária, ficou paralisada, com a boca aberta e os olhos arregalados, segurando uma pasta na estante.

 

Atrás de mim veio correndo o chefe Paulino. Eu o deixei passar e fiquei segurando a porta aberta porque achei que isso ajudava. O chefe Paulino gritou para o subchefe que era pra tirar dali o Damião, enquanto atendia o Seu Isac.

 

Seu Isac era na verdade Mister Isaacson, mas desistimos da pronúncia correta logo no início. Ele chegou ao Brasil nos anos cinquenta, a bordo da usina flutuante Piraquê, rebocada para o Rio de Janeiro ao final da segunda guerra. Não falava quase nada de português, mas orgulhava-se de ter aprendido rapidamente o “brasileiro”.

 

Pouco antes dos gritos, Damião sentou-se na cadeira ao lado da mesa do Seu Paulino, chefe da seção, e explicou sua necessidade de ir a Minas Gerais no dia seguinte para uma assinatura urgente de cartório.

 

O chefe ouviu atentamente e disse que não tinha poderes para abonar faltas. Ele deveria falar com o Seu Isac, mas, tinha certeza, não haveria dificuldades. Damião era funcionário dedicado, pontual e atencioso. Ele mesmo, Paulino, recomendaria ao gringo que atendesse o pedido.

 

Damião orgulhava-se de sua objetividade, franqueza e sinceridade. Levantou-se e foi falar com o americano assim que Seu Paulino saiu do gabinete. E foi essa recepção amistosa que eu assisti antes que a porta se fechasse. O que aconteceu lá dentro?

 

Seu Isac precisou de isordil sublingual, antiácido, água com açúcar, gravata afrouxada, camisa aberta e abanos do Chefe Paulino. Mas ainda continuava trêmulo, aguardando o departamento médico.

  

Dona Rosa, levada pelas mulheres para o setor de datilografia, tinha parado de piscar e não fechava mais a boca.

 

Damião era consolado pelo subchefe, mas continuava catatônico.

 

Os atendimentos demoraram mais de uma hora. As pessoas passavam no corredor olhando para aquele departamento paralisado.

 

Quando dona Rosa conseguiu falar, ela explicou:

 

Damião sentou-se em frente a um simpático Seu Isac e foi direto ao assunto.

 

- Doutor, acho que o Seu Paulino já explicou pro senhor, eu tenho mesmo que ir a Minas amanhã. Tenho uma assinatura no cartório, por isso tem de ser dia de semana e no horário comercial.

 

Até aí o gringo estava sorridente e assentindo com a cabeça. Mas Damião concluiu, batendo as costas da mão direita na palma da esquerda e vice-versa, repetindo o gesto enquanto falava:

 

- Agora ... se o senhor quiser pagar, paga, se não quiser não paga, que pra mim não faz a menor diferença!

                                                                          

***

 

As coisas se acalmaram já no final do expediente.

 

Seu Paulino teve muito trabalho para evitar a demissão. E explicar que o desastrado Damião queria dizer que a viagem era mais importante que o dinheiro. Bom funcionário, ele só não queria a mácula de uma falta sem abono.

 

Damião não foi a Minas naquela sexta-feira. Mas foi proibido de entrar no gabinete.

 

E foi ao psicólogo três vezes por semana durante muitos anos.

 

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