Cai o céu em desníveis


Saiu de casa e percebeu que o sapato estava descolado. Rezou pra não chover, mas choveu, claro. Deus estava ali nas poças d’água sujas que se formavam nos desníveis das calçadas. Um chão de terra batido seria mais plano, mas a terra é do agro, quando muito você compra um pouco na floricultura. A água vem dos céus, mas os guarda-chuvas vêm dos chineses e eles avançavam em minha direção nesse quebra-cabeça, desviando em um jogo de pisa, não pisa, pisa, não pisa... nos buracos da calçada da maior cidade da América Latina.

Os gestores estão no Tauá Resort, estão vestidos de pobre premium, fingindo decidir o destino de um negócio, mas em chão de terra batida um berranteiro decide o rumo do rebanho? O fundador da empresa, que nunca apareceu fazendo discurso de resiliência, nem nunca viu nenhum desses gestores, vez ou outra liga dizendo que se não cuidarmos, os funcionários podem vir como uma onda, formar poças de água nas quais teremos de pisar. Se houver uma sola descolada, pode molhar o pé inteiro. Mande-os ao Resort por minha conta, afunde-os de uma vez na água, assim jamais se olharão refletidos nela.

Um homem que se finge de morto estampa as manchetes, cometendo todo tipo de crime que a Bíblia condenaria. Antigamente diziam que comunistas comiam criancinhas. Contavam histórias, murmuradas nos ouvidos das crianças à noite, como fábulas políticas de bicho-papão, depois os pais deitavam ao lado de seus filhos, tiravam-lhes os pijamas e diziam que uma existência valia um amontoado de dinheiro e que eles deviam pagar – com o corpo, com a alma. Essa foi a maior vigarice deles.

E esse mundo tem jeito? Já viu como são pesadas as máquinas que espargem asfalto? E mesmo assim o chão todo se arrebenta com uma tímida enchente. É a terra querendo brotar à força. Desliga a tela e vê a chuva caindo na calçada esburacada. Esse momento não se repetirá pela eternidade.

No fim do dia, passou por um pé de goiaba em frente ao ponto de ônibus. O chão sujo de fruta madura que procura a terra, mas não encontra. Quando criança eu e minha melhor amiga jogamos uma goiaba madura no pára-brisa de um carro. Aquela foi nossa maior vigarice - lembrou. De repente, uma goiaba interrompe seu pensamento, cai na calçada a milímetros da sua cabeça, bem em frente aos seus pés. Esborrachou-se no chão de tão madura. Olhou-a por alguns segundos, olhou também pra cima, por fim virou o rosto para o mulher ao lado e, ao cruzar os olhares, falaram ao mesmo tempo entre risos:  “foi quase...” . Graças a deus. A vida é perfeita.

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Imagem: Freepik.


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