NEVE NEGRA - PARTE 4 >>> Nádia Coldebella

 Coração Empedernido

 

Angèlle, porém, agitou-se. Ao olhar para o espelho, pode ver a sombra da rainha morta, olhos frios e desapaixonados, olhando o corpo esquálido na cama.


O povo, tomado pela tristeza e pela dor, chorou a morte da rainha tão amada. Milhares chegavam aos muros do castelo, deitando flores no chão e elevando preces aos céus. 

O jovem rei, com as filha nos braços, chorou o corpo seco da esposa. Depois de a entregar a Angèlle, prostrou-se sobre o túmulo e ali se deixou ficar. Foi uma cena comovente que arrancou lágrimas de todos os presentes, tocados pelo grande amor de sua majestade. Mas, na calada da noite, ele mergulhou sorrateiro pelos corredores do castelo, engolido pelas sombras das paredes antigas, que pareciam cúmplices prestes a aliviar sua culpa. Entrou no quarto de Angèlle  e despejou toda sua dor e luxúria naquele corpo macio, que, ardendo, prontamente o recebeu. 

E assim, desde o dia do enterro, não houve um dia sem que o rei adentrasse no quarto da feiticeira e se entregasse a todo tipo de desejo que sua carne clamasse. E antes que a criança completasse o primeiro ano, ele pôs um fim ao seu luto e os sinos anunciaram, por todo o reino, as bodas reais.


Eram dezoito horas, quando a feiticeira entrou no quarto da princesa. Dispensou a criada e ajeitou-se ao lado da caminha, espalhando o longo vestido branco pela cadeira.

A menina dormia, angélica, banhada por uma cálida luz dourada, que incidia diretamente sobre seu cabelo negro e ondulado, dando-lhe uma coloração levemente avermelhada. Vermelho sangue, igual aos lábios, pensou Angèlle, imersa no contraste que a pele alva da bebê fazia com boca e cabelo.

Esternuto bateu de leve na porta entreaberta e a feiticeira fez sinal para que entrasse. Vestia uma roupa pomposa, mas de cores discretas, muito diferente de quando chegara ao reino.  Ele carregava em suas mãos um grande livro, um pergaminho enrolado e uma pena. Depositou o livro sobre a mesa de cabeceira da princesa e manteve o restante dos apetrechos consigo. Madorno chegou logo atrás, em passos lentos e arrastados, trazendo o espelho enrolado em um pano velho e gasto. Vestia roupas simples, sem qualquer sinal de espalhafato ou pomposidade. 

Angèlle pareceu não notar a elegância dos dois baixotes. Com algum esforço, levou o livro para seu colo e passou a folheá-lo avidamente, mas foi retirada de sua concentração com outra batida na porta. 

- Minha senhora - uma criada cheia de dedos, vestida com rendas e brocados, era quem falava. Fora designada pelo rei para acompanhar a feiticeira no que ela precisasse. - Está quase na hora.

- Sim, sim. - ela exasperou-se. Estava bastante cansada, mas tinha que continuar - Vai indo, vou acabar de ler a história para a criança.

A criada pareceu contrariada, mas a senhora fez um sinal para Esternuto que, sem muita gentileza, fechou a porta. Em seguida, fechou as vidraças e as cortinas da grande janela, deixando apenas que uma tênue claridade entrasse. Angèlle posicionou a cadeira, de forma que a luz incidisse sobre as páginas do livro. 

Madorno seguiu para o outro canto do quarto e sentou-se no chão, coberto pela penumbra, pernas cruzadas e mãos segurando o espelho em frente a face. Logo suas pálpebras caíram e sua musculatura relaxou. O maxilar perdeu o tônus e a língua projetou-se levemente para fora da boca. Ele estava em transe.

Angele folheou novamente o livro, passando o dedo sobre algumas palavras:

 - Triskle Morrígna, duwies driphlyn merch Ernmas. Badb, Macha Nemain. Trisle Morrigna, Baddb, Macha, Anand... Morrigna Fea, Annu... 

Ela elevou os olhos para Esternuto, que havia aberto o pergaminho. Ele estava imóvel, com a pena na mão, olhando curiosamente para a janela. Uma batida insistente vinha de lá. O anão deixou a pena na mesa de cabeceira, junto com o pergaminho. Abriu as vidraças e um pássaro negro e pequeno entrou, indo pousar na cabeceira da cama da princesa.

- Um pequeno corvo, senhora. - O anão pareceu espantando.

A feiticeira, muito quieta, permanecia de olhos fixos na ave. Do outro lado do quarto, Madorno agitou-se. Seus olhos, vítreos, refletiam a coloração azulada que tomara conta do seu rosto. As palavras saiam sem controle de sua boca, mas em voz muito baixa:

- Triskle Morrigna, Morrigna Anand, Morrigna Anand...  - E continuou repetindo, repetindo, repetindo. 

O corvo bateu levemente as asas e pousou sobre o peito da princesinha, dando pequenas bicadas na região de seu coração. Esternuto aproximou-se com cuidado de sua senhora e percebeu que ela estava fria como pedra, coração disparado no peito.

O pássaro deu outra bicada, e a menininha se remexeu na cama. Abriu os olhos de mar azul profundo e sorriu para a ave. Mais uma bicada e as mãozinhas da criança pousaram sobre a ave. Pequenas gargalhadas de prazer ecoaram no ar, quando a feiticeira, sobressaltada, retirou o corpo seco do pássaro das mãos do bebê.

- Morrigana Anand... - Angele deu alguns passos pelo quarto, com a ave numa mão, enquanto ajeitava o vestido com a outra. Tomou o espelho das mãos de Madorno e entregou-lhe o pássaro. - Acorde, acorde. Enterre isso. 

Colocou o espelho diante da fronte e viu. Lá estavam os olhos ocos de Elora sorrindo para ela. Um sorriso morto. O reflexo de uma criança pequena, de três ou quatro anos, também estava lá. A feiticeira estremeceu:


- Ah, Elora...

Angèlle jogou o espelho com raiva sobre o livro. Esternuto ouviu-a falar com aspereza:

-Anand. Anote, Esternuto. - Ajeitou novamente o vestido e pôs a mão suavemente sobre a cabeça. A coroa estava lá. - Anand. Anote. Essa criança agora têm nome. Depois chame a criada. Eu preciso me casar.


Continua em 08 de abril...


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Leia a história aqui:

Neve negra - parte um: A feiticeira

Neve negra  - parte dois: O nascimento da herdeira

Neve negra parte tres: A sombra da rainha morta

Comentários

Albir disse…
Após um breve intervalo, estão de volta o medo e o sobressalto. Quase morri com o corvo em cima do bebê. Mas vou sobrevivendo à sua história e ao corona.
"O que não me mata, me fortalece" - espero que Nietzsche tenha razão, mas não garanto nada.
Paulo Barguil disse…
Depois de hoje, aceitei que essa história vai render...

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