PEQUENAS BÊNÇÃOS >> Sergio Geia

 


São duas taças mareadas de vinho, uma garrafa vazia sobre a mesa, restos de torradas esquecidas no fogão, o gruyère temperado com azeite e ervas. Eu pego a pasta de gorgonzola preparada na véspera — eu mesmo a preparei —, e a espalho numa torrada. Outro dia foi estrogonofe de carne; outro, um filé ao ponto encharcado de molho de queijo; semanalmente a abobrinha cozida. Dei até para ensinar receitas. No meio dos altos papos de ontem à noite eu tratei de ensiná-la a fazer a pasta de gorgonzola; tão fácil, eu disse; ela sorriu. 
 
Li numa dessas postagens que a gente lê e depois esquece quem postou: o legal é beber muito, muito, mas bebam literatura, depois a ressaca a curar é de cultura, apenas cultura, era mais ou menos isso. Muito bobinho, você pode pensar, eu sei, mas hoje a ressaca veio, ô se veio, e não foi de literatura, foi de vinho mesmo. Ela disse toma água, bastante água. Eu disse, nada, é uma pequena dor de cabeça, um analgésico cura. Aliás, tenho predisposição pra dor de cabeça, vocês sabem, né?, estou acostumado. 
 
Hoje quero tomar café com pão fresco. Na semana é café com ovo mexido todo dia. Agora, um pãozinho fresco pela manhã, ah, como faz falta! O mercadinho aqui da frente não abriu, é cedo. Ponho Trocando em miúdos no som, mas só piano, e pego na estante A vida gritando nos cantos, do Caio Fernando Abreu. Trocando em miúdos: a vida grita nos cantos, é preciso ouvir. 
 
Caio aponta em todas as direções. É domingo à tarde — eu fico a imaginar o Caio, domingo à tarde, eu viajo —, ele olha pela janela aberta, tem fresta de sol batendo no cinzeiro, tem ruído de skate, tem bicicletas verdes, azuis e amarelas, tem duas moças descendo a ladeira, as duas de ray-bans pretos, tem rapazes de barba por fazer que descem e sobem a Augusta com jornais debaixo do braço e jeans desbotados. Ah, tem tantas coisas! Tem telefone tocando, tem amigos, tem Chico, tem reflexões, tantas reflexões. Tem Coca-Cola gelada na geladeira, pequena bênção, as pequenas bênçãos de domingo
 
Ah!, como preciso delas para viver, são essas pequenas bênçãos que tornam a vida prazerosa, como ler Caio pela manhã ao som de piano, como café quente com pão fresco. 
 
Caio escreveu Em todas as direções para o Estadão, foi publicada em 02/03/1988. E como Caio tinha tanta coisa a dizer, em todas as direções. Não, senhor Caio F., não era assim que o senhor gostava de ser chamado? Pois então, Caio F., o senhor não tinha o direito, não tinha o direito de partir tão cedo. 
 
O pensamento se mistura às lembranças da noite, a dança no meio da sala, a lista de músicas anos 80, talvez ela me ache velho, mas tão velho, mas sim, eu gosto dos anos 80, e de Roberto Carlos, e de boleros, mas tudo bem, tudo é desimportante e se dilui no afago do bom-dia, na menção de que tudo foi perfeito, que o peixe estava bom, que as músicas anos 80 estavam ótimas. 
 
Com a carteira debaixo do braço, desço pra comprar pão. Há um rapaz loiro absolutamente bêbado, falando alto no meio da JK. Passo ao lado e ele me encara. O pãozinho fresco já chegou. Penso na sobremesa e arrebanho dois Cornetos crocantes. Ah, minha cabeça dói, mas eu mereço, foi bom, penso, é bom, vai ser bom, ah, vida...

Comentários

Albir disse…
Sim, Sérgio, como estamos precisados das pequenas bênçãos! Muitas vezes tem sido o que nos resta.
Paulo Barguil disse…
A grande bênção de estar vivo.
Ferido, mas vivo.
Triste, mas vivo.
Que grande bênção!

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