COMO VAI SER? >> Carla Dias

Imagem © Ben Kerckx por Pixabay

A vida não está fácil. Se bem que... quando ela foi fácil mesmo? Porque não somos muito bons em facilitar a vida no que diz respeito à humanidade. Somos partidários ardorosos das particularidades, aquelas que alimentam nossos próprios prazeres, aumentam nossos poderes de indivíduos navegantes de uma ambição burra que nos protege e sacaneia o máximo de outros possível. 

Problema nenhum ter o desejo de chegar lá, de conseguir aquilo, de planejar uma trajetória de vida. O problema está exatamente no que, de fato, nos mantém humanos: a jornada em si. O problema é que nos encantamos de tal forma com os ganhos, ficamos histéricos com as perdas, enchemos nossas buscas de culpas (sempre de autoria do outro), que nem percebemos o quanto perdemos. É quando a sabedoria samba, desengonçada.

Prazer nenhum em ver o mundo se contorcendo em um misto de morte e necessidades que vão do alimento ao saudoso respeito. Lembra de quando costumávamos protegê-lo? O respeito? Se bem que não andamos muito certos do seu significado. Talvez por isso seja tão difícil para muitos reconhecer que já deu, não há mais espaço para defender histórias particulares. Não agora. Não assim.

Estamos todos participando desse espetáculo de horrores que é a dificuldade de aceitar que dependemos uns dos outros, até daquele sujeito que nos embrulha o estômago escutar, especialmente quando ele dá de desfiar insanidades que contradizem uma nevrálgica verdade. 

Enquanto relutamos em assumir nossos papéis, a vida vai equilibrando importâncias com a ajuda da morte. Você pode enfeitar seu caixão com detalhes da sua vida, mas ele não deixará de ser um caixão. A morte não abrirá mão de você, depois de recebê-lo. Dependendo do quão ardorosos somos ao defender a nossa ignorância, pode chegar o dia (e rápido!) em que teremos nossa (in)existência igualada: todos empilhados nas portas das próprias casas. Corpos destinados à espera de um sistema que faliu, diante da ilusória certeza de que as diferenças que amparam seus usuários, nós, são abismais e garantem a distância à qual muitos chamam de proteção.

Bobagem. 

Corpos empilhados em portas, em bairro nobre ou nos cafundós da periferia, são corpos empilhados e ponto. Desespero diante da falta do que o dinheiro e o poder não podem mais adquirir, por encararmos uma falta que é falta mesmo, que não deixa brecha, vai nos adiantar de nada sonhar com o fim dela.

A economia disponível para nós deveria ser aquela dedicada a neutralizar a nossa insistência em acreditar que estamos em lados opostos, porque não estamos. Nem o zoneamento da cidade poderá nos catalogar, definir, tampouco as avenidas embrutecidas pela miséria que vem, a cada dia, se esparramando por todos os lugares, enquanto insistimos em aprimorar técnicas para ignorá-la.

Querendo ou não, repito: somos o outro um do outro. Sou o seu outro e você é o meu, ainda que me embrulhe o estômago saber umas coisas sobre você e as suas convicções. Ainda que lhe embrulhe o estômago saber umas coisas sobre mim e as minhas convicções. 

Deve ser coisa de arranjo da vida com a morte para nos colocar nos nossos devidos lugares. Porque, no final das contas, em momentos em que as nossas vantagens sobre os outros apenas criam impossibilidades de se evitar tragédias, de evitar empilhamento de corpos em frente das casas que, lembra? Era lá que você vivia suas festas e celebrações, eu desencantava teorias ao colocá-las em prática. Onde nos apaixonamos pelo futuro... 

No final das contas, todos nós temos portas, sejam as de madeira ou as de sereno. Todos temos esse lugar, esse palco onde o acúmulo de decisões equivocadas, e da rasa compreensão da necessidade de nos unirmos por tudo o que temos em comum - em vez de nos hostilizarmos por tudo o que nos afasta -, pode nos levar a um fim que, por mais diferentes e distantes que nos consideremos, será terrível e será o mesmo.

Então, como vai ser?


Imagem ©  Ben Kerckx por Pixabay


carladias.com






Comentários

Paulo Barguil disse…
Não sei, mas será! ;-)
"Sou o seu outro e você é o meu": muito bom.
Carla Dias disse…
Obrigada, Paulo!

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