PRECE >> KIU OLIVEIRA
Aprendi uma felicidade nova na escola, e saí de lá doido pra
mostrar a novidade a minha vó. Entrei pela porta da frente da nossa casa, esbaforido,
sorriso frouxo no rosto, lápis verde na mão e um caderno com a foto de Nossa
Senhora na outra. Gritei por vó até aparecer a vizinha na porta da nossa casa, sussurrando
que vó foi ver a filha que estava desaparecida; acharam ela depois de anos de
busca. E aumentou a voz ao dizer que a sumida apareceu graças aos cartazes nas
ruas, anúncios nas rádios, na tevê, na internet, e principalmente por conta da intercessão
do Santo Antônio de vó. Coloquei o caderno e o lápis na mesinha da sala, onde
ficava o santo querido de vó – tinha um igualzinho em cada canto da casa. Ela rezava
todos os dias pela volta da sua menina.
“Onde ela foi, Marta?” A vizinha fez cara de não sei. “Eu
queria mostrar pra vó uma arte nova. Ela demora?”
“Sua avó não falou, você morre de saber que ela nunca dá
satisfação sobre aonde vai. Só deixou comigo um recado: é pra você comer o que
está no prato tampado em cima da mesa. E tem suco na geladeira, pode beber o
quanto quiser. Zizinho, se precisar de qualquer coisa, é só gritar que venho
correndo.”
Tranquei a porta, igual vó gostava quando eu ficava só. O
prato estava bonito, o feijão e o arroz tinham cheiro de festa, e para
completar, estava enfeitado com um bife grandão e uma pilha de batata frita. Não
demorou, levei o prato vazio até a pia e nele passei água, sabão, bucha, depois
água de novo, igual vó gostava. Tomei um copo de suco, guardei a jarra com o
restante na geladeira. Na certa vó e sua filha chegariam com sede.
Depois de escovar os dentes, peguei o caderno e o lápis de
volta e gritei bem alto o nome de Marta, ela bateu na porta em dois palitos. Pedi
que escrevesse o nome da filha de vó em meu caderno e ela ficou estranha, como
se eu tivesse falado alguma palavra dura, ou a ferido com um beliscão ou tapa,
não sei contar direito o que vi. Pedi de novo, ela parecia em outro mundo, então
falei mais alto, ela levou um susto. Pediu desculpa e se sentou ao meu lado. Escreveu.
A palavra Santina eu já sabia escrever de cor e
salteado, passei a manhã treinando na escola. Lucília eu aprenderia até
elas chegarem. Vó ficaria duplamente feliz e, se existia coisa mais bonita do
que vó sorrindo, Deus ainda não tinha me mostrado. Não demorou nada e a folha
do caderno estava preenchida. Na seguinte, intercalei: Santina, Lucília, Zizinho.
A mão e o braço doendo, decidi que já estava bom o bastante. Era só esperar.
Estava escuro quando a vizinha veio me avisar para tomar
banho, ela me esperaria para irmos até a sua casa; prepararia a janta e tinha
uma cama sobrando pra mim. “Minha vó e a filha dela não chegam hoje?” A vizinha
olhou pra cima e disse que não sabia.
Vó não gostava de me deixar sozinho à noite, por isso peguei
minha escova de dentes, o caderno, o lápis e fui com a vizinha. A comida dela
também era bonita, mas não comi tudo. O filho dela me ofereceu um dos seus
carrinhos, aceitei, mas não consegui nem ligar o motor do brinquedo na
imaginação. Minha cabeça estava no caderno, no lápis, na volta de vó com a
filha. Por isso aceitei de cara quando Marta me perguntou se eu queria ir para
a cama.
Com o caderno e o lápis ao lado do travesseiro, fechei os
olhos e fiz uma prece; um pedido para Santo Antônio, igual vó gostava de fazer.



Comentários
cativam a gente, logo de cara. Esse texto é apenas ótimo!