O COVEIRO. A MORTE. A VIDA. E O VAQUEIRO - 2a parte >> Zoraya Cesar
trilha sonora para acompanhar a história
O coveiro passou um café. O defunto não aceitou, claro. E começaram a entabular uma conversa que durou longos dias e longas noites, interrompidos apenas
quando o dever ou o sono inapelável clamavam pelo coveiro.
Entre cafés e enterros, o vaqueiro contou sua vida como
caçador de recompensas, ajudante de xerife e, finalmente sua volta às origens:
cuidar de gado. Juntou dinheiro suficiente para virar um pequeno rancheiro,
conhecera uma moça para casar e estava feliz. Era ambicioso, não ganancioso. Tudo
corria bem.
Corria bem conforme a vida, claro, cheia de vãos, desvãos,
idas, vindas, sobes e desces. Pois impossível passar uma existência como a sua
sem fazer inimigos. Ladrões que prendera, amigos dos assassinos que enforcara,
desonestos que desmascarara. E, por fim, os piores, os invejosos.
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Um estranho laço de amizade se formou entre aqueles seres. O
vaqueiro ajudava nos misteres do cemitério, o coveiro aperfeiçoava as costuras
e arremedos do corpo do morto.
O vaqueiro contava também sobre suas andanças - cidades falidas,
vilarejos ricos, montanhas perigosas, corredeiras mortais, o frio das noites ao
relento, o calor nas areias dos desertos. A tudo o coveiro ouvia embevecido,
não tendo ele – nem seu pai, nem seu avô, nem seu bisavô – jamais saído dali.
O corpo, finalmente, estava mais parecido com um ser humano
sobrevivente às torturas do inferno e não mais como um defunto andante.
Chegara a hora da despedida.
- Você sabe quem fez isso com você? – perguntou o coveiro.
- Sim.
- E ...?
- Vou me vingar de um por um. E voltarei para você me
enterrar, conforme prometi. Pois então terei paz.
- Sempre convivi com a morte e a solidão. Mas agora tenho
medo de morrer, e morrer sozinho.
- Você não vai morrer sozinho. É uma promessa.
O corvo bateu as asas, os vidros da janela estremeceram, e
ele sumiu nos céus.
E o vaqueiro morto partiu.
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A MISSÃO DO VAQUEIRO
Caminhar na Terra como defunto pode ser mais fácil do que
pensamos.
O vaqueiro não sentia frio, cansaço, sono ou fome. As intempéries
não o abalavam. O medo não o impedia. O ódio e o desejo por paz o impeliam, inexorável como o destino. A tempestade estava chegando para os facínoras. Andava nas sombras e, das poucas vezes em que era avistado, só o
consideravam um homem horrendamente feio e esquisito. Afastavam-se
instintivamente, algo naquele homem inspirava um terror ancestral, e ele não era molestado.
O primeiro assassino, ele o encontrou no quarto imundo de um prostíbulo decadente, espancando uma coitada de uma puta, como se a vida não a tivesse esbordoado o suficiente. Quando o vaqueiro entrou, a mulher deu um grito e se encolheu, transida de pavor, em um canto da parede. O infame não gritou nem se encolheu, mas suas pernas bambearam e seus ovos murcharam. Seu cérebro animalesco não conseguia decidir se aquilo era uma assombração, fruto de sua imaginação ou se o homem que ele pensara ter matado cruel e lentamente há meses tinha sobrevivido.
O vaqueiro avançou e o imobilizou. Nada ou ninguém tem mais força do que um morto raivoso e com uma missão de justiça a cumprir.Em poucos instantes o sujeito estava pendurado de cabeça
para baixo em uma viga do teto, as bolas murchas enfiadas em sua boca, o sangue
esvaindo pelo corpo.
- Você vai morrer lentamente, de hemorragia ou sufocamento. Para mim, tanto faz. Para o mestre que vai te receber no inferno,
também.
A mulher assistia a tudo sem se meter. Quando viu que o estranho vaqueiro não lhe faria mal e que o destino do vagabundo estava selado, pegou as roupas, dinheiro e pertences dele e escafedeu-se. Nao antes de enfiar-lhe uma grossa estaca no cu.
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O segundo e terceiro assassinos escondiam-se dentro do mato. Dividiam o butim de um assalto no
qual não pouparam a vida de ninguém. Estavam bêbados. Estavam fedidos a suor e
sangue. Estavam felizes.
O vaqueiro chegou por trás, silenciosamente, como um bom
morto, deu uma pedrada na cabeça de cada um, amarrou-os e esperou que despertassem.
Acordaram praticamente juntos, xingando, ameaçando torturas
horríveis, alternando com promessas de riquezas incalculáveis se fossem soltos.
A luz da fogueira deformou ainda mais o rosto do vaqueiro e eles não o
reconheceram. Até que ele falou.
- Vocês não lucraram nada com minha morte, nem dinheiro eu tinha. Só queriam se vingar porque eu os
expulsei do rancho. Acharam divertido me torturar até a morte e deixar meu corpo para os chacais comerem.
(Não comeram porque o corvo não deixou. Mas não havia
necessidade de entrar em detalhes.)
- Procurei por vocês durante muito tempo. Estou cansado.
Quero descansar.
Os sujeitos mijaram nas calças, pediram perdão, clemência,
gritaram feito porcos sangrados. O vaqueiro, calmamente queimou
as solas dos pés de ambos. Seus gritos encheram o inferno de alegria.
A um, o vaqueiro jogou em cima de um ninho de ceifadoras-vermelhas,
as temíveis formigas devoradoras de carne. Elas comiam suas vítimas aos poucos,
e nenhum animal ousava roubar-lhes o alimento. Levava dias, às vezes semanas, até a presa morrer,
e, dela, só sobravam ossos.
Ao outro não coube melhor destino. O vaqueiro o esfolou com
esmero e cuidado especial para o bandido nem desfalecer nem morrer. Depois que
o deixou em carne viva e pulsante, jogou sal e amarrou-o no estribo de um dos
cavalos. Ninguém sabe o que o vaqueiro sussurrou aos ouvidos do bicho, o que se
sabe é que ele correu, arrastando o corpo escorchado pelas pedras do caminho e
só parou ao final de tudo. Que demorou muito, muito tempo para chegar.
ENTERROS E DESPEDIDAS
Terminada sua missão, o vaqueiro cumpriu o acordado e voltou
para ser enterrado.
No ritual, somente o coveiro e o corvo, que restava, quieto, em cima da lápide, na qual estava escrito: A vingança caminha junto à honra verdadeira.
O coveiro sentou aos pés do túmulo e chorou. Chorou pelo único amigo que conhecera. Chorou pela vida perdida entre mortos. Chorou porque percebera quão triste era a solidão herdada dos antepassados. Chorou porque tomara uma decisão difícil e estava com medo. Medo do mundo, da morte, da vida. E da reprovação de seus pai, avô, bisavô, eles que viveram da terra e da morte.Finalmente, levantou, pegou suas poucas coisas e partiu.
O corvo bateu as asas e sumiu em direção à lua crescente.
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E TUDO É SEMPRE COMEÇO E FIM
O tempo passou sem ser medido, mas é sabido que o coveiro viajou por lugares que nem imaginava existirem; peregrinou aos locais em que seu amigo tinha vivido ou passado e em cada um deles deixou uma pequena cruz de paus fincada na terra.
Já não andava tão rápido, precisava de um bastão para caminhar e começava a ansiar por um pouso permanente. Aprendera muito em suas andanças e sabia mais sobre a vida que seu pai, seu avô e seu bisavô juntos. Mas não esquecera o que conhecia da morte.
Por isso, quando, ao adentrar em um povoado, viu, no pórtico
de entrada, o corvo pousado, soube, indubitavelmente, que iria morrer naquela
noite.
Encontrou um abrigo na montanha, deitou e esperou. Sua única dor era morrer sozinho. Disso tinha medo. Mas não queria
morrer entre estranhos, isso, para ele, era ainda pior. Lágrimas
escorreram pelo seu rosto, até que mesmo elas secaram.
Ouviu um ruflar de asas e o som de cascos de cavalo nos pedregulhos. O corvo reapareceu e, com ele, o vaqueiro.
- Amigo, sou um homem de palavra. Você confiou em mim e por isso pude descansar em paz. Não ia deixar você morrer sozinho.
O coveiro, feliz, relaxou, agradeceu ao seu Deus particular
e foi assim, conversando calmamente com seu amigo, que ele morreu.
Acordou em um outro plano.
- Venha, disse o vaqueiro. Você vai gostar daqui. Quero ouvir o resto de suas aventuras. Fico feliz em saber que teve uma vida interessante.
O corvo bateu as asas pela última vez e os três partiram rumo à névoa onde habitam os mortos.


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Comentários
Comeu ovo podre por aí.
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