O BEBÊ CHUPANDO MANGA >> ALLYNE FIORENTINO

 


Meu fascínio pelos paradoxos é o mesmo que tenho pelos seres humanos no geral, exatamente porque toda essa matéria corporal finita e grosseira é basicamente feita de carne, osso, uma coisa desconhecida e paradoxos. Sem suas incongruências, nenhum humano conseguiria explicar nem o pé frente ao pé que usa para caminhar.

É delicioso lentamente saborear, como se fosse um doce francês extremamente requintado e de complexa feitura, todas as nuances, as voltas e o quebra-cabeça que fazem para dar conta de aplainar esse campo rochoso de seus paradoxos. E quando você pensa que eles não vão conseguir juntar lé com cré, totalmente opostos, de forma coerente, não duvide, eles conseguem! Sempre conseguem!

Não há limites para a imaginação humana quando pretende justificar algo que não consegue nomear: fiz porque quis. Isso deveria bastar, mas 0toda a antropologia não valeria nada se não fossem as satisfações que inconscientemente damos a tudo e a todos em cada segundo que respiramos. “O que impede um ateu de cometer todo tipo de atrocidade?” Foi o que perguntei ao meu amigo dias atrás, e insisti: “Acreditando, você, que a vida é uma só, o que te impede de romper com tudo e todos? Se vai acabar logo, porque querer fazer o que todos fazem?”. Acho que foi demais pra ele essa pergunta, virou o olhar e gaguejou como acontece quando estamos frente a frente com nossas contradições. “Pra eu me sentir bem” foi a resposta. Simplória uns diriam, mas é profunda.

Veja bem, é como o caso do bebê chupando manga. Um vídeo, que pretende ser fofo, mostra uma criança experimentando pela primeira vez a fruta. E na tela do celular milhões de pessoas assistem aquilo, esperando ver a reação do bebê, que, segundo a legenda, iria ser engraçada ou adorável. Nada acontece fora da normalidade: é só um bebê normal comendo um pedaço de manga normal. Digo, tem a beleza da normalidade, mas é só isso. Nada que não tenhamos visto ainda. Entretanto, isso parece ter sido mais impactante para alguns do que o humano ter ido ver a lua novamente ou ver uma cena extremamente violenta de crianças morrendo em guerras. Se o cão viesse dos infernos chupar a manga, isso não abalaria o ser humano, mas o bebê chupando a manga, sim.

 Que grande paradoxo, não é mesmo? E uma grande volta também desde que saímos das nossas tribos que priorizavam o coletivo, aí nos civilizamos, então, dia a após dia fomos construindo uma coisa que chamamos de individualidade, passamos pelo romantismo com a ideia de identidade, aí seguimos diminuindo cada vez mais o núcleo familiar, nos isolando, criando as nossas próprias ferramentas de solidão, as crianças foram ficando de fora das atividades diárias dos adultos, aí inventamos mais trabalho, mais tempo de escola pra compensar, enfim: é raro hoje vermos crianças, bebês... É uma solidão diferente. É a falta de ver a vida em curso, natural, como acontece. E você poderia perguntar a todos que assistiram, “por que você assistiu?” e certamente eles responderiam simploriamente, profundamente: “Pra me sentir bem”.

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Imagem gerada por IA.

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