O COPO>> Lara Passini Vaz-Tostes
O copo
Chegou do trabalho cansado, circunstância sem nobreza e sem novidade, embora cada homem trate a própria fadiga como se o universo lhe devesse particular consideração. Tirou o paletó, trocou de roupa, vestiu o pijama e foi à cozinha cumprir o seu modesto rito noturno, desses que não consolam, mas ajudam a disfarçar o desarranjo interior.
Queria um copo de leite antes de dormir.
Não em qualquer copo. Havia um, só um, reservado à ocasião. Não era mais bonito, nem mais limpo, nem sequer mais apropriado. Era o preferido. Em matéria de miséria humana, isto basta. O hábito nunca precisou de razões sólidas para exercer tirania.
Achou-o sujo, na pia.
A solução era lavá-lo. Justamente por isso pareceu insultuosa. Aproximou-se, pegou a bucha, olhou o copo e por um instante esteve a ponto de praticar esse ato excessivo de energia. Não praticou. O cansaço daquela noite, perfeitamente comum, adquiriu-lhe no espírito a solenidade ridícula das grandes catástrofes. Lavar um copo pareceu-lhe abuso.
Quase uma perseguição.
Pôs a bucha de volta.
E armou-se então, com admirável clareza, toda a máquina de sua derrota: não beberia o leite sem aquele copo; não dormiria sem o leite; não lavaria o copo porque lhe faltavam forças. O raciocínio era impecável. Como costuma acontecer, a fraqueza pensava com grande método.
Sentou-se.
Depois continuou sentado, o que foi sua única forma de perseverança naquela noite. Aos poucos, pareceu-lhe que a vida inteira, já de si mal escorada, cedia um pouco ao lado da pia. Pensou nos próprios hábitos, em suas pequenas fidelidades, em quantas vezes um homem imagina possuir caráter quando possui apenas costume. Há quem se arruíne por amor, por dinheiro, por ambição. Ele, mais modesto, desorganizava-se por louça.
Cogitou ir ao hospital.
A ideia tinha certa utilidade poética: dar ao ridículo um nome clínico, internar o vexame, medicar a humilhação. Mas a verdade era mais simples e menos tratável. Não estava doente. Estava apenas vencido.
Por um copo.
Não o lavou. Não bebeu o leite. Não dormiu.
Na manhã seguinte, sairia ao mundo com a compostura comum dos funcionalmente arrasados. E levaria consigo essa lição sem brilho: o homem raramente cai por grandes abismos. O mais frequente é diminuir-se por alguma coisa pequena, suja e perfeitamente lavável.



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