ESPETÁCULO >> KIU OLIVEIRA
Sexta-feira
era dia de espetáculo na casa vizinha. A noite de quinta alargou meu quarto, a
cama, as horas, e eu não conseguia parar de pensar no plano arquitetado mais
cedo com meu primo Marquinho. Devia ser madrugada quando o povoado se calou.
Foi quando notei uma sombra se movendo no telhado... estremeci. Ainda assim fiz
das minhas mãos dois bons escudos e percorri, com as pontas dos dedos, a
cabeceira da cama, recrutando a Mulher Maravilha, a Xena, a Viúva Negra, o Homem
Aranha, o Pantera Negra e o Wolverine. E nos abrigamos sob o cobertor, até o
sol voltar.
Café
rápido. Escola demorada. Tarde modorrenta.
Finalmente
a noite chegou, trazendo a visita da tia Cléo e do tio Marcos; ele com um
engradado de cerveja em uma das mãos — a barriga empurrando a camisa de time de
futebol, a tia com uma vasilha grande
abarrotada com alguma comida que só ela sabia fazer. Gostava de se gabar disso,
o rosto escondido sob a maquiagem. Meu primo fez suspense, ao delongar sua
entrada, e apareceu de mãos abanando. Eu me aproximei e cobrei o celular que
ele ficou de trazer; sorriu, apontando para o próprio bolso.
Meu
pai cuidava da carne na churrasqueira, minha mãe recebia a irmã e o cunhado,
mas pediu licença e voltou correndo para o fogão; não deixaria a mandioca passar
do ponto, não queria ouvir meu pai reclamar até o fim da noite, e nem no dia
seguinte.
Meu
pai tirou um pedaço de carne da grelha e serviu ao meu tio, enquanto gritava para
a minha mãe tirar o pé do chão e trazer mais cerveja logo. Aumentou o volume do
som o suficiente para abafar a música vindo da casa da frente. Tio Marcos berrou
— pedaços de carne dançando entre seus dentes — que era pro meu pai ficar atento, pois logo o
espetáculo começaria.
Marquinho
piscou o olho pra mim e seguiu para o meu quarto, queria me mostrar como a
câmera do seu celular era boa, “a melhor de todas, primo!”. Pediu que lhe
mostrasse os capuzes feitos com as pernas da meia-calça da minha mãe. Tirei-os
do bolso e ele quis saber se ficaram bons mesmo. Vestiu um e perguntou se dava
para reconhecê-lo, pois não queria ser descoberto, caso fosse visto. Vesti o outro,
e ele riu a ponto de quase estragar tudo.
Mais
carne servida, minha tia gritando “vem comer, Marquinho”. Fomos correndo,
excitados com a ideia de gravarmos
o espetáculo.
Difícil
acreditar no que ouvíamos ecoar da casa vizinha, porque nos dias seguintes ao evento,
a família — pai, mãe e filhos — vivia a semana como os outros: escola,
trabalho, esportes, igreja, bar, academia, papo rápido com os vizinhos. Minha
mãe achava que tudo aquilo não passava de uma discussão boba. Meu pai garantia
que era traição por parte da mulher. Meu tio apostava que o evento acontecia
por falta de dinheiro. Minha tia profetizava a falta de Deus. Como não dava
para cravar, deram o nome de “espetáculo” para aquele desconhecido, mas acontecia
de usarem outras palavras: cafua, fuzuê, novela, barraco, furdunço, auê,
fuzarca, encrenca, em-briga-de-marido-e-mulher-ninguém-mete-a-colher.
A
noite já ia longe e nada acontecia. Meu tio ameaçou ir embora, meu primo estava
emburrado. Quando o grito da mulher atravessou o espaço, músicas e luzes foram
sumindo das casas do entorno — silêncio e breu camuflaram a plateia sedenta. Todos
sorrimos, cúmplices.
Marquinho
e eu saímos pela porta da frente sem contratempo. Capuzes nas cabeças, saltamos
o muro da casa vizinha pelos fundos e caminhamos devagar, fazendo pequenas pausas.
À medida que chegávamos mais perto, os gritos diminuíam. O som de uma criança
chorando me fez querer abortar a ideia, que àquela altura não parecia tão boa.
A julgar pelo choro, a criança devia ser bem mais nova que nós. Marquinho
gesticulou para irmos em frente, o segui com a barriga doendo.
A
janela da lateral da casa estava aberta; engatinhamos até alcançá-la. De
cócoras sob ela, ele preparou o celular, mãos trêmulas. Pela janela, escapavam gemidos
abafados. Sinalizou que seria meu o próximo passo.
Depois
de respirar fundo algumas vezes, Marquinho quase surtando, me levantei e, antes
de todas as luzes serem apagadas, eu vi...
Vi
um grande silêncio, e não havia cobertor.



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