OXICOCOS, QUE FEIO >> whisner fraga

 


vocês têm disso, também?, de ficar pegando um disco, ouvir, ouvir de novo, procurar os detalhes, um baixo que escapou, um repique genial, um teclado se esgueirando entre um solo de guitarra e uma escala de percussão, reler a letra, reconhecer o espírito da música?,

nessas horas eu paro tudo para apreciar um trabalho bem feito, acho que mereço essa fruição, esse diálogo,

não vou expor aqui o meu novo vício, meus gostos podem soar um tanto excêntricos, embora, surpresa!, haja períodos de música mais leve (como agora), clássica, mpb, new wave, pop, mas não é o foco,

outro dia, em um bar-livraria badalado, um escritor me perguntou como era ouvir aqueles petardos e ter bom gosto literário, como se fossem alguma coisa antagônica, excludente e eu nunca havia pensado sobre o tema, respondi que era e ponto,

até vasculhei a internet em busca de detalhes, mas nada me chamou tanto a atenção quanto um dado enigmático: a banda do sujeito tem mais de trinta milhões de ouvintes mensais no spotify (sim, eu uso o app!), mas o mesmo cara, em carreira solo consegue dois mil, na mesma plataforma!, que mundo peculiar,

e olha que as faixas desse trabalho independente não deixam a desejar se comparadas às obras da banda, porque, pasmem!, ele é o compositor, em ambos, mas não sozinho, claro, há a dolores, mas ela já não pode mais nada, a não ser nossa saudade,

mentira que fico surpreso, eu desconfio um pouco dessas coisas de mercado, marketing, interesses, esses meandros do sucesso,

o disco acaba, preciso refletir um pouco, dou uma passeada pelos jornais, só de ler as manchetes me encrenco: que mundo!, sei lá se há solução, uma bomba em pleno cessar-fogo e trezentas vidas perdidas, 

mesmo que não fosse cessar-fogo!,

nessas horas eu não tenho vontade de fazer mais nada.

Comentários

Anônimo disse…
E parece que o disco convida a gente a prestar atenção nesses detalhes, né? Outro dia, ouvindo o Closer, fiquei besta pelo timbre de caixa da primeira música. É um negócio tão bonito e tão esparso. Parabéns para quem disse que, sem música, a vida seria um erro.

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