COLETORES >> Carla Dias
Morte é o que movimenta os negócios. Ano passado, as contas bancárias dele e de seus colegas se esbaldaram em extras. Na tevê, ela anda tão em alta, que há influencers de rede social jurando conversar com a executora diretamente, “se quiser negociar sua partida, mande um pix para amortenaolhecaibem”.
Acha o roteiro da realidade bem peculiar e de mau gosto. Se continuar assim, as 24 horas do dia de todos serão preenchidas por uma espera agoniante pela morte. E de nada vai adiantar ter como viver bem, com condições de pagar plano médico de mensalidade de muitos dígitos, água jorrando em outro planeta, arroz e feijão gourmet — cultivados por monges budistas e preparados por freiras ao som de música sacra e mantras. Nem mesmo os ajustes no visual contarão muito. Outro colega comenta sobre a internação do filho para uma cirurgia bem simples e efetiva: diminuir nariz, implantar cabelos, “alinhar os lados da cara”, fazer lipoaspiração e alguns outros procedimentos cosméticos.
Não imaginava que viveria para ver a morte comandar a vida em vez de ser host de quem esgotou a própria existência. No entanto, o trabalho tem de ser feito e ele precisa trabalhar. Apesar da imagem plena, de quem não está nem aí para a história do mundo, ele rumina, em constância determinada, que poderá pagar o plano médico milionário, mas não haverá profissionais da saúde para cuidar da saúde. Mortos. A vontade por um arroz e feijão metido à besta também não vingará. Chefs de cozinha são raros e, na maior parte do tempo, escondem-se para não serem transformados em cozinheiros da prisão-mundo. A água... Ah, a água. Essa parte sempre lhe desperta o desejo de chutar as canelas de quem ainda reclama das chuvas. Ainda não há tecnologia de abastecimento capaz de ligar o Planeta Água às tubulações da Terra.
A esposa chorou por horas quando ele comunicou a decisão, “não tá certo!”. Precisava trabalhar, tentar a sobrevivência da família. Os três filhos, silenciosos, sentados no sofá, não entenderam nada. Ainda são muito jovens para compreender os desfechos do fim do mundo.
Todos os dias, das 23h às 5h, ele e seus colegas circulam pela cidade coletando corpos das calçadas. Tentou ser coletor de lixo, mas as pessoas não se importam mais com restos, que fiquem onde couberem. Já os corpos, ceifados a contragosto da morte, resultado de todas as escolhas erráticas de seres pedantes, continua a alimentar a violência, a supremacia e a incapacidade de compreensão de que a vida anda sufocada por tanto egocentrismo partidário do “eu quero mais do que ele”, “eu sou mais do que ela” e por aí vai.
Durante o trabalho, entoa, na discrição do seu interior, o pedido: que eu seja coletado antes de meus filhos.



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