O LADO OCULTO DA LUA >> ALLYNE FIORENTINO
E o que tinha do lado oculto da
Lua? Aparentemente nada relevante. Pelo menos é isso que deduzimos pela foto
que divulgaram para os seres humanos comuns. Mas também não estamos vivendo uma
segunda Guerra Fria ainda, estamos em plena guerra mesmo, esse tempo que respiramos anestesia. Seria um momento
perfeito para uma revelação bombástica: ninguém acharia extraordinário se descobrissem
vestígios estranhos em solo lunar, indicando, por exemplo, que já tenha sido
uma base de guerra interplanetária. O extraordinário foi morto, não sobrou nem
o ordinário, ficou o extra. Menos os extraterrestres: esses tememos.
O extra abstrato é a verdadeira entidade a
qual todos cultuam, um grande deus da possibilidade latente. E não vivemos
todos como se houvesse um planeta extra, uma dimensão extra, uma esperança
extra? Esse tal deus do extra vive na cabeça de todo mundo. Dos crédulos e não
crédulos. Dos últimos, principalmente.
Entretanto, nos quartos escuros, durante
o silêncio noturno ou nos mais profundos rincões de nossas almas, talvez estivéssemos
rezando para não haver nada no lado oculto da lua, nem no lado oculto de qualquer coisa. Ver para crer. Ver para descrer. E o que faríamos
com a perturbadora informação de que não estamos sozinhos, mas que fomos
deliberadamente deixados sozinhos por milhares de civilizações que nos ignoram
propositalmente?
Há algo de errado na Terra. Na
terra, no mar, no ar. Há algo de errado – sabemos. Deve existir algo – sabemos.
No fundo sabemos e sentimos uma profunda vergonha de como tocamos a vida aqui,
humildes, em uma humildade animalesca, daqueles bichos que desconhecem a própria
cauda.
Observadores do céu também já
disseram que éramos o centro do universo, condenaram aqueles que tentavam dizer
que éramos um pozinho ínfimo e nem tão brilhante na vastidão do universo. Da
mesma seara são os que acreditam nessa solidão terráquea e condenam aqueles que
dizem ser impossível estarmos sós. Não somos nada, mas aqui, neste chão de terra
somos tudo. É possível lançar mísseis para explodir este lar. Acabariam com a própria
espécie se deixassem. Respiram, então, sabendo o porquê de estarem sós. Olha
pra lua quando dá tempo. Ela aparece entre os vãos dos prédios, ela desponta
entre o ordinário.
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Imagem: Nasa.



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