MANIFESTO DA PÁ >>> NÁDIA COLDEBELLA
Caro leitor,
Dada as últimas notícias, venho trazer explicações e uma ameaça, digo, convite.
Acusações sem fundamento
Você já deve ter observado que, em algumas crônicas deste blog, é feita a referência a uma sociedade dita mística e impermanente, chamada FRATERNIDADE DA PÁ. O leitor também deve ter percebido que a referida Sociedade tem sido alvo de ataques morais, que a acusam de planejar e executar a morte de terceiros por baixo dos panos, de envolver-se com assuntos do outro lado ou, pior ainda, de não ter dignidade e fomentar a criminalidade, especialmente a do tipo doloso e conjugal.
Em nossa defesa, eu, conhecida pelo círculo de irmãos como Countess Velvet, exponho minha identidade pasística para esclarecer a verdadeira natureza da nossa adorada Irmandade.
História detectada
Conforme historiador experiente (e devidamente ameaçado), a Fraternidade da Pá tem cerca de 5.000 anos, remontando aos tempos do antigo Egito, especificamente à época de ouro dessa nação. Possivelmente foi nesse período que os primeiros conhecimentos secretos sobre como enterrar os mortos e mantê-los dentro dos túmulos, mesmo contra sua vontade, foram codificados.
A sociedade também recebeu influência das primeiras tradições místicas, especialmente da Atlântida perdida, um período em que era comum o trânsito para o além feito dentro de um barquinho. O restante dos conhecimentos não temos certeza de onde surgiu, mas, ao longo dos séculos, historiadores vêm sendo coagidos, digo, convidados a desvendar os fatos históricos desta Sociedade.
A metáfora do Urubu
Nos escritos antigos, observa-se que os primeiros movimentos organizados, mais tarde denominados Fraternidade da Pá, surgem com o mesmo propósito do Urubu. Isso pode parecer estranho à cultura moderna, toda cimentada e cheia de dedos, porém, na natureza, o Urubu exerce uma função nobre: a de faxineiro do mundo.
Outros animais também desempenham essa função: hienas, chacais, condores, besouros carniceiros, moscas varejeiras, anêmonas, estrelas-do-mar, peixes-bruxa e muitos outros. Não é bonito, mas é útil. Ou seja, a própria natureza não ignora a necessidade de limpeza do seu ecossistema. O que nos leva, caro leitor, ao óbvio.
A FRATERNIDADE VEIO PARA FAXINAR. MAS DE FORMA ELEGANTE.
Isso também explica por que você observará, em nosso símbolo, um singelo Urubu de asas abertas: uma metáfora para o acolhimento irrestrito da Fraternidade.
Códigos morais da Sociedade
Esclarecido isso, é importante também deixar claro ao leitor que a Fraternidade possui códigos morais rigidamente seguidos. Não são muitos, é verdade, porque também nos é dada uma grande liberdade de ação. Contudo, os códigos expressos não podem ser violados, sob pena de o membro partir desta para uma pior, quer dizer, sofrer castigo eterno, quer dizer… bom, esclareço isso depois.
De forma didática, os dois códigos ético-morais da sociedade são:
1. Princípio da lealdade absoluta. Os irmãos em Pá são livres para limpar, com justiça e criatividade, toda vez que detectarem uma situação em que há essa necessidade. São juízes e executores, não baseados em julgamentos subjetivos, mas em indicadores objetivos que garantem a precisão da atuação. Às vezes preenchemos escalas — afinal, até a morte exige planejamento. Os métodos de limpeza são pessoais e alinhados à vocação de cada membro. Contudo, os membros jamais podem voltar-se uns contra os outros — garantia esta assegurada por nossos contatos no além. A pena para isso é… bem, não vem ao caso. De qualquer forma, a autodefesa é aprovada.
2. Respeito absoluto à diversidade. Não apenas à diversidade humana, inclusive a dos nossos, digamos assim, clientes, mas também à diversidade das personalidades dos irmãos em Pá, aos métodos utilizados nas limpezas cármicas e às formas de se livrar do corpo. Temos, inclusive, notórias sumidades nessa arte, como a queridíssima Lady Killer, com seus métodos muito pessoais de ajuste de contas com os infiéis — inclusive os do outro mundo —, ou o nosso Mestre Alquimista, especialista na produção de venenos indetectáveis e ajustáveis conforme o grau almejado de sofrimento para o pecador.
Da condição pasal: a inegabilidade do pertencimento
Um ponto de absoluta seriedade, mas levianamente discutido no mundo moderno refere-se ao Chamado da Pá. Quando alguém recebe uma ameaça, digo, convite, da Fraternidade, dificilmente poderá recusá-lo.
Para os leigos, isso pode soar como desrespeito ao livre-arbítrio humano — se é que ele existe. No entanto, o fato é que não são os membros da Pá que emitem o convite. O convite já é da pessoa antes mesmo que ela o saiba. Antes mesmo que os irmãos em Pá o saibam.
É provável que essa pessoa já tenha sido observada, há muito tempo, por forças que transcendem a nossa compreensão — os manos do outro lado. Possivelmente, o convite nasça com a pessoa, como um destino imutável. O convite expresso — em papel, verbalmente ou por meios digitais — é apenas uma formalidade.
Mesmo que determinados indivíduos recusem, neguem ou ignorem, suas ações já comprovam o seu pertencimento inegavel à fraternidade. Contudo, viver assim — sem sair do caixão, digo, do armário — pode levar a uma trajetória bastante difícil, permeada por sofrimentos, acidentes, incidentes e tentativas de assassinato que fogem ao nosso controle, mas que a gente apoia.
A essência pasística justifica os meios
Nos tempos modernos, a fraternidade também procura empregar meios modernos.
Você deve ter observado que, em nosso símbolo, também há uma Pá. Isso pode soar assustador para aqueles inclinados às superstições. Mas eu lhe pergunto, caro leitor: o que é uma Pá, senão um símbolo arquetípico mal compreendido?
A Pá, em si, não tem valor algum. O valor está no uso que o irmão em Pá faz dela.
Veja: é a Pá que nos conecta fisicamente — como no dia em que a coloquei no carro e dei carona para Lady Killer e o Alquimista para resolver algumas… pendências.
A pá também nos conecta metaforicamente, como quando enterramos e desenterramos os cadáveres das nossas próprias imoralidades ou simplesmente os desenterramos e guardamos no armário.
A Pá interior
Mais do que se ocupar de terceiros — embora isso seja, admito, bastante divertido —, a Fraternidade da Pá intimida, digo, convida o leitor à reflexão.
Quem lê os textos dos membros da Fraternidade perceberá elementos de sarcasmo, humor negro e delicadas tramas fatais ou, ao menos, sinuosas. Isso, para alguns, evocam terror e, ocasionalmente, demandas psiquiátricas.
O fato é que embora gostemos de produzir cadáveres literários, isso nem sempre acontece, porque nós, irmãos em Pá, jamais admitiremos medo de fantasma ou coisas do gênero. Isso comprometeria nossa honra. E produzir cadáveres nem sempre é o objetivo.
O princípio norteador da Fraternidade é que a essência da natureza humana se expresse em todo o seu esplendor. Sob a regência de Saturno e Plutão, nossa Pá cavouca e nosso Urubu expõe os meus, os seus, os nossos aspectos inconfessáveis, hipocrisias existenciais, contradições e quantas mortes já provocamos, mesmo que o cadáver não seja reconhecido.
Assim, querido leitor, temer a fraternidade é um ato de ignorância, pois ela nada mais é do que uma força que traz à tona aquilo que lutamos para manter enterrado. Claro que ela deixa exposto por uns dias e nos ajuda a enterrar novamente depois.
Ameaça, digo, convite
Dito isso, nós, membros pasísticos, estamos amadurecendo a ideia de lançar, em breve, um workshop neste espaço: O CARRO E A PÁ.
Por ora, podemos apenas informar que, nesse encontro, serão revelados — em detalhes — códigos que humanos comuns consideram ocultos, mas que, na verdade, estão amplamente expostos, aguardando apenas alguém disposto a lê-los.
Outro detalhe: o workshop acontecerá de portas fechadas. Se você sairá de lá — vivo ou não — será de sua inteira responsabilidade.
Sintam-se ameaçados. Digo, convidados.
Por fim, recomendo fortemente que você comente este texto e vote nos convites do workshop ao final dele. Senão...
Com amor,
Countess Velvet
Sócia fundadora
Irmã em Pá
Motorista do carro
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Modelo de Convite 01
Modelo de Convite 2
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Manifesto verificado, aprovado e recomendado pela






Comentários
Novos membros surgem a todo momento por medo ou maldade.
Nem gosto de pensar aonde isso vai dar.
Repito a pergunta, essa certificação macabra vai nos perseguir até quando?