ESVANGELHO SEGUNDO JÃO >>> NÁDIA COLDEBELLA


Jão podia ser estepe, mas era gente boa. Ele escapulira pro sofá, fugindo da mulher que não parava de esbravejar. Agora ali, deitado, olhão grudado no teto escangalhado, viu que a vida não era justa.

Primeiro, o escarcéu da mulher por coisa nenhuma. Pelo menos ele achava que era coisa nenhuma, mas ficou se remoendo, escarafunchando os cantos mais recônditos da cuca pra não esbarrar em erro algum. Nenhuma ideia da causa.

De madrugada até deu uma piscada, até se forçou para dar um esticão, mas nada. O resultado é que acordou esbodegado. 

Lentamente, se sentou, sentiu a esbandalha do próprio corpo. Pensou em tomar um banho, mas estava cansado demais. Então só se molhou, um banho de "tchac".

O estômago roncou e ele foi direto pro café da manhã. Varrido de fome, encheu o prato. A estrovenga do outro lado da mesa, que ontem o chamou de amorzinho, agora só sabia escoicear:

 — Tá esganado assim por quê?

"Tô estrovando", ele pensou, todo sentido. Então reduziu o ritmo do garfo e espinicou a comida, mas a mulher soltou um berro esganiçado.

— Também, não precisa me esculhambar! — ele protestou, esmorecido, tentando preservar o restinho da dignidade, agora toda estropiada.

A mulher não respondeu. Calou a boca e baixou a cabeça, emburrada. Ele ficou ali, sentado, olhando pra ela, pensando onde tinha errado. Até que se deu conta de que estava atrasado. Saiu esbaforido e chegou na empresa com o joelho todo esgualepado.

E assim ficou ali. Esbodegado o dia todo, escabreado o dia todo, escanchado na cadeira. O patrão ficou feliz, porque Jão ia fazer hora extra, mas achou estranho porque ele não era disso. 

Pediu explicação.

 — Melhor chegar estrompado tarde da noite do que chegar cedo e acabar escalpelado – resmungou Jão, com um escalichinho de autopiedade.

O chefe riu por dentro. Pra ele, aquilo era esmola. Jão não tinha ideia do que era escavar a própria cova. 


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Essa cronica nasce da minha predileção por palavras com "es" (minha preferida é esgualepado). Pra quem não entende, segue a tradução.


ESMIUÇO

Estepe: pessoa feia, muito feia mesmo.
Escapulir: sair de fininho
Esbravejar: pessoa grossa e reclamenta.
Escangalhado: em mau estado de conservação.
Escarcéu: fazer um escândalo por motivo pequeno.
Escarafunchar: remexer minuciosamente em cantos escondidos.
Esbarrar: encontrar por acaso ou colidir levemente.
Esticão: dormir de forma profunda ou por um tempo prolongado.
Esbodegado: exausto, muito cansado ou estragado pelo uso.
Esbandalha: estado de desordem ou desleixo do corpo ou de um objeto.
Estrovenga: objeto estranho, ferramenta velha ou pessoa esquisita.
Escoicear: dar patadas verbais; responder com grosseria ou rispidez.
Esganado: pessoa com fome excessiva ou muita ganância.
Estrovar: atrapalhar, incomodar ou servir de estorvo.
Espinicar: beliscar a comida; comer em pedaços mínimos e sem vontade.
Esganiçado: grito agudo, estridente, que corta o ambiente.
Esculhambar: xingar, repreender duramente ou avacalhar.
Esmorecido: sem ânimo; abatido ou enfraquecido.
Estropiada: pessoa muito machucada, fatigada ou "em frangalhos".
Esbaforido: ofegante, apressado ou cansado pela correria.
Esgualepado: todo machucado, esfolado ou em petição de miséria.
Escabreado: desconfiado; quem está com o "pé atrás".
Escanchado: sentado ou montado com as pernas abertas.
Estrompado: extremamente fatigado; arrebentado pelo esforço.
Escalpelado: ser explorado financeiramente ou vencido de forma humilhante.
Esmola: algo dado com facilidade ou de pouco valor.
Escalichinho: um resto mínimo; uma sobra insignificante de algo.
Escavar: remexer a terra ou, no sentido figurado, aprofundar-se em algo penoso.


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