Triângulos >> Ionio Paschoalin

 


Oi, como vai você?

Eu estava te esperando aqui para termos uma conversa.

Permita-me contar as primeiras experiências que tive na infância, quando percebi que existiam dois mundos diferentes; um dentro e outro fora de mim. Eu era pequeno e tudo o que estava acima da linha dos meus olhos parecia imenso.

Eu percorria os lugares com meu corpo de criança. Pegava as coisas que achava e as colocava na boca para sentir o gosto. Quando finalmente ficava exausto me atirava no chão e minha cabeça sonhava com lugares que eu nunca tinha visitado.

Havia pessoas que me alimentavam e me controlavam. Ensinavam uma infinidade de regras de convivência, como falar de forma adequada, com que mão segurar objetos, de que forma os usar, como me comportar em determinadas situações, o que vestir, no que deveria acreditar, o que era mentira, o que era verdade etc. Logo percebi que eles próprios não tinham certeza sobre a veracidade dos seus ensinamentos, mas tinham que cumprir seus papéis de tutores. Nos chamávamos de família e o amor e o ódio nos mantinha juntos.

Disseram-me que não poderia viver só; todos nós temos que pertencer a grupos. Isso me pareceu razoável; assim como no futebol, não posso cobrar um escanteio e no mesmo instante, estar na área para receber a bola e chutá-la contra o gol. Não posso ter todos os subsídios que preciso para sobreviver sem o auxílio de um grupo onde cada um tem sua função na colaboração coletiva.

Um dia fui matriculado na escola e tive a chance de estudar as relações de poder que existiam entre as pessoas. O professor tinha a obrigação de nos avaliar e classificar que tipo de gente éramos. Mas quando a aula acabava, começavam os jogos e outras crianças tomavam o papel de liderança por serem mais fortes, engraçadas ou bonitas. Essas influenciavam a todos que lá estavam, redefinindo o lugar que cada um deveria ocupar. Eu tentei mesmo fazer parte de alguma coisa, mas logo entendi que éramos personagens sem um roteiro; nada daquilo deveria ser levado à sério.

Há três elementos: nós, os outros e um motivo que nos reúne. Relações são como triângulos e todos pertencemos a vários grupos.

Não demora muito, logo depois de sermos apresentados, sentimos as primeiras impressões sobre afeições, antipatias e indiferenças, tentamos nos aproximar das pessoas às quais nos identificamos e nos afastar dos outros. Todos estão fazendo o mesmo conosco, então talvez não consigamos a amizade daqueles que gostaríamos e procuremos outras turmas que nos possam acolher.

Quem não achar um lugar na reunião será ignorado ou atacado por um ou mais membros. Eles podem te devorar como um câncer que mastiga devagar. Depois de algum tempo de convivência, nossos papéis vão mudando, tudo transita, nada para. Somos o que somos por instantes, até sermos outros. Papéis são rasgados quando submetidos ao movimento de duas mãos em oposição.

E você?

Quando se apaixonou pela primeira vez?

Como lidou com a dor depois de perder o primeiro amor?

Suas dores são crônicas? Toma analgésicos para amenizá-las?

Não foi inédito quando o primeiro “eu te amo” escapou da sua boca. Essa frase foi, é e será repetida infinitamente em todas as línguas, eras e culturas.

Quando trapaceou, foi apanhado ou conseguiu sustentar a mentira? Por quanto tempo?

Vou te falar uma coisa, considero a verdade tão tirana quanto os ponteiros de um relógio.

Do que sente medo?

Como lida com o rancor?

Lembra quando te falaram aquilo na frente de todo mundo? Foi humilhante, né? Cinco minutos depois veio a resposta perfeita, mas já era tarde. Ficou recordando a situação e, na sua cabeça, respondia a provocação no momento preciso. Brigou com o ofensor todos os dias, repetia a frase triunfal e acrescentava mais retruques. Mas nunca disse isso a ele.

Como conseguiu continuar uma briga sem a presença do teu antípoda?

Tem muita gente vivendo na gente. Dentro de nós mora uma cidade. Dentro da cidade tem um parque com árvores seculares.

As moléculas que formam teu corpo fluíram do espaço, esvaídas de astros, estrelas e planetas.

Seus pensamentos já foram pensados antes de você estar aqui. Seus sonhos já foram sonhados, seus delírios, deleites e desesperos já viveram em outros corpos.

Já se sentiu como um barco à deriva?

Não se esqueça de que as águas do mar que te levam ao encontro de algum léu, foram transpiradas da tua própria carne.

Não vê? Somos a mesma pessoa. Todos nós somos eu e você.

Temos entre nós apenas uma tela. Foi bom nos encontrarmos aqui!

Comentários

Postagens mais visitadas