UM CAJUEIRO, DUAS MANGUEIRAS >> Sergio Geia
A tarde de domingo se despedia. O céu, em tons de lilás e dourado, anunciava o fim do dia. Uma brisa fresca acariciava a pele. Detive-me por um instante na calçada, eu estava na frente do meu prédio.
No canteiro da Juscelino Kubitschek, algo se movia de maneira curiosa. Observei. Era uma mulher e duas crianças. As meninas pareciam brincar de alguma coisa indefinida, com o sorriso fácil de quem ainda não conhece o peso do tempo. Nadavam felizes nos mares largos da infância; logo compreendi.
Há duas mangueiras no canteiro da Juscelino Kubitschek, bem no meio da avenida. As mangas surgem nas copas como pequenas luas amarelas, ouro maduro pendendo dos galhos. A colheita, então, vira brincadeira: elas escalavam a árvore, esticavam os braços, e a bolsa, pouco a pouco, ia se enchendo de sol. Às vezes paravam, desciam, sentavam-se no mato ralo e, sorridentes, alheias ao perigo dos carros que passavam, com os dentes amarelos de fiapos, abocanhavam a fruta.
Eu entrei em casa leve como uma folha vadia — a imagem das menininhas chupando mangas me fez bem. Diferente delas, não tinha uma sacola de frutos nas mãos, mas na mente, tinha uma crônica do velho Braga. Lembrei-me do imenso cajueiro do alto do morro lá de suas terras em Cachoeiro, da derradeira carta, de seus bons momentos de infância. Na narrativa braguiana, a triste notícia falava do tombo da árvore:
O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.
(...) No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente querido.
A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa.
Que Deus conceda vida longa às mangueiras de minha rua. Que as crianças levem consigo as lembranças de um fruto doce colhido com as próprias mãos. Que a memória se encha não apenas de frutos, mas de tarde, de riso e de uma alegria antiga tão boa que faz bem para quem vê. E as mangueiras, se um dia resolverem tombar, que saibam imitar um velho cajueiro: caiam de lado, serenas por terem cumprido a sua missão.
P.S.: 1. Esta crônica foi escrita no final do verão; 2. Ilustração: Pixabay



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