LUA >> JANDER MINESSO

 

Mais uma vez, fomos até a Lua e voltamos. Alguns fizeram pouco caso, outros acharam um triunfo da imparável potência estadunidense e ainda teve quem se contentou em receber notícias do espaço. Em meio ao festival de opiniões, uma epifania do piloto da missão Artemis II, Victor Glover, chamou atenção. Ao ser questionado sobre como era a vida dentro de uma espaçonave, ele disse mais ou menos isso:

– Todos nós somos passageiros de uma espaçonave chamada Terra, um belo oásis voando pelo vazio do espaço.

Se não pela poesia, essa frase toca a alma pelo puro terror que inspira. Segurança é uma ilusão. Não estamos nada seguros trabalhando em nossos empregos, andando em nossos carros e dormindo em nossas camas dentro de nossos apartamentos. Somos apenas passageiros de uma bolinha azul viajando pelo Universo, bolinha essa que teve a sorte de girar em volta de uma bolona de fogo na distância exata para aquecer sem incinerar; que teve também a sorte de ter uma bola muito maior que ela, chamada Júpiter, girando em uma órbita mais externa e atraindo para si toda sorte de objetos que poderiam pôr fim aos nossos carros, camas e apartamentos; e teve ainda a sorte de guardar muito metal derretido no seu núcleo, o que formou um escudo que até hoje impede o Sol de levar o ar que a gente respira embora. Três exemplos de muitas coisas que aconteceram exatamente da maneira que teriam que acontecer para sustentar a Vida com “v” maiúsculo tal qual a conhecemos. Equilíbrio delicado é eufemismo.

Por sorte ou azar, o cotidiano nos faz esquecer do pavor. Você, eu, seu vizinho, o Netanyahu, a Janja, todos nos apegamos às ilusões diárias e esquecemos o óbvio. Aliás, esquecer é um bom jeito de não ficar maluco com a própria irrelevância, mas somos todos uma poeirinha ínfima num planetinha de nada girando em volta de uma estrela bem mixuruca lá na borda de uma galáxia, tudo isso em um Universo que tem mais de dois trilhões delas. Nosso cerebrozinho nem consegue conceber o que é um trilhão de alguma coisa. E mesmo assim, existem cérebros [sic] dentro da cabeça de pessoas [sic] que vivem em um planeta que gira em volta de uma estrela que flutua junto de uma dessas galáxias achando que são grande coisa. Nada disso é novidade, mas parece importante reviver esse horror primordial de vez em quando para nos colocarmos no devido lugar.

Dizem que os poucos seres humanos que têm a chance de observar o planeta à distância sofrem uma grande ruptura cognitiva, uma mudança sem volta: depois de verem nossa nave mãe de longe, conceitos como fronteiras, eu e o outro começam a ficar meio idiotas. Nos faz até pensar nesses delírios muskianos de levar cada vez mais gente para fora da Terra. Não é uma má ideia. Se pudéssemos olhar a bolinha azul de longe, talvez percebêssemos que somos todos uma merdinha de poeira cósmica. Enquanto não acontece, seguimos nos estapeando por relevância. Inclusive eu.

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Comentários

Anônimo disse…
👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Inclusive nós (principalmente) todos.
Fabrícia disse…
👏🏼👏🏼
Karla disse…
Me deu uma paz lendo seu texto de hoje. 👏🏼
Albir disse…
Que beleza, Jander!
Todos precisávamos olhar de fora essa nave para compreender a insignificância da poeira que somos.

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