Sobre ver um coração no céu num dia qualquer - Sergio Geia

 


Era um parque. Estendi a toalha sobre o gramado. Tirei da mochila uma garrafa térmica pequena com café, um pote com um pedaço de bolo de milho, e um livro de crônicas da Marina Colasanti. 
 
Alguns sons me chegavam suaves aos ouvidos. Passarinhos cantando, crianças brincando, correndo, chutando bola, de vez em quando uma voz de adulto, e até música, parecia Bethânia, mas não tive certeza. 
 
Se não chovesse, pretendia passar algumas horas no parque, eram muitas nuvens carregadas. Foi então que olhando com mais atenção para o céu, reparei. Ele estava ali, humilde, quase imperceptível: um coração; um coração azul. Após alguns instantes com os olhos nele, deitei-me sobre a toalha. 
 
Coração blue é uma narrativa ficcional que escrevi em julho de 2019. O conto está presente no livro folha vadia, com publicação no mesmo ano. Narrado em primeira pessoa, ele fala de um personagem que dormiu na praia. Ao amanhecer, o céu mostrou-se carregado, certamente choveria, mas, para seu espanto, havia uma pequena abertura azul entre o cinza-chumbo, e, pasmem, a abertura tinha o formato de um coração. Meu personagem recebeu o coração azul como um bom presságio, um indicativo de esperança; ele bradou: 
 
Viva a poesia! Viva Branco! Viva Carla Dias! Viva Cristiana Moura! Viva Kleber Albuquerque! Viva Cecília, Bandeira, Drummond! Viva o Oficina! — aos gritos de viva a poesia e seus poetas, levantou a garrafa de conhaque que tinha nas mãos para um brinde solitário. 
 
E não é que a vida imita mesmo a arte? Muito tempo depois da escrita daquele conto cem por cento ficcional, deitado na grama de um parque, o mesmo coração, e, como na narrativa, com tantos significados. 
 
A vida tece sua trama com habilidade singular, de modo que após um cochilo acariciado pela brisa da manhã, e goles lentos de café (não de conhaque), tropecei em Há sempre uma rosa branca, crônica da página 151, do livro que tinha nas mãos. 
 
Nela, Marina Colasanti conta uma passagem da infância do diretor de cinema Bernardo Bertolucci. Seu pai, poeta, declamou para o menino Bernardo um poema que tinha escrito para a sua mulher, comparando-a a uma rosa branca que tinham no jardim do quintal de sua casa. 
 
Depois, a própria Marina arrematou: 
 
As pétalas delicadas, o perfume, a doçura da mãe, tudo se fundiu para ele numa revelação determinante para a sua vida: a de que a poesia está em toda a parte desde que a busquemos, e que só através dela podemos entender o indizível. 
 
Refletindo sobre as palavras de Marina, completei em pensamento: 
 
Até num coração azul perdido num céu escuro, ainda que por alguns instantes; ainda que, mais tarde, se desfaleça como esculturas de gelo e passe a existir apenas na imaginação de quem soube um dia sentir-lhe a presença viva. 
 
 
P.S.: 1. Folha Vadia, Sergio Geia, Editora Matarazzo, 2019; Coração Blue, página 67; 2. Coleção Melhores Crônicas, Marina Colasanti, seleção e prefácio de Marisa Lajolo, Global Editora. Há sempre uma rosa branca, página 151. 3. Ilustração: ChatGPT.

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