INFANTES >> ALLYNE FIORENTINO

 



A senhorinha tinha um vocabulário articulado, algo inesperado em uma fila de restaurante. Daqui onde estou até o buffet pude me atualizar sobre as últimas notícias mundiais. E ela prosseguiu:  

 — O Nobel da paz, imagine você, menina! Primeiro eles fazem as guerras, vendem armas, matam muita gente e quando decidem cessar fogo ainda querem ganhar um prêmio! E ele ainda ligou para o ministro norueguês para pressioná-lo a lhe dar o Nobel! Uma atitude digna de um infante!

 Eu aceno com a cabeça positivamente e lhe digo rindo:

 — Realmente estamos cansados de infantes liderando suas infantarias! Ela ri e seguimos para o buffet.

Sirvo-me rapidamente e volto à mesa onde minha amiga estava me aguardando. Era uma praça de alimentação de shopping, em um horário bem movimentado e, por isso, havia um ruído persistente de conversas no ambiente. Vou me aproximando com a ideia de comentar também sobre a questão do prêmio Nobel da paz, mas mal chego à mesa ela começa a falar exaltada:

 — Isso não vai ficar assim! Vou imediatamente pegar o meu celular e gravar um vídeo.  Vou postar na internet e tenho certeza que milhares de pessoas me darão razão! Isso é completamente desnecessário!

 — O que aconteceu, amiga?

 — Eu acabei de sofrer racismo!

 — Mas como assim? Eu me ausentei apenas alguns minutos. Como isso pode ter acontecido aqui, no meio da praça de alimentação do shopping?

 — Ah! Você sabe que todo lugar é lugar para sermos insultadas. Em pleno século XXI as pessoas continuam a propagar seu ódio aos fenótipos e todos os tipos de colorismos negros, deslegitimando nossa cultura, nossa história...

 — Nossa eu sinto muito, amiga.  Nem sei o que dizer. Mas me fale o que aconteceu e vamos tomar alguma providência.

 Sem obter resposta, segui ainda atordoada, como quando você é acordado de um sono profundo e não consegue ligar os neurônios à base de dados. Tentava entender o ocorrido em meio a tantos esbravejos e informações cruzadas que não esclareciam muita coisa, enquanto ela continuava falando e retirava de uma bolsa grande uma tralha toda, um suporte para celular, ligava uma luz de led, posicionava tudo em cima da mesa, parecia procurar um ângulo bom em que o fundo ficasse harmonioso. Eu nem sabia que poderia caber tanta coisa ali dentro daquela bolsa, também não sabia que ela andava assim, “armada” de aparatos para informes de última hora.

 — Eu preciso gravar isso agora! Ninguém me impedirá de gritar aos quatro ventos como a sociedade trata a mulher negra. E eu, como uma mulher madura, conhecedora dos meus direitos, preciso falar pelas outras, aquelas que não tem voz. Vou denunciar o racismo, o colorismo, o fenotipismo, precisamos da decolonização da cultura. Quem sabe eu até processe esse shopping. Deveria chamar a polícia, mas eles pouco farão por mim, você sabe.

 Eu continuava sem entender, mas com aquele miniestúdio montado em cima da mesa, começávamos a chamar a atenção daqueles que passavam por ali. Deveriam estar pensando que éramos influencers e que iríamos gravar um vídeo provando a comida, que, aliás, estava esfriando. Discretamente olhei para os lados, meio incomodada de estar chamando tanta atenção, sou uma pessoa discreta e na maioria do tempo gosto de passar despercebida, mas hoje em dia se você tem amigo influencer precisa ser “inimigo da vergonha”, como dizem. Todo lugar é propício para um vídeo, a qualquer momento... Tenho até medo de sair um pouco desarrumada e acabar aparecendo em algum vídeo sem querer. Todo cuidado é pouco, pois toda banalidade é passível de vírus... viralizar, no caso.

 — Calma, amiga. Respira um pouco, beba essa água aqui. Melhorou?  tentei acalmá-la enquanto segurava sua mão e pensava que dali partiríamos para a delegacia para registrar essa ocorrência.

 — Sim, estou melhor. Obrigada!

 Ela me deu um sinal, indicando que ia começar a gravar o vídeo. Apertou o play e começou a falar e eu fiz silêncio para não atrapalhá-la no seu “púlpito”, também eu não poderia fazer mais nada, fui tomada de assalto tanto quanto qualquer um.

 “Eu não gostaria de vir até vocês apenas para falar coisas tristes, mas é preciso! Até porque vocês sabem que eu sou uma mulher negra e que estamos do lado mais fraco da corda. Eu estava aqui no shopping com a minha amiga e aconteceu uma coisa muito desagradável, eu sofri racismo em pleno shopping e já marquem aí o arroba do shopping quem puder, vamos forçá-los a dar uma resposta sobre suas políticas!”

 Ainda ignorante do fato, mas com fome, degustava a minha comida e assistia atenta à minha amiga atrás daquela luz de led redonda para saber o que tinha acontecido, porque, afinal, ela mesma não me contou.

 “Eu estava aqui sentada e uma criança, de mais ou menos uns quatro anos, estava brincando e correndo pelas mesas. Uma criança branca, com pai branco. Claro! Eis que de repente ele esbarra na minha mesa e cai, desajeitado como um boneco. Ao se levantar, ele olha na minha cara e diz: ‘Você é feia!’ E sai correndo e rindo. Eu estou em choque até agora!”

 Nesse momento, eu paro de mastigar e deixo cair meus talheres no prato, vencida. Também eu estava em completo choque diante dessa cena, sem acreditar que eu estava presenciando da minha amiga esse relato. Olhei em volta, procurando a tal criança, o pequeno “meliante das palavras”. Um pouco mais à frente, avistei uma criança espoleta com seu pai. Certamente deveria ser aquela. Ele girava e rodopiava em volta do pai, que tentava manter a calma e a ordem. De repente ele pega o celular do bolso da bermuda do pai. O pai o repreende com voz firme e em contrapartida a criança senta no chão e faz birra. O pai calmamente pega o celular da mão do garoto, guarda e diz: “você vai ficar sem sobremesa!”

 Olho novamente para minha amiga e ela continua narrando sua grande história, mas eu também já estou sem paciência e tomo uma atitude:

— Já chega, mocinha! Guarde essa tralha toda e esse celular!  ela me olha assustada, tenta balbuciar algumas palavras, mas eu a interrompo: — Isso mesmo! Guarda essa tralha toda e vai comer sua comida, senão você vai ficar sem sobremesa!            

 — Você tá louca, amiga? Por que está me tratando como criança?

Então eu calmamente levanto meu olhar, aproximo meu rosto do dela, arqueando meu corpo sobre a mesa, olho bem dentro dos olhos dela e digo:

— Vai ou não vai querer a sobremesa?

— Tá bom...  desligou o celular e começou a guardar as coisas com cara emburrada.

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 Imagem: Freepik.


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