NEVE NEGRA: PARTE 3 >>> Nádia Coldebella

A sombra da Rainha Morta 

 

Em seu estarrecimento, o Rei não percebeu o horror no rosto da feiticeira e nem deu-se conta de que Madorno havia fixado seus olhos no espelho, pendurado logo acima da cama, e pronunciado as três palavras que devem ter sido as últimas a tocarem os lábios da rainha: escuridão, sangue e frio. 

 

O rei parou de se mover. As palavras do anão ecoaram em seu peito oco. Tentou fazer um grito desesperado subir pela garganta, mas na verdade não queria gritar. Parecia flutuar em uma banheira de água morna, desprendido de qualquer contato com o solo. 

- Morrer é assim? - estranhou-se. Não sentia nada. 

Sua visão agora estava embaçada e uma névoa cinza fechou-se ao seu redor, delineando parcamente uma paisagem monocromática. Uma silhueta começou a tomar forma. Logo ele viu a si próprio e os acontecimentos das últimas semanas desenrolaram-se a sua frente. Não sabemos se ela sobreviverá, disseram os médicos. E ele saíra em busca de Angèlle, coração descompassado no peito. 

 - Angèlle... - quando a encontrara, ele a feiticeira nos braços, mergulhando o rosto em seus seios, as mãos em suas fendas e seus pensamentos em todas as curvas daquela estranha e sedutora mulher. Ela não lhe resistia. O rei era como vinho para ela que, ébria, sentia a vida pulsar. Os amantes se desfizeram como vapor no ar e ele confrontou a si mesmo, sem poder negar o que fizera. Viu então sua própria imagem, olhos mergulhados em dor, braços levantados, punhal empunhado para abrir o peito e arrancar um coração empedernido. Porém, antes que o golpe fosse desferido, outra silhueta surge na névoa densa e segura-lhe o braço.

 

Arte: A rainha morta. Aquarela e Nanquim - by Nádia Coldebella

 

- Elora! - O rosto da rainha surge nítido diante do seu e, repentinamente, a visão desaparece. Uma onda de eletricidade percorre seu corpo e ele é atirado ao chão, aos pés da cama da defunta. O bebê está lá, ainda sugando o seio da morta, esposa amada e seca, tal qual a erva do campo que feneceu na longa estiagem. 

Angèlle prescrutou intensamente o rei e ele teve a impressão de que ela também estivera na névoa. Ele abaixou a cabeça, contraiu os olhos e sentiu o tórax apertar-se. Uma dor lancinante socava seu estômago. Ele arqueou-se e o vômito saiu, tomando o lugar do grito contido na garganta. 

A feiticeira ignorou a fraqueza do rei e andou lentamente até a cama da rainha. Retirou a criança de seu seio e, com uma certa cerimônia, a depositou nos braços do pai. Primeiro ele se recusou, mas todo pai quer um filho que seja mais perfeito do que si mesmo e, diante dele, estava a mais bela criança da qual já se houve notícias. 

 O bebê abriu os olhinhos e seus eles eram como esmeraldas em brasa que aqueceram o coração do homem. O coração bateu no peito. Emocionado, o rei abraçou a menininha e ela aninhou-se. Por alguns segundos, ele encontrou o sentido de sua existência.

Angèlle, porém, agitou-se. Ao olhar para o espelho, pode ver a sombra da rainha morta, olhos frios e desapaixonados, olhando o corpo esquálido na cama. 

 

Continua... 

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Comentários

Wow, essa história está cada vez mais misteriosa... e tenebrosa! Aguardo a sequência ansiosamente.
Paulo Barguil disse…
O que nasce e o que morre durante cada paixão...
Albir disse…
"Escuridão, sangue e frio", acordei repetindo e molhado de suor. Precisei de outro comprimido pra voltar a dormir meu sono atormentado. Vou ficar aqui em vigília até o próximo episódio.

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