sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OUTONO >> Paulo Meireles Barguil


Uma beleza diferente.

Desconcertante.

Anúncio do fim.

E do novo começo.

Lembranças do que foi.

Esperanças do que virá.

Crianças do que é.


[Parque em Washington D.C., próximo ao Lincoln Memorial]
 
[Foto de minha autoria. Outubro/1998]


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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

SAUDADE, EDUCAÇÃO FÍSICA >> Mariana Scherma

Eu nunca fui fã de fazer educação física no colégio. Fora da escola, fazia natação, mas lá dentro eu sofria. Existiam as meninas fortonas e atléticas, que jogavam vôlei como o time da seleção. Mas também existíamos minhas amigas e eu, magrelas e que passaram a vida sem conseguir dar uma manchete, seja porque não acertávamos a bola, porque doía quando ela batia no braço ou porque fugíamos da bola no meio do jogo sem pudor de um provável bullying. A gente era sensacional!

Passava a semana pensando na desculpa para o professor: cólica (no colegial, eu menstruava quase toda semana, um caso a ser estudado, não?), dor de barriga, dor de cabeça, mal-estar, o sol está forte... Quando as desculpas ficavam manjadas demais, rezava pra chover, já que a quadra era aberta. Impressionante como São Pedro é fã de esportes ou de dar risada do meu sofrimento adolescente – não chovia jamais!

Todo aquele drama de ser escolhida por último por conta do meu dom esportivo era fichinha pra mim. Meu problema era quando o jogo começava (basquete ou vôlei normalmente). Eu era desastrada, não segurava a bola, errava a mira, eita, que desastre. Meu professor de educação física passava outras atividades (que eu até curtia), mas eram exatamente esses benditos jogos que marcaram minha memória. O meu fracasso em esportes coletivos me fez ser imbatível na corrida, na natação e na quantidade de abdominais que eu dava conta de fazer.

Hoje, quando conto minhas histórias da aula de educação física, dou risada e guardo todas elas com carinho aqui comigo. O recreio era mais gostoso depois de suar na quadra. O lanche ficava mais saboroso. A conversa com minhas amigas também não atletas fervia falando mal da falta de paciência das meninas atletas. Apesar das desculpas e da bola batendo no braço com força, a gente era feliz na educação física. A gente aprendeu que esporte é importante. Esporte não é só assistir ao futebol na televisão.


Todo mundo viu nas Olimpíadas/Paralimpíadas como é lindo se superar. Muita gente sentiu vontade de sair do sofá e suar a camisa, mas, para nosso atual governo, esporte é descartável. Uma pena que vamos liberar menos endorfinas, desaprender a trabalhar em equipe e que competir faz a gente ser melhor como um todo. Uma pena bem grande.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

AOS GRITOS >> Carla Dias >>

Comecei esta crônica escrevendo sobre como me sinto em relação ao mundo. Então, perguntei-me a quem isso interessaria? Problema meu se acho que a maioria de nós está possuída pela ideia de que quem grita mais alto é quem ganha. E que, depois de me lembrar disso, só consigo questionar: ganha o quê?

Essa pergunta vem me assombrando.

Então, tentei escrever um conto romântico, para ver se lançava boas vibrações para os apaixonados e o na fila do apaixonamento. Mas daí que a história embarcou no suspense, embrenhou-se na ginástica intelectual necessária para se comunicar com intelectuais que não se conformam com a mania de alguns (incluo-me nessa) de perguntar o motivo disso e daquilo, como se fossem crianças aprendendo significados.

Por quê?
Por quê?
Por quê?

Eles não gostam que interrompam seu momento de escutar a si falar sobre a vida do outro a partir do próprio ponto de vista, independente se o outro, que audácia, seja outro e pense diferente.

Tentei, então, um texto mais amistoso e que, ao mesmo tempo, oferecesse algo positivo. Daí que me empolguei escrevendo sobre aquele filme que eu adorei. Cinco minutos resenhando a respeito, dei-me conta de que aquele filme é danado de bom, mas também me faz lembrar de que a maioria de nós é péssimo ouvinte.

Moro em um prédio, em cima de um bar. Às vezes, fica impossível não escutar a conversa dos clientes de lá. Depois de determinada hora – e muitas doses de bebida preferida –, eles começam a esgoelar. É uma briga para um falar mais alto que o outro. As conversas que já escutei vão das mais engraçadas às mais cabeludas. Nunca olho pela janela para ver que cara tem a história. Mas a verdade é que, quando os envolvidos na conversa gritam uns com os outros, buscando aquele prêmio que ainda não sei qual é, quem realmente escuta é quem tem nada a ver com a história, ou seja, para quem o entendimento se torna apenas uma torcida, porque é melhor estar em paz do que em uma luta sem fim pelo tal prêmio misterioso.

Eu comecei esta crônica tentando contar uma história, mas hoje não vai dar. Minha cabeça está barulhenta e meu coração apertado. É gente gritando na rua, no supermercado, na escola, dentro de casa. Gritando porque está insatisfeito, sentindo-se pressionado, lesado, porque deseja mais do que já tem, porque acredita que merece mais do que o outro tem. É gente gritando por questões legítimas e há quem grite por medo de ter de lidar com a diferença. Há quem grite porque o grito, quando muito bem desferido, é ótima fonte de intimidação. A ironia é que ninguém escuta o outro ou a si mesmo.

Como disse o escritor: muito barulho por nada.

Penso como seria se as pessoas parassem de gritar umas com as outras. Não me refiro a pararmos de lutar pelo o que acreditamos e pelo justo, mas falarmos e escutarmos; contestarmos sem ofender, verbalizarmos sem medo de sermos interpretados às avessas. Atuarmos como ouvintes e enunciadores. Assim, provavelmente conseguiríamos algo que anda em falta. Compreenderíamos que, diferente do que pensamos, por nos tratarmos somente aos berros, há muito no qual concordamos. Há muito que poderíamos melhorar apenas parando de tentar impor nossas versões dos fatos e, juntos, procurarmos resoluções.

Não é tristemente irônico? Quando podemos dizer o que nos fere, somos calados pela necessidade de gritar mais alto, porque quem grita mais alto cala aos outros. Infelizmente, quem grita mais alto, provavelmente vai acabar em uma bela sala vazia.

carladias.com

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terça-feira, 27 de setembro de 2016

QUEM É BOM? >> Clara Braga

Em uma sala de reuniões, fechada a sete chaves, os chefes discutem sobre o rendimento dos funcionários. No geral, estão indo todos muito bem, o trabalho está sendo entregue dentro do prazo e a relação entre os funcionários é muito saudável. E quem se destaca? Ah, com certeza quem se destaca é o fulaninho que sempre chega na hora e ainda fica sempre além do seu tempo, é impressionante o quanto ele é esforçado, sempre o último a sair!

Em um outro local de trabalho, aquele cara leva uma bronca, afinal, como ele não consegue seguir o exemplo do seu outro colega? Ele vira noites e noites trabalhando, podemos sempre contar com ele, se ligarmos de madrugada ele vai nos atender e ajudar a resolver o problema.

Na escola o pai exalta o filho para seus professores: ele tirou essas notas pois é muito esforçado, eu mesmo estudei com ele, falei que não admitia menos de 9,0, não deixei nem ele ir para o aniversário da colega que era para estudar e ser o melhor da turma.

Aquelas outras duas tinham acabado de se conhecer, enquanto conversavam sobre seus empregos, uma delas chegou à seguinte conclusão: o trabalho da outra não é mal remunerado nem desvalorizado, ela ganha o que merece por um trabalho que não precisa de plantão. Já pensou se ela precisasse ficar 24h acordada? Ela não sabe o que é esse desgaste, só vai lá, cumpre o horário e volta pra casa.

Na sala de aula o aluno desabafa com a professora: meus pais não querem que eu seja músico, viver de tocar na noite não é vida, voltar tarde da casa de show e acordar tarde é coisa de quem não tem mais o que fazer.

Até quando o mais valorizado vai ser aquele que faz sempre além do que deveria? 

Se eu fosse chefe por um dia, só contrataria aquelas pessoas que sempre guardam um tempo do dia para fazerem o que elas gostam, independente de gostarem ou não do trabalho, todos merecem um tempo para se dedicarem para si. 


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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

NOSTALGIA DA INTELIGÊNCIA >> André Ferrer

Ao lado do cinema, inaugurou-se uma locadora de filmes. Havia Betamax e VHS, o que originou duas seitas fundamentalistas. Corria, então, a década de 1980.

“E.T., O Extraterrestre” (1982), “Os Goonies” (1985) e “A hora do espanto” (1985), entre outros, ainda chegaram a tempo de serem reverenciados na tela grande. O Cine Terracota periclitava. Seus funcionários, todos idosos, pareciam carregar a decrepitude das paredes, cortinas e assoalhos no próprio rosto. Meguinha, o cartazista, já era um doente hepático naquela época, mas ainda reproduzia imagens incríveis em tamanho grande. Seus cartazes e letreiros ainda faziam com que os transeuntes parassem naquela altura da avenida.


Nas imagens imensas, pintadas a mão, que indicavam as atrações atuais e vindouras, as pessoas sempre reconheciam o rosto de alguma personalidade local. Políticos, autoridades e populares apareciam como vilões ou mocinhos, evidentemente, segundo o gosto e a decisão do artista. Meguinha, no entanto, fazia charme. Nunca deixava claro. Sua crônica social ficava mais forte com aqueles ares misteriosos. 


Na Semana Santa, o rosto de algum desafeto de Meguinha surgia, em plena fachada do cinema, transplantado no corpo de Judas. Uma vez, o povo achou semelhança entre um faraó tirano e Manuel Capistrano Bezerra, oficial de justiça. Meguinha negou e com uma veemência jamais vista. Graças ao pintor, os cartazes de "Ben-Hur" (1959), "O Manto Sagrado" (1953) e "O Redentor" (1958), que faziam parte do acervo do Cine Terracota, bem como "O pássaro azul" (1940), "Quo Vadis" (1951), etc., ganhavam, a cada ano, versões atualizadas. 


O velho cinema resistiu até a década de 1990 quando surgiu o DVD e mesmo a vídeo-locadora já perdia a clientela. Transformado em igreja, o Cine Terracota sofreu mutilações arquitetônicas. Um dos últimos representantes do estilo “art déco” na região, infelizmente, perdeu-se embaixo de marretadas. De um dia para outro, os frisos da marquise que contrastavam com as colunas em “V”, arredondadas e revestidas de pastilhas, deram lugar a uma fachada de vidro temperado, alumínio e tinta branca.


Agora, na Semana Santa, sem os frisos e sem o mítico sarcasmo de Meguinha, tudo ficou muito triste. Uma faixa propagandeia um missionário vindo de longe, exímio curador, palestrante ungido pelo verdadeiro Deus, um santo homem. Na entrada, logo abaixo dos dizeres, a imagem do milagreiro, seu sorriso boçal, pretensioso e canastrão. Aos espíritos mais perspicazes, ele transmite uma imensa nostalgia da inteligência. 

Fotograma de E.T. - O Extraterrestre (1982)




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sábado, 24 de setembro de 2016

COLEÇÃO >> Sergio Geia

 

Eu terminava de comer um pedaço de bolo quando apareceram; arrumaram tudo muito rapidamente, e, vencido o alvoroço da chegada, lá estavam eles prontos para gravar. Era uma matéria jornalística para um canal de televisão; o assunto, um tema fundamental para o progresso da humanidade: moedas. Queriam entrevistar a mocinha da padaria, experiente profissional no manejo de moedas. A jornalista, que reconheci dos jornais da hora do almoço, dizia que as moedas tinham sumido do mercado; onde estariam as nossas moedas?, ela perguntava.
Pois respondo à senhora jornalista que não sei, não tenho essa informação. Talvez estejam em porquinhas escondidas em cristaleiras, como naquele filme do Suassuna; guardam-se moedas por longo tempo, e, quando resolvem fazer uso da fortuna, elas valem menos que um vintém; ou estejam em sacolas de supermercado que, depois de cheias, serão trocadas no comércio; ou talvez andem fabricando moedas de menos; não sei. O que sei é que infelizmente não tenho moedas aqui; mas, se as tivesse, talvez andasse a procurar moedas raras, aquelas que valem mais do que afirmam, e vendesse a um colecionador.
Disseram-me na rua outro dia que pagam fortunas por moedas “raras”. Sem acreditar em tamanho desvario, caçoei de meu interlocutor: “Ora bolas, mas quem, quem seria o espertalhão que pagaria cinco mil por uma moeda de um? Ou quem se atreveria a colocar a mão no bolso e pagar três mil por uma moedinha de trinta centavos?” “Colecionador, caro Geia; isso é coisa de colecionador”.
De fato, o amigo tinha razão; andam pagando por aí mais do que valem essas frias moedinhas. No entanto, nada que se compare a certas notas; descobri que por uma de cinquenta reais, por exemplo, assinada pelo senhor Pérsio Arida, andam pagando alguns doidos a bagatela de três mil reais; notas de cinco ou dez reais, as chamadas notas de reposição, chegam a valer dois mil reais; mas nada que se compare aos quatro mil reais que se pagam por uma simples notinha de cinquenta que tenha se esquecido de Deus; isso porque, segundo dizem, em 1994, um lote de notas saiu sem a famosa expressão “Deus seja louvado”. O fato é que são consideradas raras, e se o senhor tiver aí um exemplar, poderá se dar bem.
Esses colecionadores são bem doidos; fazem coleções das coisas mais esdrúxulas que se pode conceber em troca de um sentimento que nessa vida ainda não conheci; que sentimento é esse capaz de fazer um homem em seu mais perfeito juízo mental trocar a infame quantia de quatro mil reais por uma ordinária notinha de cinquenta?
Meu sistema límbico ainda não me proporcionou conhecer tamanho sentimento, que deve ser uma maravilha; uma pena. Não seria uma passageira alegria, uma afeição desenvolvida por coisas estranhas, ou um encantamento proporcionado por papéis, uma sinergia inexplicável, ou ainda uma dolorosa angústia metafísica ou uma volúpia estética. Acredito que deva ser algo muito maior que tudo isso, exponencial, que transcende qualquer comezinho sentimento que nessa pobre vida experimentamos.
Já vi coleções de selos, de quadrinhos, de revistas, de vinis e até de santinhos de missa de sétimo dia. Dizem que no mundo há colecionadores de fiapos de umbigo, sereias (adoraria conhecer; não a coleção inteira, mas apenas uma já estaria bom), vestidos, molhos picantes, barras de sabonete, saquinhos de condimentos e até bonecas infláveis.
Não tenho aqui nenhum desses objetos ou coisa parecida. Tenho sim corujas que muito me alegram; e uma tartaruga. Se sou colecionador? Não, amigo; não sou, na acepção usual do termo, muito embora viva colecionando por aí algumas emoções, muitas saudades, e um pouco de alegria. 

Ilustração: www.flickr.com.br


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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

MINHA VIDA COM AMELINHA - 1a parte >> Zoraya Cesar

Tudo na vida tem explicação lógica. Até mesmo minha vida com Amelinha. 

Moro sozinho. Vivo sozinho. Não tenho peixes num aquário. Não bebo cerveja com os amigos. Não tenho amigos. As poucas pessoas que me conhecem me têm por conta de misógino e esquisitão.

Sempre fui assim. Até hoje não sei por que casei com Amelinha. Talvez porque sejamos tolos quando jovens. Talvez porque ela fosse bem de vida e eu estivesse precisando de dinheiro. Talvez, sei lá. Carma. Mas eu não acredito nessas coisas. Tudo na vida tem uma explicação lógica.

O fato é que casei, na esperança de ter uma vida tranquila, financeira e emocionalmente. Sou químico, preciso de sossego para fazer meus estudos e experimentos. Casando com Amelinha consegui estabilidade financeira para montar meu laboratório  em casa e dar continuidade ao meu doutorado. Só não consegui paz de espírito.

Amelinha era carente. Carente, exigente, ciumenta, explosiva. Alternava momentos de ternura enjoativa com cenas de ciúme mexicanas. Não era bipolar não, era manipuladora, das profissionais. Descobriu meus pontos fracos: meu amor ao dinheiro dela e meu horror a discussões e polêmicas. Sabendo que eu, pesquisador pobretão, jamais me separaria dela, e que faria qualquer coisa por um pouco de paz, ela jogava com maestria e me mantinha em cativeiro. A constante intromissão, os escândalos injustificáveis, o falatório interminável, as explosões, os ataques físicos – jogava objetos em mim, quebrava coisas em meu laboratório – me exasperavam ao desespero. Fui obrigado a demitir minha bem treinada assistente e a empregar um molecote abestado, filho da cunhada de uma prima distante. Tudo porque cismou com a coitada da D. Lea, uma senhora mais velha que minha mãe.

Apesar de encontrar tanto desprazer no ato sexual quanto eu, Amelinha tinha gosto em me fazer encarar essa tortura pelo menos uma vez por semana. E, para aumentar o desgosto, Amelinha fumava, bebia e comia desbragadamente. Estava se transformando num tribufu. Tinha diabete, sobrepeso e insuficiência cardíaca, mas não se cuidava. E ai de mim se não cumprisse a contento minhas obrigações conjugais. E ai de mim se ela fosse contrariada. E ai de mim se ela acordava de mau humor. E ai de mim se chovia quando ela queria que fizesse sol. E ai de mim se a vizinha me dava bom dia. E ai de mim se isso, e ai de mim se aquilo...

Você deve estar cogitando, que doentia essa relação! A mulher, uma louca destemperada. O marido, um interesseiro apalermado, ausente e inútil. Por que não se separaram?

Porque nos merecíamos. Eu era um sujeito de personalidade dútil e apaziguadora, perfeito para o caráter manipulador obsessivo de Amelinha. Ela, por sua vez, adorava se posar de vítima e se queixar às amigas o quanto sofria com minha indiferença e o quanto era compreensiva em relação ao meu trabalho. Espalhava ao mundo que seu marido era doutor em Química. Doutor, ela enchia a boca.

Sei que Amelinha poderia viver indefinidamente naquela situação, ela se alimentava de meu desespero e dependência. Sempre dizia que eu era seu par para a eternidade, que jamais me deixaria ir. E eu, precisando de paz para desenvolver minhas pesquisas, mas precisando também de um laboratório onde trabalhar e do dinheiro para me sustentar, eu, um covarde tímido e sem dinheiro, ia, lentamente, enlouquecendo, por não ver saída para aquela situação.

Até que, um dia, ela morreu. Assim, do nada. Morreu.
Dizem que cigarro mata.
Mata mesmo.
Eu que o diga.

Mas, para tudo tem uma explicação. E os médicos explicaram que, desleixada como era, realmente, Amelinha poderia morrer de uma hora para outra. Tudo muito natural. Talvez por isso, e por meu comportamento absolutamente discreto e enlutado após o enterro, ninguém suspeitou que eu pudesse ter algo a ver com a morte de minha mulher.

E eu tive tudo a ver com a morte de minha mulher.

2a e última parte no dia 7 de outubro.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

BRASIL NOVO X BRASIL VELHO>>Analu Faria

Parece estar havendo um embate entre um Brasil Novo e um Brasil Velho, ultimamente. O Velho, em crise de meia idade, invejava a juventude do outro. O Novo, adolescente, estava metendo os pés pelas mãos e tinha a audácia de achar que estava certo. Alguém deveria pará-lo. Mais: cortar-lhe os cabelos, à marra, arrancar-lhe os pôsteres da parede do quarto, revistar a mochila ao chegar em casa. Afinal, quando era jovem, o Brasil Velho não podia ter cabelos longos, não tinha dinheiro para comprar pôsteres e mochila era artigo de luxo. Na cabeça do Velho, cabia ao novo o "respeito" de não ostentar tudo isso.

É claro que o Brasil Velho podia usar essa fase para fazer coisas inofensivas de tiozão, como comprar um carrão, pintar os cabelos, fazer um mochilão pela Europa. Mas não: o Velho sente uma certa alegria em arrancar o sorriso do rosto do Novo. Como se assim ele, Velho, fosse parar o tempo. Como se não fosse envelhecer mais. Como se fosse para o ciclo da vida. Long live the king.

Já sabemos como essa história termina, ou, melhor, sabemos quais os possíveis finais para essa história. O que mais rápido me vem à cabeça é aquela em que o Velho vence por um tempo, torna-se de novo o senhor da casa, derrubando o Novo e pisando-lhe a cara, impedindo os movimentos adolescentes e desajeitados. O Velho, contudo, não se sustenta - afinal, o Velho é o que é: velho, menos tônus, mais lentidão. O Novo acaba recobrando o fôlego, mais rápido até do que o agressor esperava. E revida. E joga no chão o Velho.

Dentre todos os Brasis Velhos que poderíamos ter, escolhemos um Velho rancoroso, medíocre e recalcado. Escolhemos um Idoso que acredita na violência, no autoritarismo - a que chama de ordem - e que morre de medo de envelhecer. Um Idoso que não soube apreciar o passar dos dias, rir-se de si mesmo. Um Idoso que não aprendeu a ser sábio, um Idoso embotado, torto por dentro. É esse Brasil Velho o nosso tiozão em crise de meia-idade. E não se iluda: esse Brasil Velho é formado por muitas carinhas novas.

E eu quero viver para vê-lo cair.




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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

PROTAGONISTA >> Carla Dias >>


Só que tem o espírito rebelde, de rebeldia melindrosa e bem relacionada, daquela leva de espíritos que não levam desaforo pra casa. Seu espírito precisa gritar alto pelos seus desejos e murmurar quando necessário entregar suas fraquezas.

Tal espírito, vergado ao destempero da rebeldia, tem experimentado da polirritmia que cabe aos corações partidos aprenderem a suportar, assim como da desolação de quem passa fome e não é de comida. Porém, também as delícias fazem parte desse ser rebelde reverberante, como a de mergulhar fundo em qualquer emoção inspirada pelo afeto.

Todos os dias, seu espírito se coloca, declara suas ambições e arrebatamentos, evoca a compreensão de quem ainda não entendeu que, espírito rebelde feito o dele, às vezes, parece que vai sair do corpo e ganhar o universo. Transformar-se em luz cortando o céu noturno.

Nem tudo é passional e catártico. Também é exaustivo ter espírito feito o dele, porque é preciso saber controlá-lo quando seus impulsos o traem. Aquietar espírito rebelde não é fácil, mas frequentemente necessário. Quando se pulsa em intensidade, eventualmente se perde a noção do quanto é fundamental a tranquilidade.

Seu espírito rebelde vive aventuras que ousam no perigo. Voos rasantes, quedas livres, escolhas improváveis. Orgulha-se de não se render às amarras, de não ser enganado por verdades forjadas, as que propiciam requintadas – e cruéis – prisões.

Reconhece em seu espírito rebelde a originalidade que falta ao ser humano que não se arrepende de ser o que sente.

É arrancado de sua reflexão pela voz histriônica do chefe, que argumenta que relatório aquele valeu de nada para concluir aquilo que ele precisava. “Você precisa se organizar, meu caro! Como podemos mantê-lo como funcionário se nem mesmo relatório você faz direito?”

Só que seu corpo não respeita os desejos de seu espírito rebelde, e sua consciência o teme. Soubessem das aventuras e realizações que seu rebelde espírito comete, aqueles que banalizam sua existência continuariam a lhe imputar falta de importância para o mundo?

Junta seus papeis, enquanto os colegas de trabalho já saem da sala. Prefere ser o último a sair, assim não precisa desfiar comentários clichês pós-reunião sem sentido. Respira fundo, analisa o trabalho feito e sabe que seus relatórios são sempre impecáveis.

O problema não é o profissional, mas o homem que, detentor de um espírito rebelde, vive a incapacidade ferrenha de trazê-lo à vida, de permitir que ele seja o protagonista de sua história.

Enquanto caminha de volta para casa, após oito horas de trabalho árduo - que o chefe irá declarar ele mesmo ter feito -, dá vazão ao que o espírito deseja. Pudessem olhar para seu espírito como olham para ele durante as reuniões, certamente não debochariam do disso ou do daquilo que a eles parece medíocre e grotesco. Permaneceriam quietos, olhares voltados à exuberância de sua existência. Ele diria e eles escutariam, e nunca mais tirariam dele a autoria de suas conquistas.


Imagem: Yellow-Red-Blue © Wassily Kandinsky

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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

GÊMEOS BIVITELINOS >> Paulo Meireles Barguil


Mendell era jardineiro e não cozinheiro, pois, ao invés das suas pesquisas sobre plantas híbridas, teríamos herdado algumas receitas de sopas e saladas.
 
Não estou dizendo, esclareço logo, que aquelas são mais importantes do que essas.
 
A relevância de umas e de outras é proporcional, direta ou inversamente, aos afetos do sujeito degustador, motivo pelo qual, cada vez mais, avalio como sensato reconhecê-los e respeitá-los.
 
Enquanto Ciência, a Genética, derivada do vocábulo grego geno, que significa fazer nascer, é oriunda do início do século XX, sendo Mendel considerado seu pai.
 
A mãe, até hoje, não foi noticiada...
 
Durante séculos, a Humanidade, de forma intuitiva, envidou esforços para melhorar plantas e animais de acordo com suas necessidades.
 
Mendel sugeriu que as características das plantas decorrem de uma dupla de elementos, nomeados, atualmente, de genes.
 
Não me alongarei nessas considerações, seja porque são escassos meus conhecimentos nessa seara, seja porque sua paciência para tais assuntos pode ser rala.
 
Mais sensato, pois, que eu siga, sem maiores delongas, ao que me interessa.
 
Cada ser é único, sabemos, mas aqueles que nascem na mesma ocasião e frutos da mesma mãe são nomeados de gêmeos, os quais podem ser uni ou bivitelinos.
 
Enquanto os primeiros se originam dos mesmos óvulo e espermatozoide, os segundos decorrem de uma dupla de cada.
 
Nessa última categoria, estão minhas recentes invenções, as quais são frutos do meu desejo de que o ensino e a aprendizagem da Matemática aconteçam de modo mais íntegro para todos os envolvidos nos referidos processos, seja fora ou dentro da escola.
 
       
 
O Fiplan é um conjunto com sessenta peças plastificadas de figuras planas, que se diferenciam por três atributos: formato (círculo, triângulo, quadrado e retângulo), cor (amarelo, vermelho e azul) e tamanho (muito pequeno, pequeno, médio, grande e muito grande). 


 O Flex é um baralho com setenta e cinco cartas: cinquenta comuns e vinte e cinco especiais. As cartas comuns foram divididas em cinco naipes: quatro com as figuras planas básicas (círculo, triângulo, quadrado e retângulo) e um sem figura plana. Cada naipe tem 10 cartas, com numerais de 0 a 9, expressos com algarismos, letras e figuras planas coloridas. A diversidade de cartas do Flex possibilita vários jogos, propiciando diversão para pessoas de qualquer idade.


Se quiser conhecê-los um pouco mais, clique aqui.
 
Quanto ao futuro deles, repouso na poesia de Gibran:
 
"Vossos filhos não são vossos filhos.
 
 São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
 
 Vêm através de vós, mas não de vós.
 
 [...]
 
 Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
 
 O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
 
 Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe."


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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O ZEITGEIST PIROU >> Mariana Scherma

Esses meus últimos dias têm sido turbulentos. Tudo me afeta loucamente. Um pepininho vira um pepinão, que desencadeia mais outros minipepinos. Vou resumir: na minha infância, o Sérgio Mallandro tinha um programa com um quadro chamado Porta dos Desesperados. Às vezes, saiam coisas boas. Às vezes, só saia mesmo um homem fantasiado de gorila enlouquecido. Digamos que todo dia eu abro essa porta e todo dia vem o homem-gorila. Aí um dia eu vi uns cabelos brancos e surtei. Ando estressada demais, um fato.

Conversando com uma amiga, ela também anda encarando demais o gorila. Minha vizinha e sua filha, idem. Outras amigas também. Meu namorado foi assaltado. E olhando de uma forma mais macro, o brasileiro anda recebendo muita visita do gorilão (ou você acha que aumentar a jornada de trabalho para 12 horas vai sanar a crise? Hmpf...). É como se o mundo estivesse surtado. Na aula de filosofia/história, falamos de zeitgeist. A impressão que eu tenho é que o zeitgeist pirou e se recusa a ir ao psiquiatra. O zeitgeist está pior que o gorila da Porta dos Desesperados.

Já ouvi trezentas vezes que não devemos deixar os problemas nos afetarem tanto, mas e quando o sangue ferve? Meu sangue anda em plena ebulição e as pessoas parecem ter perdido a noção das coisas. Quando você não sabe dos afazeres do outro, não julgue a velocidade com que ele realiza as atividades. Todo mundo, antes da crítica, deveria fazer o exercício sábio de se colocar no lugar do outro. O chefe no lugar do funcionário e vice-versa. O político no lugar do cidadão que lhe deu o voto. Seria mais humano viver.


Para essa semana, eu vou deixar de ser esponja de problema. Vou seguir fazendo o meu melhor, mas não vou levar problema de um lugar para o outro. Quando a gente transfere os problemas de lugar, eles devem procriar e deixar o zeitgeist doidão. Se abrir uma porta e o gorilão sair correndo, vou correr com ele em vez de gritar de susto. Ou vou tirá-lo pra dançar. Quando ver todo mundo reclamando, vou me esforçar pra contar uma piada e fazer o zeitgeist ficar menos cruel. Quem sabe funciona?


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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

OS AMANTES >> Carla Dias >>


Dialogar com a intimidade dos desejos, alcançando o sentimento com frenesi e descomedimento. É que desejo entrelaçado ao amor não manda recado quando o espírito terminou o ensaio e aguarda a performance do corpo.

Direto ao palco, por gentileza.

Revolucionar o sentimento ao esmiuçá-lo, saber dele os cantos e as incertezas, embrenhar-se na sua opulência em busca da sua finalidade. Que sentimento é bruta flor, necessita do fino trato do reconhecimento para manter água na boca de um pelo outro.

Democratizar os espaços: movimentos corteses aliciados por abraços ambiciosos, catalisadores da energia domesticada com o fim de mantê-la quieta, no canto que lhe cabe, incapaz de induzir os comportados a cometerem o deslumbre dos enlouquecidos por abraços.

Exigir que a língua oficial transite pela terra do silêncio, ocupada que anda em reconhecimento de território. Que o território corresponda a contento.

Patrocinar longas trocas de olhares. Dizem por aí que há magia nesse feito, é um tal de deleites e vontades rodopiando ao som da respiração. E que a profundidade dessa troca pode até conceder o direito à leitura ampla da alma do outro. Também dizem que aí mora o perigo, mas o que seria de nós se não corrêssemos risco, certo?

Familiarizar-se com a tez que se acomoda na sua, até que pareça impossível se imaginar em outro lugar que não no ali. Até que a sua também se acomode nela, originando a conexão que antevê a próxima, ainda mais profunda.

Tolerar a ausência sem se esquivar do que interessa: pausas são fundamentais. O que seria da poesia se dispensássemos a saudade? O que seria de nós mesmos ao nos tornarmos incapazes de reconhecer na distância a possibilidade de refrescarmos o olhar em relação ao outro?

Entregar-se à melancolia, quando ela exigir atenção. E que, ainda que ela faça sua oferenda por meio de tristezas, haja espaço para a memória afetiva. Que as lembranças mantenham o espírito ciente de que nem tudo é dolência e solidão.

Amar sem restrições, mas com todo o respeito que pede o amor. Permitir-se endoidecimentos que promovam a felicidade e a mantenha por perto para dias menos inspiradores.

Imagem: Les Amants au ciel rouge © Marc Chagall



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terça-feira, 13 de setembro de 2016

DE NOVO O TAL DO AMOR >> Clara Braga

Ah, o amor! 

Quem nunca sorriu, escreveu, cantou, gritou, chorou, sofreu, dançou, desistiu, abraçou, duvidou ou começou um amor? 

Amor é o tema mais antigo, mais piegas e, ainda assim, rende boas histórias. Quem diria, depois de tanto tempo o amor ainda consegue até ser polêmico!

Um cara foi lá e escreveu sobre o amor, o seu amor! Fez logo uma declaração daquelas de deixar qualquer um suspirando! Abriu seu coração e falou do amor que sentia, amor com direito a jazz como trilha sonora, com direito a viagens dos sonhos, fone de ouvido compartilhado, com poesia, versos, tudo muito singelo e delicado, muito sincero.

Claro, falar de amor é difícil, afinal, existem mil formas de amar, por isso mesmo, houve quem conseguisse sentir o que o tal escritor estava falando, compartilhou da leveza das suas palavras e se emocionou. Mas também houve quem achasse que esse amor de cinema, quase de conto de fadas, não fosse amor verdadeiro, e se incomodasse.

Não demorou muito e um outro foi lá e também falou do seu amor. O amor que cresce na rotina, que supera os desgastes, que vê na intimidade o que é realmente gostar de alguém além da maquiagem, das estrias, da porta do banheiro aberta, do cansaço e da irritação de não estar sempre de bom humor.

Ora, então eu me pergunto, pra que se irritar com a forma de amar do outro? Afinal, também não há poesia nas estrias? Leveza na rotina? Beleza na intimidade? Jazz no abraço cansado?

Parem de se irritar com o amor do outro, amor não foi feito para ser definido nem discutido, amor foi feito para ser sentido e vivido! 


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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

FELLINI, AGORA EU TE ENTENDO >> André Ferrer

O lugar mais democrático de qualquer cidade costumava ser o cinema. Lembro-me de que o Cine Terracota se transformava num caldeirão. Antes e depois das sessões, fatos curiosos aconteciam por causa do choque entre as diferenças. Na entrada ou na saída, presenciava-se ou, na pior das hipóteses, protagonizava-se algum esbarrão.

Na verdade, o organismo citadino era bastante medíocre. Os espíritos que o animavam tinham dois polos bem definidos. Um risco no chão era feito e, a partir daí, qualquer antagonismo só dependia do lado escolhido. Em Terracota, esse jogo foi e sempre será pautado por duas cores: o preto e o branco. Já no cinema, quando a projeção começava, ninguém era diferente. Riso, tensão e medo nos igualavam durante o filme. O incômodo era suspenso até o acender das luzes.

Amarcord (1973)
A cidade onde eu nasci é um lugar esquecido pelo bom senso. Terracota pode crescer e até virar uma metrópole. Suas ruas podem se atirar ferozmente sobre as plantações vizinhas e as reduzir a lembranças imprecisas na cabeça dos velhos. O edifício mais alto pode até se transformar numa piada à sombra de novos arranha-céus. Ainda que se opere a mais inacreditável das mudanças naquela cidade, eu sempre encontrarei respaldo para as afirmações que acabei de fazer. Terracota foi erguida sobre duas colunas: a dos moldadores de tijolos e a dos fabricantes de açúcar. O maniqueísmo implicado em fundações dessa natureza não permite a instalação de uma terceira coluna. É muito tarde para qualquer adaptação.

O Cine Terracota, em resumo, era um ambiente apaziguador. Nele se misturavam católicos, protestantes e descrentes logo após a missa na Matriz, que, a propósito, contribuía em mais da metade do público das exibições dominicais. Fervilhante, o capataz do canavieiro sentava-se ao lado de um dos maiores bajuladores do oleiro. Uma prostituta com o rosto colado na tela branca voltava-se para trás, um minuto antes de as luzes se apagarem, e descobria que o perfume não vinha de uma das suas colegas de ofício, mas de uma irmã franciscana muito asseada. No escuro, com o facho luminoso matraqueando logo acima da sua cabeça, o cidadão terracotense esquecia, por uma ou duas horas, aquele abismo aparentemente intransponível na época, mas que, hoje em dia, não é mais assustador do que um obstáculo pueril.


Amarcord (1973)
Na minha infância, que aconteceu nos anos de 1980, eu achava o mundo terrível no momento em que aquelas sessões acabavam. Não era. Hoje é pior. Aquela guerra de província era travada num tempo em que, entre outras vantagens, as crianças e os jovens respeitavam os adultos, fossem oleiros ou canavieiros. Não havia favelas além do Ribeirão dos Ouriços. A Panificadora Brilhante não precisava de um segurança na porta oito horas por dia. O padre, na missa das crianças, não se via obrigado a empregar termos como maconha, êxtase ou crack na sua homilia. Durante a confissão, a pena era quase sempre contra pequenos palavrões, orações negligenciadas e, no caso dos meninos, a volúpia dos dez, treze, quinze anos. Tudo era mais fácil. Nossos problemas combinavam com as nossas diferenças. Nada como hoje, quando insistimos em resolver a complexidade sufocante dos nossos dramas com aquela mesma forma de pensar em termos de preto no branco.

Nunca fui crédulo. Quando já completava o serviço religioso obrigatório, contei para o meu pai sobre a cronometragem que eu costumava fazer, antes de fugir, nos dias de confissão. Era curioso como um dos padres da Paróquia de São Francisco se demorava mais com os meninos do que com as meninas. Teria, ele, a mesma obsessão daquele religioso de Amarcord? Logo depois da Crisma, graças a Deus, o meu pai me liberou de contar intimidades a um estranho.

Ornella Muti em Flash Gordon (1980) de Mike Hodges 
Terracota e os seus onanistas! Muitos ainda estão lá e, invariavelmente, escondem as mãos enquanto falam das tribunas. Um deles, aliás, padecia de uma ansiedade tão intensa, que não conseguia esperar o momento apropriado. Lembro-me bem de uma noite vexaminosa. Foi no cinema, logo depois da exibição de Flash Gordon, que o sujeito se meteu atrás de um centurião romano, pintura em tecido feita por Meguinha, o lendário cartazista da casa, pintor de letreiros e alcoólatra incurável. Naquela noite de 1981, enquanto as últimas pessoas deixavam a sala de projeção, o soldado de César, que vigiava o saguão de um canto, seu posto, entre a cortina escura e o balcão de guloseimas, tremelicava como um doente de Parkinson. Culpa da Ornella Muti, ou melhor, da Princesa Aura.

Nunca assisti a um filme de Federico Fellini no cinema da minha infância. Acho que só tive esse prazer em VHS já nos tempos do colegial. Meu preferido, Amarcord, lançado exatamente no ano do meu nascimento, 1973, assisti, ainda mais tarde, quando já existia DVD.

O filme tem uma atmosfera mágica e antinatural que, para mim, é a chave da imaginação criadora de Fellini. O lugar retratado, uma pequena cidade litorânea, é uma representação de Rimini, cidade natal do diretor italiano. Foi assim, portanto, que eu descobri a utilidade das lembranças no momento de inventar e contar histórias, ainda que alguns elementos ridículos, vergonhosos e trágicos contaminem o processo. Através do humor e, é claro, com um toque de sarcasmo diante do absurdo, pode-se fazer arte com a memória. 

Federico Fellini (1920-1993) no set de Amarcord



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sábado, 10 de setembro de 2016

PITAGUÁS >> Sergio Geia

 
 

Um canto ressoa da parabólica; estão enfileirados como se fossem um pelotão militar. Revezam-se na melodia esfaqueando o silêncio da manhã; a modulação é própria e lembram uma sinfonia. A visão suave me faz lembrar Zé Vicente, um amigo capixaba apaixonado por passarinhos.
Uma vez, numa praça, em meio ao trânsito e barulho da cidade, ele parou um instante e disse: “Pitaguás”. E continuou: “Não ouve? Eles conversam, Geia. Conversam sim! O que é gorjeio pra nós é conversa pra eles. Pitaguás”. E dizia aquilo com uma comovente emoção. “Pitaguás...”. Eu parei; ouvi. Era uma cantoria alegre. “Ora, são bem-te-vis!”
Lembro-me de que um deles estava em cima do sinal: dorso pardo, barriga amarela, duas faixas brancas (uma na garganta, outra no alto da cabeça), cauda preta. Ficamos um tempo a observá-lo com regalo. Expliquei a Zé Vicente que o nome bem-te-vi está intimamente ligado ao som que ele emite: “bem-te-vi”, muito próprio e encantador. “Pitaguá”, ele respondeu. “Pitaguá...”
Brinquei: “Os bem-te-vis de hoje não gorjeiam como os bem-te-vis de outrora.” Ele me corrigiu: “Conversam, amigo Geia. Os pitaguás conversam.” “Sonoridade única”, continuei. “Indicação de conformismo. É uma ave conformada.”
Zé Vicente, pela primeira vez, desviou o olhar do sinal para deitar em mim um sorriso maroto. Continuei: “Ênfase na primeira sílaba: BEM-Te-vI, BEM-Te-vI,  ápice do agudo no “BEM”, perda de intensidade no “te-vI”, ligeira subida no i” final; conformismo.”
Riu; disse-me que na vida nunca tinha ouvido tamanha asneira. No entanto, não me dei por vencido: “Outro dia vi um diferente; força no ‘VI’: bem-tE-VIIII!, bem-tE-VIIII!, não era gorjeio, era suplício; um grito desesperado de socorro, um desesperado pedido de ajuda. Acho que ele estava passando por algum tipo de necessidade. Mas ninguém ajudou, e ele ficou lá, chorando...”
Ele abandonou minhas tolices e voltou para o sinal. Recordo-me que era um dia frio. O bem-te-vi estava sobre o sinal. No vermelho, pulava pra dentro, encostando-se na luz; no verde, voltava pra cima. O movimento se repetiu muitas vezes. Zé Vicente, com deleite, me explicou: “É o frio, caro amigo Geia; o pitaguá sente frio. Quando a luz acende, ele pula pra esquentar”. Era verdade. Uma cena comovente. O bem-te-vi sentia frio.
Zé Vicente foi embora pra Cachoeiro. Disseram-me que abriu uma vendinha de frutas. Nunca mais o vi. Imagino que nas horas vagas deva ir pro mato observar passarinhos. Nas horas vagas, eu observo pitaguás, e me vem à mente o Vicente.
Ilustração: www.avosidade.com.br


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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

PARÊNTESES >> Zoraya Cesar

A vida é cheia de parênteses. Em toda história tem sempre um ‘senão’, um ‘mas’, um ‘porém’. Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu acho que ele mora nos parênteses. 

Quando o conheci, caí de amores na hora. E por que não cairia? Arturo era italiano, charmoso, inteligente, divertido, bom amante.  Por que eu – ou qualquer outra – não ficaria encantada? (Porque, dentre todas, eu deveria ser mais esperta).

Não levo homens para dormir em minha casa antes de levantar algumas informações – gosto de saber com quem estou saindo. Mas, às vezes, como diz meu chefe, o Diabo pega a gente distraída. Apaixonada por Arturo, em pouco tempo ele dormia comigo, sem que eu fizesse minhas averiguações. (Dormir é força de expressão. Passávamos a noite quase toda acordados, em nossos jogos eróticos).

Nada tenho em casa que possa revelar o que realmente sou. E, mesmo perdida de amor, por força do hábito menti que era analista de contratos na seguradora de meu pai. E Arturo? De onde saía o dinheiro para pagar nossos jantares caros, vestir Armani, usar um Patek Philippe? Para viver em hotéis? Da única vez em que fiz perguntas demais, ele se irritou, disse que era investidor no mercado de artes, não tinha apartamento porque viajava muito e que estava comigo para se divertir, não para ser interrogado. E acrescentou que não tinha perfil em redes socais por falta de tempo e paciência. O engodo era tão óbvio que me doeu. E doeu tanto que resolvi deixar pra lá. Afinal, eu também mentia em relação ao meu verdadeiro métier e em relação aos motivos de não ter perfil em redes sociais. (Somos todos atores no teatro dessa vida. Sábio é quem escolhe seu papel).

Meu Deus, logo eu, tão racional, estava apaixonada como uma adolescente cheia de espinhas e hormônios. Ignorei as suspeitas que o comportamento esquivo e misterioso dele sugeriam, com medo de enfrentar uma realidade desagradável. (Hoje, sei que deveria ter tomado as rédeas da situação. Mas o destino fez isso por mim).

Uma noite, após mais uma rodada de sexo arrebatador, ele perguntou se poderia deixar uma caixa lá em casa, por pouco tempo, disse, é que ia trocar de hotel e tinha medo de perdê-la. Ou algo assim. Inebriada pelo calor de seus braços, assenti, sim, amor, pode. (Amor e paixão são ótimos conselheiros para idiotas. Um dia vou entender como uma mulher experiente como eu caiu naquela esparrela).

No dia seguinte, viajamos a serviço, cada um por seu lado. Quando retornei e dei com a caixa, fui tomada por uma urgência tão grande em abri-la que quase me afoguei. Não podia mais ignorar meus instintos. (Sabia que iria me arrepender, mas, que diabos, a vida não é mesmo cheia de som e fúria, de arrependimentos e dor?)

Quase desmaiei, incrédula. Dentro, uma das melhores pistolas  brasileiras, a Imbel MD1N, Cristo Amado, para que Arturo teria uma arma daquelas? Havia, ainda, inúmeros títulos de crédito ao portador, Jesus, quem usava títulos ao portador hoje em dia? E numa caixa lacrada apenas com fita adesiva? Aquilo era praticamente dinheiro vivo! Também encontrei, cuidadosamente embrulhada em plástico bolha, uma Nossa Senhora do Bom Enterro, estilo barroco. Não entendo de obras de arte, mas entendo de roubos. Eu sabia que aquela imagem fora roubada da Igreja Santo Senhor da Piedade havia alguns dias. (Dizem que a curiosidade matou o gato. Se o gato morreu, não sei, mas eu, eu morri um pouco ali, naquele momento).

Fumei e bebi para me acalmar.
Meu amado tinha uma arma.
Não se brinca com um homem que tem uma arma
Limpei minhas digitais, lacrei a caixa conforme a encontrara. De repente, tudo fez sentido. Meu amado era um bandido, provavelmente receptador de objetos roubados, os quais trocava por títulos ao portador. Por isso a arma, os gastos excessivos, a ausência de cartões bancários e de perfil nas redes sociais. Um profissional. Fumei dois cigarros e tomei um uísque para me acalmar. Não se brinca com homens que guardam uma pistola. (Treinamento e cabeça fria, diz meu chefe, são a base da sobrevivência. E meu chefe sempre tem razão)

Arturo chegou, cheio de romance e charme. Nunca ele fora tão carinhoso, nunca o amor fora tão intenso e, ai, meu Deus, nunca o amei tanto. Enquanto ele tomava banho, escondi a caixa no carro e dei um telefonema. Subi e sugeri que fôssemos jantar fora. Não sei como consegui disfarçar o nervosismo e o medo de algo dar errado. (É na provação que se mostra a têmpera, diz meu chefe).

Chegando ao restaurante, saltei do carro, afastando-me rapidamente. Aquilo tudo já era doloroso demais para mim. Os agentes o abordaram, pegaram a caixa e prenderam Arturo em flagrante, muito discretamente. Ele ficou atônito por alguns instantes, mas, logo, recuperando-se, sorriu para mim e falou pausadamente, para que eu pudesse ler seus lábios: “molto bene, bambina”. Seguiu sem reclamar. Um verdadeiro player. (Melhor que eu, que chorava convulsivamente).

Só Deus sabe o que eu sentia, uma mistura de humilhação, vergonha e tristeza. Deixei-me levar pela paixão como uma neófita qualquer. Minha casa serviu como depósito de objetos roubados e de uma arma que, provavelmente, fora usada em crimes. Por fim, entreguei o homem que amava à polícia, à prisão (e eu bem sei o que acontece nas prisões) e, possivelmente, à extradição. Era uma otária. Era uma traidora. Ou não?

Deveria mesmo tê-lo denunciado? Ou deveria tê-lo ajudado a fugir? Estava me consumindo em dúvidas e dores,  quando vi meu chefe, esperando, quieto. Naquele instante, todas as dúvidas se desvaneceram. Fiz o que tinha de fazer. (Na verdade, fui coerente com a escolha de vida que fiz há tantos anos). 

Sou policial. Sou discípula de meu chefe, Felipe Espada. Quer saber? Não me arrependo de nada. Não mesmo. 


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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

RAZÃO E SENSIBILIDADE>>Analu Faria

O que nos torna humanos não é a capacidade de raciocinar. Isso, bem grosseiramente, um robô sabe fazer. Esse ajuste fino que nos coloca como seres que criam obras de arte, programam em HTML, aprendem uma nova língua, têm empatia, se compadecem etc., é a capacidade de ser razoável.

O lado ótimo desse imbróglio político todo é que ele está nos mostrando quem são os humanos. Se você cedeu às paixões da sua ideologia - de direita ou de esquerda - e se esqueceu que é preciso ser RAZOÁVEL, meus parabéns -  mesmo com tanta gente te ensinando a ter empatia, a falar outra língua, a programar, a criar, a se compadecer, você conseguiu a proeza de se igualar a um primata qualquer que não os da nossa espécie. Ou a um robô. É um trabalho e tanto!

Eu até entendo que a uma reação deva corresponder uma reação. O problema é que esse costuma ser o argumento dos mal intencionados, para justificar um monte de merda. Tem gente de esquerda e de direita muito bem intencionada, que acaba se lascando porque aqueles mal intencionados adoram pegar carona no discurso de quem quer ser humano. Sobra gente retrógrada, maldosa mesmo, malandra, babaca etc. se fazendo de razoável, de equilibrada etc. para ganhar capital político.

Vem nego de direita me dizer que ser artista no Brasil é muito difícil porque a situação em que o PT nos deixou é desastrosa. Vem outro nego de direita me dizer que no Brasil ser artista é fácil por conta das "boquinhas" da lei Rouanet. Direitistas malucos, decidam-se.   Igualmente aos malucos de esquerda: não dá para exaltar um país que faz presos políticos e tem censura (Venezuela, Cuba...) e meter o pau nos desmandos policiais (preocupantes, diga-se) nos recentes protestos.

Cuidado com o efeito "caixa de eco", colega. Cuidado para não achar, como Narciso, que é feio aquilo que não é espelho. Lembre-se que, no fim das contas, o mundo não é seu playground e que só é livre aquele que passou da fase de precisar ver-se no outro para se sentir seguro. 


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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

BOA FLEXIBILIDADE PARA VOCÊ >> Carla Dias >>

Lembro-me de um documentário que assisti sobre as pontes mais suntuosas do mundo. Fiquei impressionada com toda tecnologia aplicada nelas. Falo de antes da ponte da China, aquela de vidro, na qual jamais colocaria os meus pés, pois tenho um medo ferrenho de altura. E também certa fascinação, mas não o suficiente para me lançar em tal aventura.

A imagem que me deixou mais perplexa, no tal documentário, foi ver uma ponte de concreto dançar a valsa do vento. Havia tanta flexibilidade nela. Senti um misto de fascinação e terror. Como pode algo tão seguro, tão pesado, tão bem fixado, render-se dessa fora ao vento?

Sim, eu assisti ao documentário e tive acesso às explicações técnicas sobre como construir pontes capazes de suportar a força do vento, inclusive ventos capazes de balançar pontes de concreto como se elas fossem a namoradeira da varanda.  Ainda assim, impressionei-me de forma que não tem volta. Ali eu me dei conta de que ser flexível é uma questão de sobrevivência.

Todas as vezes em que me apego à intransigência, em que percebo uma relutância aguçada em compreender o que me dizem, eu me lembro daquela ponte. Para mim, ela se tornou uma metáfora a respeito da flexibilidade necessária para aceitar a possibilidade de eu estar enganada sobre aquilo que defendo, sobre as pessoas que evito e também às quais dedico admiração e afeto.

Eu não acredito no definitivo, quando se trata de escolhas, opiniões. Nesse ponto, sou bem parecida com aquela ponte. Venho construindo a mim para aceitar que, às vezes, os ventos vêm mais fortes do que eu esperava, e eles vão me sacudir até eu entender que não há como me manter estática na crença, nas buscas, no medo.

Posso manter minhas convicções, mas a flexibilidade vem do fato de eu compreender que nem sempre a minha será a melhor escolha. Mora também aí a oportunidade de eu viver experiências que minhas certezas minavam.

O entendimento sobre si e a aceitação de que o mundo não existe para o nosso bel-prazer pode abrir nossa mente para algo melhor.

Hoje, no dia em que comemoramos a Independência do Brasil, desejo que nosso país se recupere da necessidade de poucos, que na busca por poder e dinheiro, limitam as possibilidades de o povo brasileiro andar para frente.

O que a flexibilidade das pontes de concreto tem a ver com isso?

Desejo que nós, os cidadãos desse Brasil, possamos ser flexíveis no trato com o outro, permitindo mais esclarecimentos e menos desaforos; e que possamos nos unir no que diz respeito a todos nós, não somente a alguns. Que em época de ventos fortes, possamos resistir à danosa necessidade de desistir do que nos desafia a mudar, não apenas politicamente, mas na nossa humanidade.

Desejo que possamos declarar independência dos algozes disfarçados de benfeitores, ao reconhecermos a fragilidade de suas propostas, as armadilhas em suas promessas. E ao reconhecermos que a união entre as pessoas, em busca de um mesmo objetivo, é muito mais forte que ventos que balançam pontes de concreto.

Boa flexibilidade para você.

Boa independência para você.

carladias.com

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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O CRONISTO >> Paulo Meireles Barguil


Tendo em vista os acalorados debates sobre gênero, talvez tenha chegada (ou passada) a hora de ser abolida a configuração atual de substantivos e adjetivos de dois gêneros.

Nem meu ofício, nem meu lazer estão relacionados às letras, sejam elas consoantes ou vogais.
 
Considerando, todavia, que tanto meu ofício, como meu lazer são vislumbrar o que ainda não se materializou, apresento minha proposta.

Doravante, as palavras terminadas em a serão femininas.

De agora em diante, os vocábulos concluídos em o serão masculinos.
 
Proponho a criação de léxicos terminados em e ou i, caso esses já existam, para contemplar as pessoas que não se identificam com esses dois gêneros, bem como também aquelas que se identificam com os dois e, ainda, quando o gênero é desconhecido, em virtude da situação, podendo, portanto, se referir a cada um.

O artigo precedente destas palavras será o i, pois a e o estão impedidos.

Quanto ao e, ele já é muito ocupado.

Acho mais prudente guardar o u para outra oportunidade...

Após essas sucintas explicações, vou ao que interessa!

A palavra cronista, por exemplo, será utilizada apenas quando a pessoa for mulher.

No caso de homem, o vocábulo adequado será cronisto.

Nas demais situações, conforme exposto, croniste é a forma pertinente.

"Eduardo está procurando umi croniste que deseje escrever para o site".

E no caso de plural?

Simples: é só acrescentar o s.

"Eduardo está procurando cronistes que desejem escrever para o site".

Sinto-me, agora, em paz com minha consciência: a ideia foi lançada.

Não me perguntem o destino e a velocidade da mesma!

As suas (quase) infinitas implicações, tampouco, não me pertencem: são centelhas legítimas do Universo.

As formas masculinas e femininas já consagradas permanecem como estão.

Os demais casos serão resolvidos peles profissionais linguistes, que escreverão mais algumas regras e esclarecerão as circunstâncias omissas.
 
Estou tranquilo: o que seria da Língua Portuguesa se não existissem as exceções?

Já basta uma Matemática no mundo...


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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ZERO EM SUPERAÇÃO >> Mariana Scherma

Não sou de fuxicar a vida dos casais famosos e ficar especulando relações. Mas também não sou um alien e acaba acompanhando alguns. Cada relacionamento é um mundo próprio, nada é como parece ser, mas, sei lá, sou fã de alguns casais. Exemplo: quando Brad Pitt começou a namorar Jennifer Aniston achei a perfeição. Eles sempre combinaram. Nunca vou esquecer o episódio de Friends em que Brad participou – estava na cara que tinha tudo a ver e ele estava feliz da vida. Mas aí veio a Angelina Jolie (insira aqui seu emoji de raiva)... E já era. Até hoje eu evito filmes da Jolie (com exceção de O Turista porque tem o Johnny Depp e Veneza). Peguei birra. Jennifer já superou há tempos, Brad e Angelina tem 487 filhos. Mas peguei birra. Não superei.

Marcelo Novaes e Letícia Spiller são outro casal insuperável. Eu os adorava naquela nova, acho que era Quatro Por Quatro. Eles tiveram filho, foram felizes, separaram e pronto: nunca mais esqueci. Apesar de esses dois eu não acompanhar tanto, nem sei com quem se casaram depois. Mas fica o imaginário da ficção. Parece que esses casais atores vão ser sempre felizes e juntos. Felizes eles continuam sendo, imagino, só que não juntos. Quase morri de amor ao saber que eles voltam a ser par romântico na nova novela. Talvez torça pra um reencontro romântico na vida real mais que o filho dos dois. Sou dessas.

Quando começaram os boatos da Fátima e do Bonner, só pensei: onde tem fumaça, tem fogo. Sou jornalista faz tempo pra ficar atenta a esses boatos, ao mesmo sem me importar muito com eles. Uma hora a verdade chega. Chegou. Gente, como assim? Foi tão lindo quando a Fátima teve os trigêmeos, quando Bonner, em alguma copa aí, perguntava “por onde anda Fátima Bernardes”. Mais um ex-casal pra minha lista de insuperáveis.


Ninguém sabe o que acontece dentro de cada casa e cada relacionamento. E ninguém tem nada ver com isso. Pessoas românticas talvez se agarrem a esses exemplos de felicidade (assumo) e fica difícil deixar ir depois. Só espero que o amor que uniu esses casais não se perca por aí. Aquela velha história de que o amor ainda existe, só que com outra roupagem. Amor é uma coisa. Convivência é totalmente diferente. Os pequenos defeitos vão ficando gigantes. O tempo, ao mesmo tempo que conserta e faz a poeira baixar, deteriora. Não existe pra sempre. Nada é eterno. Esses finais felizes das histórias infantis estragam a gente.


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