quinta-feira, 18 de julho de 2013

POR FAVOR, CUIDE >> Fernanda Pinho



Ganhei da minha amiga Samara um livro chamado “Por favor, cuide da mamãe”, da escritora coreana Kyung-Soon Shin. O livro conta a história de uma senhora, mãe de cinco filhos adultos, que se perde do marido na estação de trem de Seul e desaparece. As pouco mais de duzentas páginas narram a busca dessa família por essa mulher. A trajetória é angustiante não apenas pelo medo inerente à situação mas, principalmente, pela dor de cada personagem que precisou sofrer da ausência dessa mulher para se dar conta da presença dela. Angustia porque a gente se identifica. Muitas e muitas vezes colocamos nossas relações no modo automático e não paramos para de fato perceber o outro. Mesmo com aqueles que mais amamos. Aliás, principalmente com aqueles que mais amamos.

Numa das passagens do livro, uma das filhas conta como a relação com mãe tornou-se diferente depois que ela saiu de casa. Como foi estranho, de repente, se tornar uma visita na casa onde nasceu e foi criada. Fiquei particularmente apegada a essa passagem porque é um fato recente na minha vida. Há um ano e três meses saí de casa para vir morar no Chile e, agora, quando vou ao Brasil eu sou visita na minha própria casa. Na teoria ainda é a minha casa. Na prática, algumas coisas mudaram, sim. Existe uma faxina especial que precede minha chegada. Nos dias em que estou lá, minha comidas preferidas fazem parte do cardápio. Às vezes tem até uma roupa de cama nova e temática esperando por mim e meu marido. Isso, da parte deles. Da minha parte também mudou alguma coisa. As roupas que eu uso estão na mala, e não no meu bom e velho guarda-roupas. O apartamento que antes eu achava pequeno demais para a família, ficou grande agora que eu moro em um muito menor. E o cheiro, meu Deus, o cheiro daquela casa é o melhor do mundo.

Esses dias peguei para usar uma camisa que foi lavada pelo última vez pela minha mãe, há duas semanas quando eu estava lá, em Belo Horizonte. E quando peguei a camisa senti aquele cheiro. O cheiro da casa dos meus pais. O louco disso é que, enquanto eu morei lá, eu nunca soube que a casa tinha um cheiro. Eu nunca senti esse cheiro. Porque, claro, eu estava viciada. Eu estava lá todos os dias, preocupada em viver minha vida, não parava para sentir nada. Nunca parei para prestar a atenção no cheiro da minha casa.  E é por isso que esse livro me tocou. Não só pelo cheiro, claro, mas pelas tantas outras coisas que deixamos desbotar por não dar a devida atenção.


Os gestos que a gente ignora. A dor do outro que a gente prefere fingir que não vê. As palavras que entram num ouvido e sai no outro. Sabe, por que a mãe da gente sempre nos manda comer e levar uma blusa de frio? Será que é mesmo só chatice? Será que é só vontade de sempre dizer a mesma coisa? Que sentimentos e motivações estão por trás desse conselho chato? E por que o amigo diz que estamos sumidos? Por que a avó reclama que a gente não aparece? Por que a esposa insiste em te lembrar alguma data especial? São tantas coisas que a gente deixa passar batido. Tanto pedido de socorro que a gente deixa ser atropelado pela rotina. Tanto sentimento que vira só mais um cheiro no ar viciado.  Ainda bem que existem os livros para nos enviar alguns lembretes de vez em quando. Este último, me deixou com uma vontade danada de ficar mais atenta.


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Um comentário:

Fabio de Souza disse...

Que lindo, por favor. Texto maravilhoso!