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O PLANO >> Carla Dias >>


Acordou, levantou-se, banhou-se, alimentou-se, tique-taque, cabelos penteados, roupa para inverno e verão em um mesmo dia. Ela sai de casa cedo, na bolsa todos os medicamentos do menu, e também os documentos para garantir que não sofrerá de anonimato no único momento em que exige ser reconhecida. Tem medo lancinante de morrer e jamais voltar para casa, tudo por culpa do RG largado sobre a penteadeira.

Durante o caminho, ônibus lotado, falatório indigesto, ela pede ao Deus que apague os verbos das bocas dos que só sabem usá-los no modo ofensivo. Anda enfastiada de escutar maledicências, presenciar o destrato recorrente de quem só sabe dizer sobre o outro as perversidades. E ainda que elas sejam pertinentes, certamente não são da sua conta.

Desce do ônibus, um zunido endiabrado em seus ouvidos, ecos das histórias do coletivo que, nem de longe aponta para a coletividade. Então que lhe bate a sensação de estranhamento, a consciência berra que ela mesma pode ser a peça fora do lugar nesse tabuleiro, que assim como os passageiros do ônibus, talvez Deus deva lhe calar os verbos.

E o que ela faria sem eles nesse hoje? Justo hoje? O que seria de seu plano tão bem elaborado, anos de desenvolvimento, detalhes tantos profundamente estudados. O que seria do que lhe ocupou noites inteiras, mandando-lhe para o trabalho com os olhos vermelhos e cansados, a alma temendo dias úteis e horários comerciais e telefonemas urgentes?

Decididamente, aceita que não pode ser privada dos verbos. Não hoje, meu Deus!

Seu cubículo na empresa, lugarzinho enfeitado por manchetes, no qual desempenha seu papel de funcionária por quatro meses escolhida como a mais eficiente, é dos mais organizados. Ali ela pesquisa, fala com suas fontes, desenvolve seus artigos. E apesar de funcionária de destaque, é das pessoas mais reservadas do lugar. Às vezes, ao escutar as gargalhadas dos colegas de trabalho, sente-se enciumada pela alegria deles, uma alegria que surge fácil, até durante os cinco minutinhos para o cafezinho.

O seu cafezinho ela toma sentada na cadeira ao lado do bebedouro, na cozinha. Acontece de um e outro entrar para seu intervalo e nem notá-la ali. Mas ela não culpa o mundo, ou as outras pessoas, pela sua incapacidade de interagir. Na verdade, a sua posição de observadora lhe apetece, não a agride. Não fosse aquele sentimento estrangeiro, seu espírito estaria em paz.

Ali mesmo, sentada para o cafezinho, ao lado do bebedouro, aprendeu a contemplá-lo. Não é lindo com a lindeza que as meninas, as que pegam o ônibus para irem à escola, apreciam, enquanto folheiam as revistas de celebridades. É belo como a poesia das deleitáveis canções de amor. Nunca se imaginara mergulhada nesse tipo de apreciação distante, da observação dos gestos, da entoação das palavras, do apegar-se ao ritmo do dizer os fatos com a eloquência da gentileza. Porém, nele encontrou porto para o olhar, dele furtou a capacidade de escutar sem se distrair, o que inspirou nela a alegria de existir no mesmo mundo que ele.

E demorou muito a assumi-lo amor. Delegou ao sentimento, durante muito tempo, o significado de empecilho, porque ele a atrapalhava, não permitia que fizesse um bom trabalho. Até o dia em que foi ele a entrar na copa para se servir de café, bem na hora em que ela estava lá, na companhia silente do bebedouro. E sem se apegar ao jeito dela de se safar das conversas, sentou-se, contou-lhe sobre o dia atribulado que estava tendo, sobre a dificuldade em escrever um artigo sobre filantropia, já que a maioria dos filantropos lhe parecia mercenários em busca de melhorar a própria imagem. Então, que ela não conseguiu deixar de se enfiar nas entrelinhas, de contemplar os detalhes. Imergiu nos trejeitos dele, chegou até a participar ativamente da conversa.

Descobriu-se ao aceitá-lo amor.

O seu plano é simples, não pede grandes produções. Parada à porta, observa-o a conversar animadamente com seus colegas. Ela vê, claramente, a facilidade com a qual ele envolve as pessoas. Ele não sabe o que virá, mas ela se preparou para este momento, vai dar certo.

Ele não é homem para ela, ou não seria ela mulher para ele? Que seja... Fato é que, nesses anos todos, e apesar do afeto que ele escancaradamente sente por ela, ele nunca lhe ofereceu a possibilidade de ser uma das mulheres que ele tentou amar. Ela nunca tentou conquistar essa possibilidade.

No seu cubículo, já não há folha fora do lugar ou resquício de sua presença. Apenas a bolsa repousa sobre sua cadeira. Ela a pega, e sorrateiramente deixa o recinto. Afinal, assim planejou, portanto não há espaço para improviso. Aproxima-se dele, que lhe acena, sorrindo, como se ela estivesse de passagem. Mas para a surpresa dele, ela para a sua frente, bloqueando a visão do público, que inicia um falatório miúdo, por estranhamento.

Deus não lhe privou dos verbos, não hoje. E como ela adora os verbos, provavelmente mais que os adjetivos. Talvez o problema esteja aí... As pessoas dão valor demais aos adjetivos mal aplicados, combinando-os aos verbos que levam às ações mais fáceis. Mas não ela, que se tornou destaque colocando adjetivos e verbos certos a serviço dos sujeitos merecedores.

Ela começa a falar e as pessoas a sua volta se calam. Conta a ele sobre o começo ao momento atual de seu sentimento, como se ele fosse um personagem de livro. Não engasga, ainda que a voz, às vezes, saia entrecortada. E depois, confissão assinada com olhar, sorri e vai embora, deixando a ele e aos espectadores atrapalhados com seus pensamentos.

Nunca pegou ônibus nesse horário. Além de praticamente vazio, o silêncio é aprazível.  Percebe que gosta de olhar a paisagem, de se perder em pensamentos desapegados da rígida rotina que mantinha.

Uma senhora pede licença e se senta ao seu lado. Sorrindo, comenta que está voltando de um encontro muito agradável com os amigos. Então, ela começa a lhe contar sobre cada um desses amigos, e os adjetivos são agradáveis, os verbos são gentis. E ela se sente livre.

Enfim, seu plano dera certo.

Imagem: Galátea das Esferas/Salvador Dalí

carladias.com

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