quarta-feira, 3 de julho de 2013

19 ANOS E 1 DIA >> Carla Dias >>

Uma pessoa de dezenove anos e um dia, certamente pensa muito diferente de mim, com quarenta e dois anos, oito meses e sei lá quantos dias. Isso não é ruim, até porque, vai saber se essa pessoa, na sua amiúde idade, não pensa com mais sensatez que eu, com a minha maturidade taciturna.

Fato é que não tenho pudores, aviltamentos ou dúvidas em escutar alguém tão mais jovem que eu, tampouco mais velha. Na verdade, abraço a possibilidade de ser surpreendida pela sabedoria de uma pessoa em qualquer idade. Prova disso é a tamanha importância que dou aos comentários dos meus sobrinhos, mesmo quando estão rindo da minha cara, e de todos os senhores e senhoras que sempre me escolhem para bater-papo, enquanto esperamos o ônibus.

Sabedoria é o tipo de coisa-importância que, quando a evitamos, pula na nossa frente. E se depois de se mostrar todinha, ainda insistirmos em ignorá-la, bom, aí já é problema nosso.

Mas nem pensem que 19 anos e 1 dia é a idade de alguém. Na verdade, é a idade de um feito que guardo com o maior apreço no armarinho das lembranças de ouro. E se você pensa que vou contar que apreço é esse, pode tirar a sapequice da chuva, da rua, da fazenda. É segredo que guardo de mim, confessando-o, ano após ano, na mesma data. Daí acontece um relembramento, e eu fico melancólica, vou escrever poesia e volto mais tarde, pronta para o esquecimento até a véspera, o dia e o dia seguinte.

Amanhã passa.

Há 19 anos e 1 dia eu cometi uma ousadia, mas foi ousadia das graciosas, daquelas que somente uma pessoa completamente entregue às delicadezas da vida pode contemplar. Não sei se a ousadia em si ainda é o sujeito desse meu objeto de lembrança, ou se o personagem principal é a saudade que sinto daquela que eu era naquele momento. Daquela pessoa capaz de cometer uma emoção com tanta eloquência.

Não tenho um filho de 19 anos e 1 dia, tampouco guardo badulaque que lembre a data. Está tudo na minha memória, que insiste em ser seletiva, fazendo-me esquecer de dados importantes para o diariamente e gravando ternurices na minha cachola. Às vezes, essa seleção natural – que beneficia muito mais os meus sentimentos, com todos os seus direitos e avessos – me espanta, porque aprendemos a praticidade para se executar as tarefas cotidianas, de forma a imaginarmos que jamais nos esqueceremos da utilidade da logística para uma rotina beneficente às nossas necessidades básicas...

Até endoidecermos de afeto.

São muitos anos, muitos dias que me separam daquele momento, daquela ousadia, daquela pessoa que eu era. E todas as vezes que penso que esqueci, basta a data chegar que acesso o filme, revejo as cenas, reafirmo a importância daquele momento acontecido há 19 anos e 1 dia, e que me ensina que hoje, ainda que muito tenha sido incluído na minha biografia, mora em mim aquela pessoa. Ainda que em um cômodo pequeno da minha alma.

Até o ano que vem, então.



carladias.com




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4 comentários:

Dani disse...

Bonito, mas deixa uma curiosidade no ar =)

Carla Dias disse...

Dani, minha querida... Poxa, não dá pra contar :) Beijos!

Zappa disse...

As saudades que temos do que já fomos podem nos levar ao encontro de nós mesmos... A música e a poesia nos resgatam e nos redimem...

Carla Dias disse...

Zappa... Sim, é isso :)