sexta-feira, 5 de julho de 2013

A MELHOR SOGRA DO MUNDO >> Zoraya Cesar

Encontrar um homem bom é como encontrar agulha num palheiro, diz um ditado, e quando Dedinha encontrou Josualdo, honesto, carinhoso, trabalhador e, acima de tudo, casadoiro, as amigas correram a acender velas a Santo Antonio, também queriam um assim. 

Quando tiveram certeza de que se davam muito bem nos quesitos cama, mesa e banho, resolveram se casar. E, como quem casa quer casa (meu Deus, essa é mais antiga que máquina de escrever), alugaram um quarto e sala lá mesmo no subúrbio onde moravam.

Mas – e sempre tem um “mas” -, Josualdo era filho único de D. Sulamita,  Sulinha, que enviuvara quando o menino tinha sete anos e o criara sozinha, trabalhando numa padaria de madrugada e fazendo faxina durante o dia. Ele morria de amores por essa mãe extremada. Ela morria de orgulho desse filho, contador e funcionário público. E D. Sulinha, já velhinha, mirradinha, veio do far, far west, digo, no rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo, para o casamento. E, como não tinha onde ficar, hospedou-se com o novo casal, assim como o cachorro que trouxera, mal cheiroso, babento e remelento que fungava e rosnava cada vez que via Dedinha.

Ohhhh, dirão vocês, que loucura, morar com a sogra! Pois se tem gente que mata ou morre para não passar por isso... seria apenas por alguns dias, Dedinha não se importou. Até porque Josualdo estava feliz e a sogrinha fazia de tudo para agradá-la, até nos desacordos do casal D. Sulinha apoiava a nora querida, moça boa. Sogra melhor, impossível.

D. Sulinha era um doce, realmente, mas os dias e semanas estavam passando e ela foi se acomodando. Passou a gerir a casa do jeito que lhe aprazia, que não era do jeito que Dedinha gostaria: a geladeira estava sempre entulhada de restos de comida (“estragar é pecado”); as coisas mudavam constantemente de lugar, Dedinha não conseguia encontrar coisa alguma; o cheiro de pinho sol foi substituído pelo de creolina (“realmente mata os germes”); Dedinha arrumava os travesseiros sobre a colcha ao sair, mas, de noite, encontrava-os no armário (“para não pegarem poeira”). E tudo D. Sulinha fazia de um jeito tão gentil, que a nora se sentia uma crápula por se irritar. 

Mas não era só isso, oh, não! D. Sulinha grudava que nem visgo de jaca. Era Dedinha entrar no banheiro que a sogra batia à porta, perguntando se estava tudo bem. Às refeições, D. Sulinha enfiava o dedo nodoso no prato da nora, para ver se sua Dedinha querida não estava comendo comida fria. Era a nora sentar para estudar, que a sogra sentava bem em frente, não vou incomodar, vou ficar quietinha, quer um chazinho? Dedinha atrasava dez minutos para chegar, e D. Sulinha ligava 20 vezes para o celular. Um dia ela se revoltou e resolveu não atender, mas foi pior. A sogra pensou que ela tinha morrido e, ao chegar em casa, Dedinha encontrou a velha e as vizinhas aos prantos, segurando velas acesas e rezando para a sua alma  seguir em paz. 

Foi nessa noite que Dedinha começou a tomar calmantes. 

O que vocês acham? Dedinha era fresca ou D. Sulinha exagerava? Vou ajudá-los a decidir: 

A dentadura. A velha esquecia a coisa em todo lugar, menos no recipiente próprio para guardar algo tão íntimo. Dedinha já encontrara a dentadura na sua cama, dentro da saboneteira (com o sabonete), no sofá e até na geladeira. Mas a gota d’água foi encontrar a coisa dentro da sua bolsa, ainda meio úmida, como se tivesse acabado de sair da boca da velha - que teve desplante de agradecer melosamente por ela ter encontrado seus dentinhos. 

Nesse dia Dedinha começou a sentir um ódio verruguento e rançoso pela sogra. 

Que, aliás, vivia perguntando quando viriam os netinhos. Que netos, sua desgraçada louca, desesperava-se Dedinha, se mal posso ficar a sós com meu marido? 

(Dedinha, claro, não reclamava com Josualdo, que ela não era besta de perder marido tão amoroso, cuidadoso e, nas poucas vezes que experimentou, gostoso). 

Outro detalhe que enlouquecia Dedinha lentamente era o maldito hábito da velha ficar olhando enquanto eles dormiam. A cama do casal era um estrado no chão e de domingo a domingo Dedinha acordava e dava de cara com os cambitos descarnados e ossudos da sogra, que estava a fitá-los, esperando que acordassem para fazer o café.  Uma noite, Dedinha acordou às quatro da manhã, só para não encontrar a velha a fitá-la. Na noite seguinte, ao fazer a mesma coisa, deu de cara com a sogra, que perguntou, pressurosa e baixinho, quer café, minha filha?

Nessa hora, nesse exato momento, Dedinha começou a rezar pela morte da velha. 

Não sei se a reza foi forte ou se foi o destino, mas o fato é que alguns dias depois D. Sulinha morreu de uma hora para outra. Dedinha teve um ataque histérico durante o enterro e todos ficaram muito comovidos, nunca viram uma nora tão compungida com a morte da sogra. 

Naquela noite Dedinha demorou a dormir, em êxtase, finalmente ia ter paz. Acordou feliz, e, realmente, não deu de cara com os cambitos da finada, mas com os olhos acusadores e remelentos do cachorro, que pareciam dizer: eu sei o que você fez com ela, mas eu ainda estou aqui. Dedinha começou a gritar. 



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9 comentários:

Mauro disse...

Ótima!!! kkkkkkkkkkkkkk O cachorro me lembra o conto do Gato Preto de Poe! E apesar de vc ter dito q não era assombrada eu bem que achei q ela ia acordar e dar de cara com a véia! kkkkkkkkkkkkkk MTO BOA!

Cristiane disse...

Adorei o texto,cheguei ao fim sem nem perceber!
Realmente, depois de um tempo, pessoas muito prestativas acabam sendo piores que as imprestáveis... pois é difícil se livrar delas sem culpa... o melhor remédio é a distância! Acredito que o maior desafio atual é conseguir conviver com os outros, por melhores que sejam! rsrsrs.

aretuza disse...

a culpa toda é do lesma do Josualdo!!!!

Anônimo disse...

Agora só falta a sogra voltar do além!

Erica disse...

Você disse que não era assombrada! Mas é uma verdadeira história de terror!!!! Cruz Credo! rs

André disse...

Muito boa, Zozô! E ainda por cima vc mentiu dizendo que não era assombrada, ficou melhor ainda. Cômica na medida também.

Anônimo disse...

Arê tá certa! Josualdo bundão! hahaha

Anônimo disse...

A velha incorporou no cachorro, que dureza! Agora vai dar umas mordidas também, hahaha Jorge

Fabio de Souza disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk'
Que estória ótima!! Muito massa.
haha, parabéns!! :)