quarta-feira, 24 de julho de 2013

MANIFESTO SOBRE INQUIETAÇÕES >> Carla Dias >>


Eu não durmo sem verificar se os chinelos não estão virados. Disseram-me que, se deixá-los assim, a mãe morre. E olha que acreditei nisso e tanto que, mesmo depois de adulta, e consciente de que todas as mães estão a salvo do viramento de chinelos, continuo a desvirá-los, e não somente os meus. Não posso ver chinelos virados que vou logo salvando a vida de mães alheias.

Também não deixo prato sobre a mesa ou pia virar a noite com comida dentro. Pelo que me lembro, assim, de um jeito um tanto desbotado, se deixamos comida no prato durante a noite, um anjo vem e come tudo. E por mais que a ideia de um anjo seja sedutora – falo do fofo, asinhas branquinhas, bochechas rosadas – prefiro não correr o risco de levar susto ao perceber que tem gente em casa, além de mim.

Não leio livro de terror à noite. Apesar de gostar muito de Stephen King, só leio os livros dele enquanto é dia. Saco de Ossos me fez acordar durante um bom tempo às seis da manhã, só para ter uma horinha de leitura, antes de me preparar para o trabalho. Até me esforcei para lê-lo à noite, mas não funcionou muito bem. Era folhear o livro e ter uma péssima noite de sono.

Procuro não assistir a filmes de terror à noite. E se o faço, deixo as luzes da casa acesa... De toda a casa, exceto do cômodo onde está a tevê ou o computador. E dependendo do enredo, acabo dormindo com a luz do quarto acesa, durante a noite em questão, e com a cabeça coberta.

Quando era pequena, achava que o saci morava no meu quintal. Havia dias em que não saía de casa, porque tinha certeza de que ele me encurralaria com seu sorriso matreiro. Meu medo era gostar da ideia de fazer travessuras na companhia dele, e de assim, ter de me mudar para a mata. E eu gostava da minha casa, da minha cama, da minha família. Então, em dias que o sentia por perto, escondia-me dele. Era assim que acabava debaixo da mesa da cozinha ou num canto do quarto, dentro de uma tenda feita com lençol.

Princesas nunca me convenceram, e não me lembro de ter desejado me tornar uma. Talvez porque as roupas delas não se agradassem do meu corpo, ou a ideia de depender totalmente de outra pessoa para ser salva não agradasse a minha cabeça. Sobre finais felizes, meu espírito era nada esportivo – e assim segue... -, porque quem realmente deseja ficar feliz só no final da história?

Durantes em interessam.

Não dormia com os pés pra fora do cobertor, porque tinha medo que algum espírito que não tivesse o que fazer passasse pelo meu quarto e os puxasse. Obviamente, tive de me esforçar para fazer concessões, porque o aquecimento global às vezes pede um pé pra fora do cobertor, do lençol, da cama...

O mar me mete medo que só vendo. E vendo, observando o mar eu o admiro como quem é das águas. Como quem teme, mas mergulha. Só que não literalmente, que não sei nadar. Neste caso, a minha alma mergulha sozinha.

Mergulhos também me interessam.

Imagem: sxc.hu




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2 comentários:

Andressa Gomes disse...

Gosto muito dos seus textos Carla Dias.
O mar também me mete medo, desde bem pequena. Me lembro de um momento, quando eu tinha uns 8 anos, e meu pai foi me levar pra conhecer o porto de Recife. E me disse pra manter distância da beirada. E como toda criança arteira desafiei aquela imposição. E quando cheguei perto, longe dos olhos dele, e perto daquele abismo espelhado em águas, pude entender o motivo do alerta. Fiquei tonta, e parecia um íma me puxando.
Logo me afastei de medo. O engraçado, é que agente cresce, mas não aprende a lição, não é mesmo? Rsrs

Abraço de sua leitora!

A. K.

Carla Dias disse...

Andressa... É exatamente isso :)

Não sei nadar. Minha vontade de aprender foi aniquilada logo cedo, quando tentaram me ensinar me afundando em uma represa e me segurando lá embaixo. Ainda assim, não consigo me desapaixonar da água, sabe? Do mar, dos lagos e represas, da chuva.