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O CESTO MÁGICO >> Whisner Fraga

Não sei se é uma cultura recente, mas tenho a sensação que isso não rolava muito há vinte, trinta anos. Falo da permanência, cada vez maior, dos filhos na casa dos pais. Tenho amigos de quarenta anos que ainda moram com seus genitores. Não faço julgamento de valor nenhum, pois é claro que o carinho dispensado por uma mãe não chateia ninguém. Acordar às onze da manhã com um café na mesa esperando pela gente, deixar a televisão ligada e dormir, tendo a certeza que alguém a desligará e assim por diante. Quem sou eu para desvalorizar uma atenção assim?

Mas, além de morar com os pais, dois ou três desses amigos ainda são sustentados por eles! Isso, aos quarenta e poucos anos! Vivem de mesada e têm na ponta a língua a desculpa para a falta de trabalho: querem fazer o que gostam. E, vejam só, gostam de escrever, de pintar, de tocar guitarra, de vagabundear pelas ruas da cidade, atrás de um rabo-de-saia. O que houve? Será que minha geração foi mimada demais? Agora sim, estou fazendo um juízo de valor. Raciocinemos de outra maneira: se todos estão felizes, houve apenas uma mudança cultural, que ainda não engoli.

Mas algum ponto dessa mudança eu devo ter absorvido, porque mantive meus amigos mimados, sem que houvesse qualquer tipo de choque maior. Inclusive, estive com um deles recentemente, em uma dessas festas literárias que se espalharam, felizmente para nós, escritores, pelo país. Perguntei como ia a vida e ele me disse que escrevia um novo romance, que desta vez sua carreira ia ser alavancada, porque apelara para o estilo infanto-juvenil. Bom, todo mundo sabe que a literatura para crianças e jovens atualmente é galinha dos ovos de ouro dos autores.

Como sempre faço, eu o provoquei um pouco. Argumentei que não acreditava em um livro que fosse escrito tendo em mente um público específico. Que romance é romance e a história deve ser escrita sem que tentemos amenizar as coisas, ou tornar uma história mais palatável. Hoje, o que se faz é isso: facilitar o trabalho para o pré-adolescente, mastigar a narrativa. É como a mamãe pardal com seu filhotinho. E, na verdade, o que escuto sempre é isso: vou neste estilo porque é o que dá dinheiro hoje.

Em um certo momento, a conversa foi para o lado pessoal, evidente. Perguntei da mãe deste amigo, que sempre foi muito querida para mim. Quis saber também do seu cotidiano e tudo mais. E, para minha surpresa, ele me confidenciou que estava vivendo sozinho, que alugara um apartamento em um bairro afastado, uma quitinete, e que estava muito contente. E, que, pasmem, estava trabalhando. Nada demais, um emprego meio período. O salário mais a mesada davam para os gastos. Então, ele disse que sentia falta mesmo era do cesto mágico. Evidentemente eu quis saber o que era aquilo. Ele explicou: na casa dos pais, ele chegava em casa e lançava a roupa num cesto e no dia seguinte, a camisa estava pendurada, passada, cheirosa, a calça idem, as meias limpinhas e assim por diante. E que, agora, ele joga a cueca, a bermuda, a camiseta no cesto da casa nova e... Nada. O que acontece é que dia após dia a pilha só cresce e ele não sabe mais o que fazer.

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