ALMA >> Carla Dias


Vive em uma casa de vila em São Paulo. Assiste a todos os telejornais, alguns até na repetição — TV aberta e paga —, a fim de garantir que é assim mesmo que caminha a humanidade. Insanidade midiática à parte, é nos livros de História que Alma recupera o viço, relembrando que pessoas fazem o ruim, mas também recuperam a possibilidade de justiça.

Recebe pensão de ex-marido que paga para Alma não verbalizar os erros dele, testemunhadas por ela durante trinta e cinco anos de casamento e de indiferença, pois isso faria mal à sua imagem. Como não precisa desse aporte financeiro, doa tudo para a Associação dos bichos que valem a pena.

Aliás, imagem é algo que a deixa confusa. Quando encara o espelho, nem presta atenção ao que o tempo lapidou, mas identifica o cansaço de quem tem de lidar com a insônia e os quebra-cabeças da vida, entre eles, os vizinhos que não gostam da música que ouve. Reconhece que o volume é para calar a voz do mundo, ao menos dentro de sua casa, mas insiste que, se escutassem suas composições, certamente encontrariam motivo para amar Brahms. 

A verdade é que Alma vive isolada por escolha. Ter de engatar conversas com quem não a interessa — e/ou quem não se interessa por ela — é dar espaço à desimportância, perder tempo em tentativas de se destacar entre grupos, conquistar espaços reservados a uma perfeição da qual nunca viu a cara, nunca acreditou que existisse. É gastar-se em devaneios que não enriquecem sua capacidade de ser.

Dizem que é deselegante, sempre calada diante de rompantes  protagonizado pelo incontrolável dos acontecimentos, como se fosse a dona da verdade. Acontece que Alma é dona apenas de Alma, algo que aceitou, para o bem ou para o mal. Entendeu que ser nem sempre é bonito, aliás, a beleza se compadece das pessoas quando mergulhada no abismo das escolhas humanas, e desponta empoleirado nas costas dos disparates para mostrar que, apesar de tudo, prevalece. Mas nem todos têm estômago para esperar essa aparição.

Alma anda vazia, o corpo esmirrado, o riso calado. Lava louças como quem executa a última tarefa de sua existência. Para ela, o fim é daqui a cinco segundos. Alma anda repleta, o corpo dançando ao som da chuva, como se o espaço onde caber fosse infinito.

Alma dorme durante o dia e vive sua história à noite. Há quando se sente às avessas, e quando Brahms a salva da insignificância.  

---

carladias.com.br


Comentários

branco disse…
Carlinha. Sei lá... Me parece uma observação etérea, quase surreal. Que coisa linda, que é melhor só guardar dentro da gente.
Ionio Paschoalin disse…
Adorei sua Alma Carlinha. Essa é a história de tanta gente...
Zoraya Cesar disse…
Assusta perceber que, de repente, há uma Alma em cada um de nós. Calada. Despercebida. Mas viva.
Kiu Oliveira disse…
Como sempre, texto impecável, Carla.
Albir disse…
Alma lúcida e presente. E entediada! De que outra maneira poderia estar?

Postagens mais visitadas