UM BREVE ADEUS – uma aventura de Marta Atanasiou – espiã e assassina - 1a parte >> Zoraya Cesar


O bar era tão escondido que nem letreiro tinha. A rua inteira de galpões abandonados tinha um único lampião, cuja luz era suficiente apenas para iluminar uma porta verde oliva descascada e velha. Alguns carros e motos se espalhavam no meio da escuridão. 

Atrás da porta, um bar restrito a sócios bastante especiais: aqueles seres perigosos e exóticos que viviam nas camadas mais profundas do submundo, desconhecido das pessoas comuns, como nós.  Era um lugar exclusivo para as gentes que andam nas sombras, contraventores, policiais, detetives, espiões, ladrões internacionais, traficantes de bebidas, assassinos de aluguel de alta categoria, strippers, músicos underground, lutadores clandestinos, jogadores profissionais...Todos eram bem-vindos, desde que soubessem se comportar e fossem indicados por outro sócio. Lugares como aquele havia em todas as partes do mundo. Escondidos em ruas desertas e assustadoras, docas, hangares abandonados. 

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Era uma espelunca bem cuidada e não muito grande. As mesas eram espalhadas de forma a preservar a intimidade das conversas e permitir que todos se vissem a um simples virar de cabeça. A decoração era de rústica a quase desleixada. Os móveis, toalhas, louças, nada combinava entre si. Os comes e bebes, no entanto, eram impecáveis. Nas paredes, fotos e pinturas de personagens históricos e ficcionais - Anne Bonny, Rainha Mary I (Bloody Mary para os íntimos), Modesty Blaise, J. Edgar Hoover*, entre tantos. E um desenho do Mickey autografado pelo próprio Walt Disney.  A música variava de acordo com o humor do gerente, uma travesti enorme, alta e forte como o mastro de um navio e linda de matar. 

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A porta abriu. Por mais empedernidos que fossem, alguns frequentadores sentiram certa comoção. Uma lenda da espionagem internacional acabara de entrar. 

Era idoso. Os cabelos – cortados à moda militar - inteiramente brancos, as rugas que cortavam seu rosto, as bolsas sob os olhos não deixavam dúvidas de que aquele homem já vira muitos invernos inclementes. Mas os olhos cinza aço, penetrantes e argutos, gelados como um glaciar, eram atemorizadores. 

Dirigiu-se a uma mesa no canto, os passos firmes de quem não titubeia, o ar altaneiro. Seus gestos eram medidos e calculados. O elegante blazer da clássica alfaiataria inglesa Turnbull & Asser Barnet escondia músculos rijos e bem trabalhados. As mãos, não obstante as manchas senis e o ligeiro tremor, poderiam matar com rapidez e eficiência. Não era, decididamente, um senhor indefeso. Na verdade, sua figura imponente e sua fama diziam era um homem com o qual não se devia brincar. 

Encaminhou-se, elegante como um gato, para uma mesa ao canto. Acima, na parede, uma foto de Kim Philby**. Da última vez em que ali estivera havia um pôster original de O Encouraçado Potemkin. "A única certeza nessa vida é que tudo muda". Não demorou muito, trouxeram-lhe uma dose de um legítimo Bowmore 18 anos. Ele agradeceu com um leve sorriso de dentes naturais, um pouco tortos por nascimento e um pouco amarelecidos pelos quilolitros de café consumidos ao longo da vida. A bebida desceu, quente e reconfortante, por sua garganta. Olhou ao redor. Aquele bar, pensou, soubera adaptar-se às mudanças, sobreviver às guerras, traições e mortes que sacudiam o mundo. Mas um dia, um dia ele também iria sucumbir ao cansaço e sumir. 

Relaxado pela bebida, deixou que seus pensamentos flutuassem em torno de todos os acontecimentos que o trouxeram ali e uma ponta de tristeza atravessou seu coração. Era, porém, um homem acostumado ao fluxo da vida. Tantas mortes já presenciara – ou provocara -, tantas traições já cometera e sofrera, sabia que do destino ninguém escapa.  

Na segunda dose de scotch, a porta abriu-se novamente. Uma mulher entrou. Um breve silêncio tomou conta do ambiente – o som dos talheres e vidros, das garrafas sendo abertas, das cartas se embaralhando nas mãos, as baforadas de cigarro e até a respiração de uns e outros, todo ruído sumiu por alguns segundos quase palpáveis.

Os frequentadores mais bem informados não podiam acreditar no que viam. Duas lendas da espionagem, contra-espionagem e das mortes sem assinatura juntas na mesma noite! Os que não entenderam muito bem o frisson que percorria o ambiente como uma corrente elétrica de alta voltagem eram experientes e espertos o suficiente. Sabiam que, só por estar ali e provocar aquele efeito ela era alguém a ser respeitado e temido.

E estavam certos. A Única. A Dama da Morte. A Imbatível chegara. 

Marta Atanasiou. 

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Outras aventuras de Marta Atanasiou

Um estranho café - ninguém estranhou quando uma velha senhora entrou, em plena madrugada, em um bar frequentado apenas por elementos altamente suspeitos.

No clube dos proscritos - parte 1 - se ele cumprisse sua missão, seria um herói. Se não, seria um cadáver.

No clube dos proscritos - parte 2 - às vezes, para um viver o outro tem de morrer. E, antes que eu me esqueça, a soberba não é um pecado capital à toa. 

A hora do chá - A hora do chá é sagrada. Cuidado para não pegar a xícara errada.

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  • *Anne Bonny - pirata temível, de origem irlandesa que atuava no Caribe
Attribution https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Anne_Bonny%2C_Firing_Upon_the_Crew%2C_from_the_Pirates_of_the_Spanish_Main_series_%28N19%29_for_Allen_%26_Ginter_Cigarettes_MET_DP835030.jpg
  • Rainha Mary I (Bloody Mary para os íntimos)
  • Modesty Blaise
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Modesty_Blaise.jpg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/94/Modesty_Blaise.jpg
Καινους, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons
  • J. Edgar Hoover - fundador do FBI
  • Kim Philby - um dos maiores agentes duplos - conhecidos - de todos os tempos
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Foto do scotch whisky Bowmore 

Attribution:
Pbrundel, CC BY-SA 3.0 <http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/>, via Wikimedia Commons
FileURL: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6a/Bowmore_Dusk_Single_Malt_Whisky.jpg
Page URL:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bowmore_Dusk_Single_Malt_Whisky.jpg










Comentários

Marcio disse…
Zoraya, acho que vai dar match entre esses personagens.
Tem algum motel sórdido nas proximidades dessa espelunca?
E, considerando que o bofe não tem nome, ficou claro que ele vai morrer.
Vai ser como a cópula do Louva-a-Deus.
branco disse…
o ambiente e suspense foram colocados à mesa(e muito bem por sinal). aguardemos....
Érica disse…
Tchan, tchan, tchan,tchan... Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...
Albir disse…
Eu já sentia sinais de abstinência por cadáveres nas férias, mas acho que dois assassinos são melhores que um (melhores?). Bem aqui estou para mais um cálice de blood!
Você está ficando cada vez mais sádica! Nem uma dicazinha mínima, além do fato do coroa ter bom gosto! 2 semanas! 2 semanas sem saber onde isso leva! É muita maldade! :(
Zoraya Cesar disse…
Pessoal, mil vezes grata pelos comentários!
Paulo Barguil disse…
Cenário e personagens apresentados. :-)
Que venham as aventuras...
Nadia Coldebella disse…
Aiai... Essa vai dar trabalho...

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