O AFOITAMENTO DO SUSPIRO >> Carla Dias

Hope in a Prison of Despair  ©  Evelyn De Morgan

Reprime o suspiro. Sente como se engolisse comida ruim, aceitasse chantagem, tivesse de resumir a si em três palavras que nem sabe quais são. As paredes falam, as horas passam, tudo e todos se manifestam e ela assim, calada por precaução. Vai que deixe escapar suspiro que não sabe se comportar. Está ciente de que precisa tentar domá-lo, pois o dito adora um prolongamento de fazer os olhares dos outros se espantarem com atrevimento sonoro-emocional. No entanto, suspirar não faz parte da pauta da reunião. Só que o suspiro caminha por dentro, atiçando seus sentidos, mostrando-se incapaz de se retirar em silêncio, dar-se por vencido. O suspiro se atraca com elas, as palavras, e as muda de lugar, leva as tais para um passeio proibido em horário comercial, quando um suspiro pode criar instabilidade profissional. Quando vem sem avisar, bancando o amplificador de dor de coração partido, o fôlego se exibe, porque sabe que não é de frequentar esquecimento. Ela sente o suspiro represado se rebelando. Falta-lhe o fôlego, sobra-lhe descompasso na respiração. Agarra-se ao desconforto, insiste na prisão. É por gosto ou necessidade? E chegam as inconveniências patrocinadas pelas paixões efêmeras, viagens ao supermercado, as incansáveis discussões sobre rever resultados e justificar erros cometidos, todas acompanhadas por dose de café de horas atrás. Ainda é horário comercial, mas chegou o momento dos assuntos íntimos se sobreporem às planilhas e conferência de agenda do dia seguinte, em uma batalha que tem como meta atingir a meta do dia. Chamam isso de conversa fiada, ela acha que é apenas falta de terapia. E o suspiro em ponto de necessidade urgente de se alojar em acontecimento. No seu interior o suspiro luta bravamente para ser reconhecido, para assumir o seu lugar de anfitrião do desejo, para ganhar som. Não quer ser o último, antever a morte. Ela sabe que o suspiro quer se espalhar pelo recinto, oferecer-se à vida, indiferente se isso é ou não adequado para a ocasião.

 

Imagem: Hope in a Prison of Despair  ©  Evelyn De Morgan

Comentários

Carla Dias disse…
Eduardo... que alegria vê-lo aqui! <3
branco disse…
suspiros inadequados...quem nunca os teve?...mais uma belezura sua carlinha.
silvana disse…
Suspiros inadequados agora são abafados pelas máscaras. Entortar de bocas também. Felizmente as viradas de olhos ainda são visíveis.
Zoraya Cesar disse…
"E o suspiro em ponto de necessidade urgente de se alojar em acontecimento."
Nem digo nada. Ou melhor, digo: como vc conseguiu, a partir de um suspiro reprimido criar uma perfeiçao dessas?
Nem sei dizer o qtas vezes reprimi os suspiros e agora, de alguma maneira, graças a esse texto, posso entendê-los, saber q têm vida própria.
Estou encantada
Albir disse…
Tempo em que o suspiro discursa e a palavra silencia.
Carla Dias disse…
Branco, acho que uns desses inadequados até costumam colocar sentimentos nos braços do reconhecimento. Às vezes, eu os invejo.

Silvana, tenho comigo que suspiros inadequados são libertários e temerários. Acham sempre um jeito de se jogar no escandalizar do outro.

Zoraya, acho que sou bem talentosa em aprisionar suspiros. Ultimamente, minha rebeldia me guia em direção à liberdade que alguns eles merecem.

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