Saudade azul >> Alfonsina Salomão


Saudade azul. Desde quando saudade tinha cor? A esperança era verde, a raiva vermelha... Sim, a saudade também deveria ter sua cor, e o azul parecia apropriado. Não dava para ser amarelo, porque saudade nunca amarela... Rosa era uma cor por demais feminina, e o laranja muito ensolarado. Preto e violeta eram fúnebres. É verdade que às vezes a saudade doía tanto que dava vontade de morrer, principalmente quando era saudade de alguém que já se fora. Mas a maior parte do tempo era apenas melancólica.

 

Então decidiu: saudade azul. E agora, como continuar? Como descrever isso que me acostumei a chamar de saudade, mas desconfio seja mesmo solidão? Seria saudade azul o mal-estar que não me deixa sair da cama quando acordo, fazendo-me relançar o alarme diversas vezes antes de abrir os olhos? Que torna o gesto seguinte, o de colocar os óculos, um esforço? Que me leva a ficar meia-hora lendo bobagens no celular antes de ter coragem de botar os pés no chão?

 

Depois o dia engrenava e a saudade azul só voltava a aparecer no meio da tarde. Ela até se esgueirava antes, logo depois do almoço, mas o escritor tinha descoberto um macete para apartá-la: café com chocolate. Mas às quatro horas nada adiantava, a saudade azul voltava implacável. E ele pensava nos seus vinte anos, nos amigos da faculdade, na alegria dos cigarros de maconha, nas mil e uma trepadas deliciosas... Quem imaginaria que aos quarenta estaria preso num cotidiano familiar infeliz, com uma esposa sem libido e as noites estragadas pelo choro do bebê... 

 

Saudade azul escuro, manchada de preto, borrada de vermelho, amarelada pela solidão. Saudade de imigrante dói mais. Saudade de imigrante-mal-amado mais ainda. E saudade de imigrante-mal-amado-desiludido-profissionalmente então, nem se fala.  

 

Saudade verde-cor-de-jiló, decidiu. Mas que porra de texto vou escrever com isto? Amassou a folha de papel e arremessou-a ao cesto de lixo no outro canto da sala. A bolinha bateu na beira do cesto e caiu no chão. Ele se levantou, resignado, catou o papel e aproveitou para catar duas peças de lego embaixo do sofá. Escovou os dentes e foi se deitar. A noite seria dura e amanhã começava tudo de novo.

Comentários

E não é que saudade tem cor mesmo... Bela sacada!
Anônimo disse…
Esse texto fala muito do que sinto! Vida de imigrante e assim, parece que nós sentimos eternamente ‘partagé’.
Ah! E acho q vc achou a cor ideal pra saudade!
Zoraya Cesar disse…
Saudade é azul. E nao se fala mais nisso. Belo texto, Alfonsina!
Albir disse…
Concordo, não se fala mais nisso. Já sinto a saudade azul. Pelo menos até que Afonsina publique outro texto e me convença de outra cor.

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