À MÃO >> Carla Dias

By painting William Girometti, photo Silvia Girometti - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=29779849

Às vezes, ele me faz sentir assim: inútil. É um tempo longo desperdiçado em espera vã. Ainda bem que o sofá é confortável. Já me afundei nele mil vezes nas últimas horas. Só que diante da repetição, sem qualquer ação para justificar tantas pausas emendadas, não tarda para o meu relacionamento com o sofá azedar, desconfortar.

Sei que estou na lista dos sujeitos-objetos mais abjetos dos últimos tempos, ao menos lá na repartição, onde detestam que eu apareça. Sou das poucas beneficiadas com a distância oferecida pela tecnologia. 

Às vezes, ficar à toa até me agrada, faz o sangue circular tinindo. Tinta. Faz a tinta que circula nas minhas veias se desesperar em busca de saída. Querer se escoar de mim, abandonar as estreitas vias de acesso ao desimportante.

Ele tem prazer em escrever à mão. A irmã volta sempre ao assunto das árvores, da natureza quase morta feito a retratada por alguns pintores de quadros. Insiste para que ele compreenda que as folhas de papel abandonadas sobre a sua escrivaninha representam o caminho sem volta para o fim do planeta. E eu só consigo pensar no fim da coluna do escritor abandonado pela inspiração... ou talento... habilidades... ou o que o valha. Penso nele curvado durante um dia inteiro sobre um papel vazio, desviando o olhar de centenas de outros papéis vazios, vagos feito casa nos minutos seguintes à desocupação mediante ordem de despejo.

Quando o eco é da dor de quem foi obrigado a abandonar o único abrigo.

Não há no que eu me intrometer, não dessa vez. O escritor me deixa à mercê da capacidade que vem aprimorando, cada dia um tanto mais, de se diluir em ausência de enredo. Há tristeza que até dentro de mim – narradora, a única que se permite sentir prazer provocado pelo intrometimento – reverbera cortante, vítima de afiada lâmina ceifadora de palavras.

Eu me animei ontem quando ele empunhou a caneta e então começou a deslizá-la no papel: arfante, pronunciando ruídos de desespero cadenciados, uma música que ardia nos meus sentidos amplificados de narradora que tem de saber sentir intensamente para se lembrar do que não lhe cabe exercer. 

Respirei fundo, amarrei os seus cadarços, penteei os seus cabelos com as costas da minha mão. Afaguei o seu olhar cronicamente desinteressado com um punhado indecente da minha insatisfação.

O que vou narrar, me diz? 

Se me tornar inútil, como você vai observar? 

E se tudo acabar em diálogos de hediondo obscurantismo ou escassez de percepção, e aí? O que será dos jardins a se vestirem de cores, galhos e pétalas, enquanto gentes correm sapateando sobre a beleza deles, arrastando a própria mediocridade, coleções pessoais de crimes variados, flertando com a leveza que não merecem?

Não há justiça que se estenda aos sem-história, meu caro. Não importa se cambaleiam durante a sua narração maltratada por achismos, que inverta as verdades para adequá-las ao que ignora. 

Sei que mora em você o que ser contado e absorvido. A cada vez que me afundei no seu sofá, exausta de esperar pelo sei lá o quê, algo arrepiava os meus sentidos, me fazia acreditar que não era hora de desistir do trabalho e assumir que não tinha o que a narrar. E não se anime, meu incauto escritor desatendido pelo desejo de se esgueirar pelas palavras de um dicionário de sinônimos, não sou escolher abdicações... não eu.

Ele não é dos que grita a dor que o norteia. Debruço-me do outro lado da escrivaninha, observo de perto. Ele não é dos que grita as delícias às quais deseja se entregar. Nele tudo é intenso, mas se revela no amiúde, não raso... manso, cadenciado, um crescendo bem desenhado.

Meus colegas de profissão podem até me odiar por ser uma narradora intrometida, isso não me importa. Eles não sabem o que é assistir a um momento desses de tão perto, de tão profundo, de tão revelador.

A irmã leu a história do irmão de uma só vez. Foram horas sentada na poltrona na qual me afundava, antes que ele despertasse para a história. A irmã leu a história sobre o caminho sem volta para o fim do planeta e chorou, copiosamente, abraçando as folhas de papel que, dias antes, dormiam sossegadamente sobre a escrivaninha empoeirada.


Pintura © William Girometti | Foto © Silvia Girometti

carladias.com 

Comentários

branco disse…
" Se me tornar inútil, como você vai observar? "
Tornando-me observador , tomando seu lugar, respondo:
SEMPRE, e com os olhos de quem conhece um pouquinho das incursões interiores que uma observadora nada incauta faz e em seu retorno nos trás de presente souvenirs lindos, lindos, lindos...com este.
Zoraya Cesar disse…
Eu já havia me prometido não mais ler seus textos no domingo à noite. Pronto, lá vou eu passar horas de olhos bem abertos, a mente em circunvoluções labirínticas e belas a pensar nas suas linhas.

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